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Festa milionária e contas atrasadas colocam gestão sob pressão em VG

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A retomada de eventos agroindustriais em Várzea Grande, após mais de duas décadas, veio acompanhada de entusiasmo por parte da gestão municipal, mas também abriu espaço para críticas quanto ao uso de recursos públicos em um momento considerado delicado para a cidade.

Lançada pela prefeita Flávia Moretti, a ExpoVG 2026 é apresentada como um marco para o desenvolvimento econômico local, com expectativa de atrair milhares de visitantes e movimentar milhões de reais. No entanto, a iniciativa depende, em parte, de recursos oriundos de emendas parlamentares, incluindo repasses viabilizados pelo deputado Fabinho.

Apesar do discurso otimista, a aplicação de dinheiro público em um evento de grande porte tem sido alvo de questionamentos. Críticos apontam que áreas essenciais como saúde, infraestrutura e abastecimento de água ainda enfrentam problemas recorrentes no município, o que levanta dúvidas sobre a real prioridade da gestão.

Outro ponto que amplia a pressão sobre a administração municipal é a situação financeira enfrentada por setores básicos. Há relatos de que, até o momento, a prefeita não efetuou o pagamento da suplementação salarial de médicos da rede pública, além de atrasos no repasse a fornecedores do município, o que impacta diretamente o funcionamento de serviços essenciais.

Durante o lançamento, a prefeita afirmou que o evento representa um “resgate histórico” e uma oportunidade de negócios. “Pretendemos não apenas promover shows, mas também atrair comerciantes e empresários para conhecerem o potencial de Várzea Grande”, disse. Ainda assim, o argumento não tem sido suficiente para afastar a percepção de que a iniciativa pode ter forte apelo político e midiático.

A promessa de geração de empregos e aquecimento da economia também é vista com cautela. Especialistas e observadores locais ressaltam que eventos pontuais, embora possam trazer impacto imediato, não substituem investimentos estruturais de longo prazo.

Outro ponto levantado é a transparência sobre os custos totais da feira. Até o momento, não foram detalhados todos os valores envolvidos na organização, contratação de atrações e montagem da estrutura, o que reforça cobranças por maior clareza na aplicação dos recursos.

Enquanto a gestão aposta no evento como símbolo de retomada e desenvolvimento, parte da população questiona se o investimento atende, de fato, às necessidades mais urgentes da cidade. A ExpoVG, antes mesmo de começar, já se torna centro de um debate mais amplo sobre prioridades e responsabilidade na gestão do dinheiro público.



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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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