Agricultura
Exportação recorde em maio injeta R$ 1,77 bilhão no campo e estanca queda
Agricultura
As exportações brasileiras de algodão em bruto registraram forte aceleração nas primeiras três semanas de maio de 2026, superando em apenas 15 dias úteis todo o volume embarcado em igual mês do ano passado.
De acordo com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), divulgados nesta semana, o ritmo diário de embarques cresceu 67,8% na comparação anual. O avanço operacional injeta fôlego financeiro no setor e ajuda a reverter o cenário crítico do início do ano, quando os preços baixos ameaçavam encolher a área cultivada da próxima safra.
O fluxo intenso de vendas ao exterior totalizou 230,339 mil toneladas da pluma até a parcial deste mês, contra as 192,204 mil toneladas registradas ao longo de todo o período de maio de 2025. Esse avanço elevou de forma expressiva o faturamento diário dos exportadores, que saltou de R$ 73,69 milhões no ano passado para R$ 118,405 milhões em maio deste ano, acumulando uma receita que já atinge R$ 1,77 bilhão.
O forte desempenho comercial acabou por compensar a leve retração de 4,2% no preço médio da tonelada exportada, que recuou para R$ 7.710,50 no mercado internacional, acompanhando as oscilações naturais das bolsas externas.
Para o produtor que planeja os custos na fazenda, a reação recente dos preços na Bolsa de Nova York trouxe o alívio necessário após um começo de ano severo. As cotações da pluma, que operavam nos menores níveis históricos recentes e indicavam um encolhimento de até 8% na área plantada nacional do ciclo 2025/26, reagiram com a quebra de safra provocada pelo clima seco no Texas, o principal polo produtor dos Estados Unidos.
O gargalo na oferta global fez o preço da libra-peso subir de R$ 3,00 para a faixa de R$ 4,00, contrabalançando o impacto da recente queda do petróleo, que costuma tirar a competitividade do poliéster sintético e dar suporte à fibra natural.
No cenário doméstico, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) indica que o ritmo dos negócios locais adotou uma postura mais cautelosa nos últimos dias, acompanhando a realização de lucros de investidores externos e a expectativa de chuvas nas lavouras americanas. Apesar dessa calmaria temporária no mercado físico, a melhora nas margens consolida uma perspectiva muito menos negativa para a próxima temporada, com o cotonicultor agora voltando as atenções para os custos dos fertilizantes nitrogenados. Caso a trajetória de queda desses insumos se confirme até o término do ano, o custo de implantação do algodão safrinha cairá de forma relevante, assegurando melhor rentabilidade na colheita.
A dinâmica regional e global também permanece no radar das fazendas brasileiras para o fechamento do ano. Na Argentina, o governo anunciou um cronograma gradual de redução dos impostos sobre exportações agrícolas, as chamadas retenciones, medida que pode estimular novos investimentos no país vizinho ou retardar as vendas locais por parte dos agricultores que aguardam novas desonerações tributárias. Paralelamente, o mercado internacional segue monitorando a ausência de confirmações oficiais da China sobre as compras agrícolas prometidas aos Estados Unidos, além da volatilidade no mercado de energia gerada pelas tensões no Oriente Médio e pelo risco de fechamento do estreito de Ormuz.
A longo prazo, a sustentação da demanda por matérias-primas agrícolas no País ganha um novo componente com a expectativa do setor de biodiesel em torno do aumento da mistura obrigatória do combustível fóssil de 15% para 16%. O governo federal oficializou a realização de testes que podem elevar gradualmente esse patamar para até 25% no futuro, dividindo os custos dos estudos entre as usinas e criando um horizonte de consumo firme que tende a dar suporte indireto a toda a cadeia de oleaginosas e fibras no mercado interno.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Metade do prazo já passou e renegociação rural de R$ 100 bilhões ainda não chega ao produtor
Metade do prazo para a contratação das linhas especiais destinadas à renegociação das dívidas rurais já transcorreu, mas produtores continuam relatando dificuldades para acessar o programa. A Medida Provisória nº 1.376, publicada em 15 de julho, concedeu 120 dias para as operações, período que termina em meados de novembro.
A demora ocorre quando R$ 207,5 bilhões da carteira ativa de crédito rural apresentam algum tipo de problema. O valor corresponde a 23,5% do total e reúne financiamentos inadimplentes, vencidos, renegociados ou prorrogados, segundo dados de julho do Banco Central compilados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul).
O mecanismo foi anunciado com potencial para renegociar mais de R$ 100 bilhões em dívidas de produtores e cooperativas atingidos por eventos climáticos ou pela queda dos preços agrícolas. O Banco do Brasil calcula que até 113 mil clientes da instituição podem ser alcançados pelas novas condições.
Na prática, porém, exigências documentais, custos adicionais, pedidos de novas garantias e cobrança de entrada estão impedindo que parte dos produtores conclua a operação. As dificuldades atingem principalmente agricultores familiares, pequenos produtores e propriedades com o caixa mais comprometido.
Em nota a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) manifestou preocupação com a execução da medida e pediu que o Congresso acompanhe o funcionamento das linhas. A entidade reconhece a importância da renegociação, mas avalia que os recursos ainda não chegam ao campo na velocidade e na escala exigidas pela crise.
Para Isan Rezende (foto), presidente do Instituto do Agronegócio (IA) e da Federação dos Engenheiros Agrônomos de Mato Grosso (Feagro-MT), a existência da linha não basta se as condições impedirem a contratação.
“A renegociação foi apresentada como uma saída para produtores que acumulam perdas há várias safras. Se o agricultor chega ao banco e encontra uma sequência de exigências que não consegue cumprir, a política existe no papel, mas não resolve o problema dentro da propriedade”, afirma Rezende.
Para acessar as condições gerais, o produtor precisa comprovar perdas em duas ou mais safras entre 2019 e 2025, com redução mínima de 30% da renda bruta esperada. A comprovação deve ser feita por laudo emitido por profissional legalmente habilitado.
A exigência busca dar segurança à aplicação dos recursos públicos, mas se transformou em um dos principais obstáculos. Além do custo de contratação do responsável técnico, o produtor pode ter dificuldade para reconstruir dados de lavouras cultivadas vários anos atrás.
A FPA propõe que pequenos produtores possam apresentar laudos coletivos quando as propriedades de uma mesma região tiverem sido atingidas pelo mesmo evento climático. Também defende a dispensa de um novo documento nos casos de operações que já passaram por renegociação e permanecem com saldo comprometido.
“Não se trata de retirar a fiscalização nem de aceitar informações sem comprovação. É possível manter o rigor e, ao mesmo tempo, reconhecer perdas coletivas provocadas por uma seca, enchente ou geada. Exigir dezenas de laudos individuais para propriedades vizinhas atingidas pelo mesmo evento aumenta o custo e atrasa uma solução urgente”, diz Isan Rezende.
A medida provisória permite renegociar financiamentos de custeio, comercialização e industrialização, determinadas parcelas de investimentos e algumas Cédulas de Produto Rural (CPRs) com liquidação financeira. As operações precisam atender às datas e condições estabelecidas no texto.
Os limites chegam a R$ 400 mil para agricultores familiares atendidos pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), R$ 2 milhões para beneficiários do Programa Nacional de Apoio ao Médio Produtor Rural (Pronamp) e R$ 4 milhões para os demais produtores.
As taxas anuais são de 6% para o Pronaf, 9% para o Pronamp e 12% para os demais. O prazo de pagamento pode chegar a oito anos, com a primeira amortização do principal dois anos depois da contratação, embora os juros sejam pagos durante a carência.
Nos casos mais graves, envolvendo perdas de pelo menos 40% da renda em três ou mais safras, os limites e os prazos são ampliados. O financiamento pode chegar a R$ 8 milhões para produtores fora do Pronaf e do Pronamp, com pagamento em até dez anos.
Outro problema é a cobrança de entrada. Produtores que procuram a renegociação geralmente já enfrentam falta de capital de giro. Exigir um pagamento antecipado pode excluir justamente aqueles que apresentam maior necessidade de reorganizar o passivo.
Há ainda preocupação com a próxima safra. A medida provisória determina que a renegociação não pode impedir a contratação de novos financiamentos nem levar o beneficiário a cadastros restritivos. Ao mesmo tempo, permite que os bancos apliquem suas políticas internas, reavaliem o risco e peçam reforço das garantias.
Essa combinação cria uma diferença entre a proteção escrita na norma e a decisão tomada na agência bancária. Formalmente, a adesão não bloqueia o crédito. Na avaliação individual, entretanto, o comprometimento financeiro pode levar o banco a recusar ou limitar novos recursos.
“A dívida passada precisa ser reorganizada para que o produtor volte a produzir. Renegociar o passivo e fechar a porta do crédito para a nova safra apenas adia o problema. Sem custeio, ele planta menos, reduz tecnologia, perde produtividade e volta a ter dificuldade para pagar”, alerta Rezende.
Os dados nacionais já mostram uma retração do financiamento tradicional. A área produtiva atendida pelas linhas de custeio do Plano Safra caiu de 34,2 milhões para 25,4 milhões de hectares em 12 meses, redução próxima de 26%.
No mesmo período, o valor contratado em crédito rural tradicional, sem considerar títulos privados como as CPRs, recuou 12%, para R$ 181,1 bilhões. O número de contratos diminuiu 10,3% e ficou em 777,8 mil.
A FPA também pede que sejam preservadas as características dos Fundos Constitucionais de Financiamento do Centro-Oeste, do Norte e do Nordeste. Essas fontes possuem regras próprias e têm peso maior em regiões nas quais produtores encontram menos alternativas no sistema bancário.
A medida provisória está em vigor, mas precisa ser aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado para ser transformada definitivamente em lei. A frente parlamentar defende ajustes que reduzam as barreiras operacionais sem eliminar os mecanismos de controle.
O prazo aumenta a urgência. Uma renegociação concluída depois da janela de plantio pode reorganizar o balanço da propriedade, mas já não devolve a oportunidade de produzir naquela safra. Para o campo, o sucesso da medida não será medido pelos R$ 100 bilhões anunciados, mas pelo número de produtores que conseguirem contratar, recuperar o crédito e continuar produzindo.
Fonte: Pensar Agro
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