Política
Museu da Arte Sacra abriga retábulos de igreja demolida em 1968
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Da Redação
Um dos mais tradicionais museus do Estado, o Museu de Arte Sacra de Mato Grosso (MASMT), reaberto há um ano, localizado ao lado da Igreja Nossa Senhora do Bom Despacho, guarda um dos mais extraordinários tesouros da história de Cuiabá. Estamos falando de uma das últimas lembranças materiais da Cuiabá colonial.
A reinauguração do museu, logo no início da gestão Mauro Mendes, trouxe a luz uma ala inteiramente dedicada aos retábulos da antiga Igreja Senhor Bom Jesus de Cuiabá, demolida em 1968, a primeira igreja colonial construída no Estado. São dois altares originais, remanescentes dos séculos 18 e 19, completamente reestruturados.
Os retábulos retirados da igreja implodida possuem 8 metros de altura cada, um neoclássico e outro barroco rococó, e estão montados um de frete para o outro, exatamente como estavam organizados originalmente na antiga Igreja Senhor Bom Jesus de Cuiabá, antes de ser demolida.
Além dos retábulos, a mesa do altar neoclássico está montada com crucifixos e tocheiros utilizados à época e compõe a exposição. A nova ala dos retábulos foi pensada para tentar reproduzir o ambiente original ao qual pertenceram no passado. Uma verdadeira máquina do tempo!
O processo de pesquisa
Remontar os antigos retábulos da Catedral não foi uma tarefa das mais fáceis. O trabalho que envolveu muita pesquisa e precisão foi realizado por quase quinze anos, orquestrado pela coordenadora do MASMT, Viviene Lozi com a colaboração de diversos profissionais da área.
“Organizamos peça por peça e calculamos tudo, pesos e medidas. Os retábulos são montados em blocos estruturais, tendo sempre como referências fotografias e registros documentais, para que pudéssemos fazer a identificação e reintegração das partes faltantes. Um verdadeiro quebra-cabeça de grandes proporções que ocupa uma área de 145 m²”, explica a coordenadora.
Viviene Lozi ressalta ainda que sem a colaboração de outras instituições parceiras, o trabalho não seria possível, pois sem as fotografias dos Acervos do Museu da Imagem e do Som de Cuiabá (MISC), Arquidiocesana de Cuiabá (Mitra), Arquivo Público e o processo de tombamento do Iphan não seria possível identificar os retábulos e remontá-los.
O trabalho realizado pelo Museu de Arte Sacra de Mato Grosso inclui reintegração das partes faltantes, higienização, descupinização, identificação, catalogação, pesagem e, por fim, montagem de cada um deles.
Após muita pesquisa, os retábulos finalmente foram montados na vertical, apoiados em estruturas autoportantes, projetadas para que não causassem nenhum impacto na edificação. Trata-se de uma estrutura com um pé direito de 12 metros de altura, lançada do térreo ao primeiro piso, para segurar os enormes retábulos, que não encostam nas paredes.
“Um projeto inovador no Brasil, remontar em grande escala, altares de uma igreja, organizados em uma nova edificação, numa área muito grande, dentro de um prédio tombado era nosso grande desafio e felizmente deu certo”, comemora Viviene.
Repondo peças
Por décadas, os antigos altares retirados da catedral demolida ficaram esquecido e muito maltratados pela ação do tempo. E é claro que muitas partes se perderam com o passar dos anos.
Logo no início do processo que culminaria na remontagem dos monumentos, os profissionais envolvidos no projeto notaram, baseando-se em fotos antigas, que os retábulos não estavam completos.
A solução foi refazer algumas partes para completar a montagem. É aí que entra o trabalho do artista plástico, escultor e restaurador Ariston de Souza, que refez com precisão as partes faltantes, para recompor os monumentos.
“Não se pode recuperar uma peça ou refazê-la do zero sem uma boa referência de imagem, no caso a fotografia, seguindo sempre todas as normas da Carta de Veneza que dita os princípios da restauração”, revela Ariston.
Além das peças faltantes, os altares estavam com cores alteradas, pintados, erroneamente de branco com tinta PVA, sem nenhum critério. Então, como parte da recuperação dos retábulos, foi feito um trabalho de prospecção para encontrar as cores originais, marmorizado de vermelho e azul com partes douradas.
A montagem
Um dos processos mais difíceis da reestruturação dos altares da antiga catedral foi a montagem. Primeiro eles foram organizados no chão, para que os profissionais da área pudessem separar as peças certas de cada um deles.
Depois, foram montados em pé, agora nas estruturas autoportantes que dão sustentação aos monumentos sem prejudicar o prédio histórico do Seminário da Conceição.
“A maior dificuldade foi identificar cada peça a partir de referências fotográficas da época. As peças estavam muito misturadas e, além disso, faltavam muitas partes. Um tremendo quebra-cabeças com alto grau de dificuldade”, relembra Paulo Henrique Krukoski, cenotécnico responsável pela montagem dos altares.
Em menos de dois meses, no entanto, os altares estavam montados, esperando para receber as peças faltantes que seriam entalhadas pelo mestre Ariston. Hoje, o cidadão pode apreciar os belos monumentos que contam um pouco da história da capital, no caso, a polêmica demolição da antiga Igreja Senhor Bom Jesus de Cuiabá.
O papel do Iphan
Os altares e alguns objetos litúrgicos. Isso foi tudo que restou da primeira Igreja Colonial construída em Mato Grosso. Mais do que o envolvimento na recuperação dos retábulos, o Iphan tem o importante papel de reconhecimento e preservação do patrimônio cultural.
“O tombamento dos retábulos veio como uma forma de corrigir um erro do passado, a demolição da antiga catedral. Esse é um importante vínculo material que temos hoje com o passado da cidade”, explica Marina Lacerda, coordenadora de Registro do Iphan.
Preservar o bem cultural e conscientizar a sociedade a respeito da importância da preservação do patrimônio. Esse é o papel do Iphan. Ao que tudo indica, nosso passado está em boas mãos. Visite os museus!
Foto: Protásio de Morais
Política
Sessão destaca avanços e desafios após 20 anos da Lei Maria da Penha
O Senado fez nesta quinta-feira (13) sessão especial para celebrar o Agosto Lilás, campanha de conscientização e enfrentamento à violência contra a mulher. A sessão, requerida pela senadora Leila Barros (PDT-DF), marcou também os 20 anos da Lei Maria da Penha (Lei 11.340, de 2006).
Durante a homenagem, autoridades destacaram os avanços alcançados desde a criação da lei e defenderam o fortalecimento das políticas de prevenção, proteção às vítimas e responsabilização dos agressores.
Leila Barros ressaltou que, apesar dos avanços na legislação e na proteção às mulheres, os índices de feminicídio e outras formas de violência ainda exigem o fortalecimento das ações de prevenção. Ela citou medidas como a criminalização do stalking (Lei 14.132, de 2021) e o monitoramento eletrônico de agressores e defendeu políticas de autonomia econômica, além da atuação conjunta de governos, instituições, sociedade civil e homens no enfrentamento à violência.
— O Agosto Lilás não pode ser apenas uma cor iluminando prédios públicos. Não pode ser apenas uma campanha durante 31 dias. Ele precisa representar um compromisso permanente com a prevenção, o acolhimento, a proteção, a responsabilização dos agressores e, principalmente, com a vida das mulheres — afirmou.
Mobilização permanente
Em participação virtual, a ministra do Supremo Tribunal Federal (STF) Cármen Lúcia lembrou a trajetória que levou à criação da Lei Maria da Penha. Ela destacou que a falta de resposta adequada do Estado brasileiro à violência sofrida por Maria da Penha Maia Fernandes levou à responsabilização do país no plano internacional.
Cármen Lúcia afirmou que a Lei Maria da Penha se tornou símbolo do combate à violência contra a mulher. A ministra alertou, porém, que a persistência de agressões e assassinatos exige mobilização permanente do poder público e da sociedade:
— Não podemos compactuar nem ser omissos na busca de, rapidamente, urgentemente e exemplarmente superarmos esse estado de coisas inconstitucional que vivemos no Brasil contra todas nós, mulheres.
Ao abordar as ações atuais de enfrentamento à violência, a ministra das Mulheres, Márcia Lopes, também apontou a Lei Maria da Penha como um marco na proteção da população feminina e defendeu ações articuladas entre os Poderes, estados, municípios e sociedade. Ela destacou medidas do Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio, como a agilização das medidas protetivas, a responsabilização dos agressores e a ampliação da rede de atendimento.
Márcia Lopes ressaltou ainda a importância da educação para modificar padrões culturais que naturalizam a violência e defendeu políticas de autonomia econômica e de cuidados. Para a ministra, os homens também precisam ser envolvidos nas ações de conscientização e mudança de comportamento.
— Nós queremos ter o direito à vida, à liberdade, às nossas escolhas. […] Venham juntos, venha a sociedade brasileira, porque nós temos o direito de viver, o direito de sonhar, o direito de ter uma vida plena — disse.
Luiza Helena Trajano, presidente do Grupo Mulheres do Brasil, destacou a Lei Maria da Penha como uma das principais conquistas das mulheres brasileiras e ressaltou que o enfrentamento à violência é responsabilidade de toda a sociedade. Ela defendeu a atuação conjunta do poder público, da sociedade civil e das empresas e afirmou que a legislação sozinha não basta para que a proteção chegue efetivamente às mulheres.
— As leis são essenciais, mas elas precisam caminhar junto com a informação, o acolhimento e a oportunidade. Porque ter a lei e não informar e não cobrar não adianta nada — afirmou.
A necessidade de transformar os avanços legais em proteção efetiva também foi ressaltada pela diretora-geral do Senado, Ilana Trombka, que participou do evento de forma virtual. Ela destacou que a Lei Maria da Penha ampliou a visibilidade da violência doméstica e fortaleceu a proteção às mulheres. Segundo Ilana, o desafio agora é fazer com que esses mecanismos cheguem a quem mais precisa e reduzir os ainda elevados índices de feminicídio.
Os dados do Instituto DataSenado ajudam a dimensionar a evolução desse cenário. A coordenadora do Observatório da Mulher contra a Violência, Maria Teresa Firmino Prado Mauro, lembrou que, em 2005, antes mesmo da sanção da Lei Maria da Penha, 95% das brasileiras entrevistadas afirmaram que o país precisava de uma legislação específica de proteção às mulheres. Segundo ela, a pesquisa, realizada a cada dois anos, permite acompanhar as mudanças na realidade da violência contra a mulher desde o período anterior à criação da lei.
Proteção às mulheres
A conselheira do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) Fabiana Costa Oliveira Barreto destacou que, ao longo dos 20 anos da lei, houve avanços no sistema de Justiça, nas forças de segurança e nas políticas públicas. Ela ressaltou a importância da atuação integrada das instituições e defendeu que as políticas considerem as diferentes realidades das mulheres, especialmente negras e indígenas.
— Não se pode olhar para todas as mulheres como se fossem uma só. Temos que saber que nosso país é constituído de várias etnias e que as políticas públicas, as leis e todo o sistema de Justiça têm que estar atentos a isso — afirmou.
Também em participação virtual, o promotor de Justiça do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) Thiago Pierobom apontou, entre os principais avanços da lei, a incorporação das perspectivas de gênero e de interseccionalidade, as medidas protetivas de urgência e a criação de uma rede de atendimento às mulheres. Segundo ele, a legislação também resistiu a tentativas de alterar seus fundamentos ao longo das últimas duas décadas.
— Muitos projetos de lei foram propostos ao longo desses 20 anos para tentar desnaturar aquilo que é a Lei Maria da Penha. A lei sobreviveu a esses projetos, se fortaleceu e sedimentou esse campo, fortalecendo essa pauta para avançarmos ainda mais — afirmou.
Na área da segurança pública, a tenente-coronel Renata Cardoso, da Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), falou sobre a importância da capacitação dos policiais para avaliar riscos, acolher as vítimas e prevenir novas agressões. Ela citou o Policiamento de Prevenção Orientada à Violência Doméstica (Provid), que acompanha 715 mulheres, das quais 320 têm medidas protetivas e estão classificadas em situação de risco extremo. O serviço está presente em todos os batalhões operacionais e também na área rural do Distrito Federal.
— Mais do que falar para as mulheres, a gente precisa trabalhar isso com toda a sociedade, inclusive com os homens da segurança pública, que atendem a maior parte dessas demandas, principalmente nos momentos de emergência — observou.
O que falta avançar
Apesar dos avanços, o promotor Pierobom afirmou que a persistência dos feminicídios e de outras formas de violência coloca em discussão a efetividade das ações adotadas pelo Estado. Entre os desafios, apontou a necessidade de ampliar as políticas de prevenção e considerar fatores como raça, idade, território e condições socioeconômicas na formulação das ações de enfrentamento à violência.
O promotor também defendeu o aperfeiçoamento da atuação do sistema de Justiça, com maior transparência sobre medidas protetivas, denúncias e condenações; o fortalecimento dos mecanismos de avaliação de risco; e a ampliação e interiorização da rede de atendimento às mulheres. Ele chamou a atenção para novas manifestações de violência, especialmente no ambiente digital, como discursos de ódio e ataques misóginos.
— O desafio mais grave é a persistência da violência contra as mulheres nas suas diversas formas: a violência doméstica e familiar, a violência sexual e os feminicídios. […] Esses números nos colocam diante de uma reflexão sobre a efetividade das ações do Estado para concretizar as diretrizes da Lei Maria da Penha — alertou.
Para Cynthia Rocha Mendonça, do Tribunal de Justiça do Amazonas, o desafio é fazer com que a proteção prevista na legislação alcance efetivamente todas as mulheres, especialmente as que vivem em comunidades do interior da Amazônia.
Cynthia apontou barreiras geográficas, sociais e institucionais de acesso à Justiça e defendeu soluções adaptadas às particularidades da região, citando iniciativas como o aplicativo Ronda Maria da Penha e a proposta da Casa Flutuante da Mulher Brasileira. Para ela, a efetividade das políticas de enfrentamento à violência depende não apenas de leis, mas também de estrutura, profissionais, orçamento e investimento permanente do Estado.
Mulheres negras
Iyà Sandrali Campos, integrante do Conselho Nacional dos Direitos da Mulher, falou em nome da Coalizão Negra por Direitos e defendeu a criminalização da misoginia, mas alertou para que mudanças no chamado projeto de lei da Misoginia (PL 896/2023) não enfraqueçam a legislação de combate ao racismo. Segundo ela, as duas formas de discriminação devem ser enfrentadas conjuntamente, com atenção especial à proteção das mulheres negras.
— A Coalizão Negra por Direitos afirma que criminalizar a misoginia é necessário e que preservar integralmente a legislação antirracista é inegociável. As duas responsabilidades não são incompatíveis — afirmou.
Na mesma linha, a diretora-geral da Escola Superior do Ministério Público da União (MPU), Raquel Branquinho, classificou a Lei 7.716, de 1989 (que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor) como um patrimônio da sociedade brasileira e ressaltou sua importância como instrumento de prevenção e punição do racismo.
— A Lei 7.716 foi uma determinação do constituinte brasileiro, é um patrimônio da nossa sociedade e não permite nenhum retrocesso, apenas avanço — afirmou.
Participação política
Raquel Branquinho, diretora-geral da Escola Superior do Ministério Público da União (ESMPU), destacou avanços no combate à violência de gênero, mas defendeu maior participação das mulheres na política e atenção à relação entre violência de gênero e racial.
Ela também citou pesquisas da ESMPU sobre feminicídio, violência doméstica e candidaturas femininas, incluindo a análise de mais de 40 mil processos com ferramentas de inteligência artificial.
— Nós avançamos muito, mas ainda temos muito a fazer. Precisamos de mais mulheres na política. A violência de gênero e a violência racial se entrelaçam — afirmou.
Agência Senado (Reprodução autorizada mediante citação da Agência Senado)
Fonte: Agência Senado
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