Economia
Em VG, mulheres transformam tradição centenária em empreendedorismo, renda e reconhecimento internacional
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Em Limpo Grande, distrito de Várzea Grande banhado pelas águas do rio Cuiabá, o som dos teares continua ecoando entre gerações. São mãos experientes, marcadas pelo tempo, e mãos jovens, ainda aprendendo os segredos de uma arte centenária. Juntas, elas tecem mais do que redes: tecem histórias, identidade, pertencimento, renda e oportunidades.
Foi justamente para manter a tradição viva que nasceu, em novembro de 2021, a Associação das Redeiras de Limpo Grande, amplamente conhecida como Tece Arte. A iniciativa surgiu da união de 15 mulheres que compartilhavam o mesmo propósito: preservar um saber ancestral herdado dos povos originários e transmitido de geração em geração dentro das famílias da comunidade.
Hoje, o grupo reúne 53 artesãs com idades entre 20 e 73 anos, tornando-se exemplo de como a cultura pode caminhar lado a lado com o empreendedorismo.
Entre essas mulheres está Jilaine Maria, presidente da associação e representante da terceira geração de uma família de redeiras. Ela aprendeu o ofício do tear com a mãe, que, por sua vez, herdou os ensinamentos da avó.
“A troca de saberes é o que mantém essa arte viva. Aprendi com minha mãe, que aprendeu com minha avó. Hoje nossa missão é garantir que as próximas gerações também tenham orgulho de carregar esse legado”, afirma.

A preocupação com a continuidade da tradição é constante. Segundo Jilaine, atrair os mais jovens para uma atividade artesanal que exige dedicação, técnica e paciência continua sendo um dos grandes desafios da associação.
“A nova geração é imediatista e muito conectada. Então algo artesanal, que pode levar meses para ser confeccionado, nem sempre atrai. Por isso, buscar novas pessoas para aprender e seguir esse legado é um dos nossos grandes desafios”, destaca.
Essa tradição atravessa gerações dentro das famílias da comunidade. Foi assim com Maria da Conceição, que transmitiu os conhecimentos do tear à filha, Lethycia Roberta. As duas integram a associação desde sua criação e encontram no artesanato não apenas uma forma de preservar a cultura local, mas também uma oportunidade de complementar a renda familiar.
“A renda extra é um importante complemento. Ainda não dá para sobreviver apenas da associação, mas o trabalho manual distrai a mente, promove bem-estar e traz muitas coisas boas”, relata Lethycia.
Para Maria da Conceição, o trabalho tem um significado ainda mais profundo.
“Perdi dois filhos e um neto, e focar no trabalho distrai a mente e evita pensamentos ruins”, revela.
Mais do que preservar uma tradição, as mulheres da comunidade encontraram no empreendedorismo uma forma de fortalecer a economia local e complementar a renda familiar. Muitas trabalham em suas próprias casas, conciliando a produção artesanal com as atividades do dia a dia. Outras se reúnem no Centro Cultural Neide Clementina Lemes, sede da associação e espaço dedicado à divulgação da cultura ribeirinha.

Ali, fios ganham forma e se transformam em redes, xales, caminhos de mesa e peças exclusivas que carregam a identidade de Mato Grosso.
Para Jilaine, a criação da associação representa a realização de um sonho coletivo.
“A união faz a força, mas o conhecimento é a base firme para que o empreendedorismo aconteça de fato”, resume.
Atuar de forma coletiva fortalece os laços entre as artesãs e amplia as oportunidades para todas.
“Acho muito bonito minha filha atuar junto nesta tradição. Espero que isso incentive ainda mais jovens a manter vivo nosso legado”, reforça Maria da Conceição.
Conhecimento que gera oportunidades
A profissionalização do trabalho foi um dos principais marcos da trajetória da Tece Arte. O grupo passou a investir em capacitações, treinamentos e parcerias voltadas ao fortalecimento da gestão, da comercialização e do posicionamento de mercado de seus produtos.
Nesse processo, o apoio do Sebrae foi fundamental para que as artesãs compreendessem melhor o potencial econômico da atividade e enxergassem novas possibilidades para um conhecimento que já fazia parte da identidade da comunidade.
Mais do que ensinar técnicas de gestão, as capacitações ajudaram as redeiras a reconhecer o valor do próprio trabalho. O saber transmitido entre gerações ganhou ferramentas para alcançar novos mercados, ampliar a renda familiar e fortalecer a sustentabilidade da associação.

“O Sebrae é um grande parceiro que nos ajudou a entender melhor o nosso negócio. Uma das maiores mudanças foi aprender sobre precificação. Antes tínhamos muitas dúvidas. Hoje sabemos calcular o valor de uma peça que é única, totalmente artesanal e que não existe em nenhum outro lugar do mundo”, destaca Jilaine.
Entre os reconhecimentos obtidos está o Prêmio Sebrae TOP 100 de Artesanato, que colocou a Tece Arte entre os destaques nacionais do setor.
“O prêmio coroa todo investimento em estudos, ações e profissionalização que vem construindo uma nova fase da nossa entidade”, ressalta.
A trajetória da Tece Arte acompanha uma tendência observada em todo o país. Estudos do Sebrae mostram que o empreendedorismo feminino segue em expansão no Brasil. Nos últimos dez anos, o número de mulheres à frente de negócios cresceu 27%, fortalecendo a geração de renda, a autonomia financeira e o desenvolvimento de comunidades em todo o país.
Em Limpo Grande, esse movimento ganhou contornos próprios. As artesãs transformaram um patrimônio cultural em oportunidade econômica sem renunciar à essência da tradição.
Vitrines para novos mercados
O fortalecimento da associação também ampliou a presença das redeiras em feiras e eventos voltados à cultura, ao turismo e à economia criativa. Para as artesãs, esses espaços representam oportunidades de divulgação, intercâmbio cultural, geração de negócios e acesso a novos mercados.
Entre os compromissos confirmados está a participação na Feira Internacional do Turismo do Pantanal (Fit Pantanal), realizada entre os dias 3 e 7 de junho, no Centro de Eventos do Pantanal, em Cuiabá. Além de expor suas peças, as artesãs realizam demonstrações ao vivo da técnica centenária que atravessa gerações em Limpo Grande e participam de painéis voltados à valorização da cultura regional e do empreendedorismo.

Já entre os dias 8 e 19 de julho, a associação marca presença na Feira Nacional de Negócios do Artesanato (Fenearte), em Olinda (PE), considerada a maior feira de artesanato da América Latina. O evento reúne milhares de visitantes, artesãos e expositores do Brasil e do exterior, ampliando as possibilidades de comercialização, conexões e visibilidade para os participantes.
“A participação em feiras promove o intercâmbio cultural, amplia a visibilidade da nossa arte e abre portas para novas parcerias. Cada evento é uma oportunidade de mostrar ao Brasil e ao mundo a riqueza cultural que existe em Limpo Grande”, destaca Jilaine.
De Limpo Grande para o mundo
O reconhecimento conquistado pela Tece Arte ultrapassou as fronteiras de Mato Grosso. As peças produzidas pelas redeiras já participaram de importantes eventos nacionais e chegaram a outros países. Redes confeccionadas na comunidade estão presentes em locais como Inglaterra e Vaticano, levando consigo parte da história, da cultura e da identidade mato-grossense.
A visibilidade também abriu portas para parcerias com estilistas e projetos de moda. Um dos momentos mais emblemáticos ocorreu quando peças produzidas pelas artesãs foram incorporadas a uma coleção apresentada na São Paulo Fashion Week, uma das maiores vitrines da moda latino-americana.
“Ver nossa arte chegando a tantos lugares nos enche de orgulho. É nossa tradição ganhando reconhecimento e mostrando ao mundo a riqueza cultural de Limpo Grande”, celebra Jilaine.

Uma das peças escolhidas para compor a coleção foi confeccionada por Lethycia, que desde pequena se apaixonou pelo ofício e se especializou na produção das tradicionais varandas das redes.
“É uma sensação incrível ver as peças que confeccionamos aqui em nossa comunidade brilhando nas passarelas. Nossa arte única, totalmente artesanal e com traço marcante, compondo criações que chegam a diferentes partes do mundo”, comemora.
O crescimento da associação segue em ritmo acelerado. Entre os projetos em andamento estão capacitações voltadas à exportação dos produtos e o desenvolvimento de peças exclusivas para compor empreendimentos turísticos e hoteleiros de Mato Grosso.
Enquanto novos horizontes surgem, as artesãs mantêm o propósito que motivou a criação da associação: preservar um legado construído ao longo de gerações.

Se para Maria da Conceição o tear representa memória, superação e acolhimento, para Lethycia ele simboliza continuidade. Mãe e filha representam o passado, o presente e o futuro de uma tradição que resiste ao tempo e se reinventa por meio do empreendedorismo.
“Espero manter viva com as novas gerações nossa arte, que reúne força, sabedoria popular e muito amor. As tramas são complexas, mas ver a peça pronta faz com que a dor, o cansaço e toda dificuldade passem, restando apenas a entrega do belo e significativo, que é a nossa arte”, reforça Lethycia.
Em Limpo Grande, os teares continuam trabalhando. Entre fios coloridos, conversas compartilhadas e saberes transmitidos de geração em geração, cada peça produzida carrega muito mais do que beleza artesanal. Carrega a história de mulheres que transformaram tradição em empreendedorismo, preservaram um legado centenário e provaram que sonhos coletivos também podem ser tecidos à mão.
Economia
Morre a demógrafa Elza Berquó, referência em estudos populacionais
Faleceu nesta quinta-feira (16), em São Paulo, aos 100 anos, a demógrafa Elza Salvatori Berquó. Professora e cientista, matemática em sua primeira formação, atuou por décadas na compreensão do Brasil, analisando dados demográficos e censitários.

Elza se destacou na articulação de alguns dos centros de pesquisa mais importantes do continente, fundamentais para entender o Brasil, sua urbanização e as transformações que marcaram nosso país entre as décadas de 1960 e 2000.
Defendia o acesso aos métodos contraceptivos, ao aborto e aos direitos reprodutivos de forma consciente e esclarecida por toda a população, além de discutir, com persistência e rigor, problemas como a mortalidade infantil.
“Ela trouxe ao mesmo tempo o rigor acadêmico e o compromisso político com os direitos humanos, o que é uma coisa rara”, disse a fundadora da ONG Cepia Cidadania, Jacqueline Pitanguy, em entrevista ao programa Viva Maria, na Rádio Nacional.
Natural de Guaxupé (MG), Elza estudou Matemática na Universidade Católica de Campinas, concluiu mestrado em Estatística pela Universidade de São Paulo (USP) em 1949 e fez Especialização em Bioestatística na Columbia University, USA, no ano seguinte.
Se destacou em 1965, ao analisar o desenvolvimento da população paulista a partir dos censos de 1940 e 1950. Atuando na Faculdade de Saúde Pública da USP, foi aposentada compulsoriamente em 1968.
No ano seguinte participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ao lado de Fernando Henrique Cardoso, Octávio Ianni, José Arthur Giannotti e outros intelectuais que a ditadura tentava calar.
“Elza é a história da demografia no Brasil e, particularmente, da Unicamp, que se tornou pioneira nos estudos na área e abriu um flanco importante para o desenvolvimento da pesquisa e do ensino”, disse o ex-coordenador do Nepo-Unicamp José Marcos Cunha.
Berquó foi uma das fundadoras do Núcleo de Estudos de População da Unicamp (Nepo-Unicamp), que desde 2014 leva seu nome. A instituição também centralizou as comemorações de seu centenário, em outubro do ano passado, em justas homenagens a sua presença e legado.
“Hoje é um dia triste porque perdemos uma mulher fantástica, uma cientista inspiradora. Mas, ao olhar para a vida de Elza, celebramos suas conquistas, as pessoas que ela formou, as instituições que criou e sua trajetória incrível”, comentou a cientista social, antropóloga e demógrafa Gláucia Marcondes, atual coordenadora do Nepo.
Em 1995, fundou e presidiu a Comissão Nacional de População e Desenvolvimento, órgão do governo federal que assessora a tomada de decisões estratégicas nesse campo.
“Elza Berquó, nossa primeira presidente da CNPD, acreditou profundamente no Brasil, contribui para a ampliação dos direitos humanos de todas as pessoas, viu pessoas atrás dos números e defendeu ao longo de toda sua vida, no marco dos seus 100 anos, a democracia e as políticas públicas baseadas em evidências”, aponta o presidente da CNPD, Richarlls Martins.
“Elza é a mãe da demografia brasileira, teve uma trajetória excepcional no desenvolvimento de instituições relevantes na área, como a criação da ABEP, do NEPO e da Comissão Nacional de População e Desenvolvimento do Governo Federal (CNPD).”, afirmou o Acadêmico Eduardo Rios Neto, que trabalhou junto a Elza na ABEP.
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