Opinião
E quem audita o “auditor”?
Opinião
Como pode um servidor público, proibido pela Constituição Estadual de gerir empresas, atuar como dono de escritório de contabilidade e ainda ostentar um padrão de vida que sugere enriquecimento ilícito? É, no mínimo, intrigante ver quem tanto prega “transparência” esquecer de aplicar a própria matemática em casa. Corre à boca pequena que o “especialista” em auditar números alheios tem evitado olhar para o próprio extrato, que apresentaria movimentações financeiras astronômicas e incompatíveis com o seu subsídio.
Seria cômico, se não fosse grave: um profissional da contabilidade que ignora as leis administrativas para lucrar por fora. Onde fica o rigor técnico de quem deveria dar o exemplo, mas prefere atuar nas sombras da ilegalidade? Antes de querer dar aula de gestão para a categoria, seria prudente que esse “fiscal” explicasse como sua evolução patrimonial — que aponta indícios de lavagem de dinheiro — sobreviveria a uma auditoria séria sobre a origem de seus recursos.
O rastro de irregularidades, contudo, não fere apenas a ética profissional, mas atinge diretamente o bolso e a tranquilidade de quem confiou em seus serviços. Há relatos preocupantes de colegas da categoria que se viram em situações críticas após contratarem o referido escritório. Por conta de declarações de Imposto de Renda fraudulentas, diversos profissionais enfrentam hoje o pesadelo da malha fina e são obrigados a pagar dívidas vultosas com a Receita Federal. O “especialista” que prometia facilidades entregou, na verdade, prejuízo e insegurança jurídica.
Chama a atenção que alguém com um histórico tão peculiar, incluindo o fato de ter sido alvo de buscas durante a Operação Pandora, ainda tente ditar regras de moralidade. Para quem não se recorda, as investigações daquela época já lançavam luz sobre os “mercadinhos” dentro das unidades prisionais; coincidentemente, o mesmo “fiscal” era o contador técnico da associação responsável por gerir esse comércio na Penitenciária Central do Estado, onde as contas sempre pareceram criativas demais para serem reais.
Quem atua no mercado contábil, mas mantém a vida financeira sob suspeita, não possui autoridade para auditar ninguém. O sol nasce para todos, mas a sombra da dúvida só persegue quem insiste em caminhar com o telhado de vidro.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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