CULTURA

Vocês acreditam em fantasmas? Na casa velha, eles bagunçavam tudo…

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Opinião

MONTES CLAROS-MT – APESAR de tímida, minha mãe proseava eventualmente com vizinhos mais próximos. Mas nunca revelava nossa intimidade caseira; orientação do meu pai…

Se o dito vizinho(a) ganhava sua confiança, aí, sim, as conversas fluíam divertidas, espontâneas. Testemunhei isso um sem número de vezes.

Foi assim que fiquei sabendo que minha genitora, então normalista, era colega de sala de Virgínia Barbosa, Miss Minas Gerais. A nossa vizinha, realmente belíssima, virou sucesso depois de conquistar esse disputado título.

Naquela época, concursos do tipo convergiam interesse nacional, pois os recursos de comunicação eram restritos mais ao rádio e jornais impressos. Demorou para que a TV se tornasse ápice das atenções.

Acontece que, numa dessas prosas de alpendre, a mãe de Virgínia nos convidou para visitá-los. Sentimos sinceridade naquele convite.

Insinuante, a vizinha acrescentou que nos aguardaria com doces fantásticos, preparados por ela mesma.

Gostei de ter vizinha assim, tão receptiva e fácil de ser encontrada: bastava apenas atravessar a rua…

Não recordo o nome dessa senhora, apenas dos seus sorrisos puros e bochechas rosadas.

Ao conversar, ela falava sempre alto, estampando felicidade nos olhos brilhantes…

Hoje, adulto, analiso que tanta animosidade traduzia seu jeito humilde de agradecer a Deus pela dádiva da vida…
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Ainda com esse convite tentador sibilando na mente, já no dia seguinte dirigi-me à casa da vizinha, afoito para espiar tudo que acontecia por lá.

O horário, cerca de 15h, facilitou tais espiadelas, posto que nossa rua registrava quase zero de movimentação de pessoas. Calor excessivo…

Ágil, encaixei meus pés descalços numa saliência da divisória da base concretada do murinho. Assim pude descortinar visão panorâmica da casa. O imóvel dispunha de amplo quintal, espaço sombreado por frutíferas.

De tanto esticar a cabeça, recolhendo-a estrategicamente quando aparecia alguém na área, terminei sendo descoberto, previsível…

Esperto, fingi procurar algo que caíra lá dentro, talvez na parte frontal. Olhava lá e cá, sempre despistando…
A senhora toda sorrisos veio me questionar o que fazia ali…

Eticamente, fingiu acreditar ao ouvir a safada mentirinha de um guri de sete anos:

– Perdi a chave do cadeado do portão; acho que deve ter caído por aqui… Nem tenho como entrar em casa, agora…

A mulher nem inquiriu o motivo de também vasculhar visualmente o interior do seu quintal.

Olhando-me fraterna, convidou:

– Tem um doce fresquinho ainda na mesa, acho que vai gostar… – disse ao abrir o portão de ferro.
Não pensei duas vezes para entrar…

Logo na sala de jantar, uma vitrola mereceu mais do que um olhar minucioso: utilizando o dedo indicador, passei a girar o disco devagar, ouvidos sincronizados à mudança de som ambiente.

Assim, ao efetuar mais giros, pude ouvir uma espécie de grunhido musical…

“Legal…” – comemorei.

Por incrível que pareça, a música alardeada pelo disco giro enlouquecido do vinil se enquadrava entre as minhas prediletas: “Ôôôôô… filme triste,/que me fez chorar!”

Ouvi tal canção várias vezes, quando moramos perto da Catedral. Lá havia uma unidade geradora de energia da CEMIG, composta de monstrengos motorizados, idênticos às locomotivas da R.F.F.S.A.

Nas pausas do barulhão dos geradores, o radinho do vigilante dominava a noite, irrompendo boa música no nosso barraco.
Melhor, agora, prestar atenção na vitrola…

Acomodei-me na cadeira próxima, deslumbrado pelo ritmo alucinante com que o disco de vinil rodava. A agulha da vitrola, afixada num braço metálico pesado, tamborilava nesses rodopios, igualmente desatinada.

Nem sei quanto tempo fiquei, feito bobão, olhando o disco rodar e rodar…

Atenta, a delicada anfitriã voltou à sala trazendo generoso pedaço de bolo de chocolate, mais um potinho de goiabada caseira. Aquela visita valeu a pena!

– Traga a limonada, Rita! – pediu.

Foi aí que soube da existência de outra mulher naquela casa. Uma senhora baixinha, também sorrindo não sei de quê.

Vi, satisfeito, a jarra de limonada com gelo boiando. Adeus, calorão!

A mãe de Virgínia ficou contente de me ver bem-servido:

Extasiado pelas melodias da vitrola, nem percebi a chegada de uma menina morena na sala, igualmente sorridente.
Naquela casa, pelo visto, tudo se traduzia em sorrisos…

Tratava-se de uma garota um pouco mais velha do que eu, mas pra lá de sapeca, atentada ao extremo.
Mal chegou, a desconhecida deu início a ininterrupto corre-corre pela sala, gritando esbaforida, sem o menor temor de ser repreendida.

O mais interessante é que nenhuma das senhoras a recriminou pela gritaria explícita e pula-pula nos móveis. E se quebrasse algum? Abusada, de fato…

“Se todos fingem não vê-la, e nem ligam para tanto barulho, essa menina deve ser importante”, imaginei ao observá-la.

Ela sorria escancarado ao me olhar, aparentando estar comovida pelo encontro. Gostou obviamente de mim.
De repente, a garotinha parou de pular e gritar, e me convidou para brincarmos no quintal. Disse, em tom de êxtase, ser tudo ali maravilhoso.

A boa senhora apareceu na varanda para dar uma rápida fiscalizada no que eu fazia, e gesticulou simpática ao me ver. Já em relação à menina, foi indiferente.

Ilustração: Arquivo Pessoal

No quintal, a menina me levou até o balanço afixado no pé de manga. Em minutos, embalado pelos movimentos do corpo, pude ver mais além do quintal, a cada vez que o balanço subia…

Não contente, a menina me convidou para conhecer sua casinha de bonecas. Achei esquisito aquilo: menino que é menino não entra em casinhas do tipo.

Sentamo-nos um pouco à sombra do pé de jabuticaba. Melhor descansar…

A mulher e a serviçal da casa conversavam na porta da cozinha, uma delas com panela na mão. Certamente, preparativos do jantar.

As horas voaram a partir daí; em minutos, o horizonte exibiu vermelhidão crepuscular.

A menina não parava: pulando alternadamente, em sincronia de dança improvisada, dirigiu-se a um monte de caixotes velhos, esconderijo de uma galinha e seus pintinhos.

Bastou bater com pau num dos caixotes para a mãe penosa despontar arrepiada, cacarejando irritação. Os pintinhos a seguiram…

Por mais um punhado de minutos, brincamos de pega-pega e esconde-esconde.
Em algumas ocasiões, ensaiei puxar sua mão para me acompanhar, mas a menina foi esguia, desvencilhando-se de qualquer contato.

No esconde-esconde, ela sempre conseguia me localizar sem esforço. O sorriso contente da menina não deixou que me sentisse perdedor…

Sem mais nem menos, nas primeiras sombras noturnas, a garotinha acenou tchau impessoal e saiu calada. Nem vi quando passou pelo portão. A senhora o mantinha com cadeado; como a sapeca pôde sair por ali?!
Sair sem se despedir das bondosas senhoras não foi uma atitude educada, com certeza.

Barriga cheia, bebi um pouco d’água e informei à senhora que minha mãe deveria ter voltado.
– Obrigado pelo jantar e por me receber! – disse

A outra senhora também se despediu de mim carinhosamente.
– Volte sempre, guri! Você é um garoto bonzinho!

Elas ainda me deram mais bolo e doce de goiaba para levar pra casa.
Só achei estranhíssimo o gelo das duas senhoras à menininha tão simpática que foi lá brincar comigo. Decerto aprontou alguma coisa feia no pedaço…

Afinal, pelo pouco que vi, as duas anfitriãs jamais seriam indelicadas com alguém, muito menos com uma criança…
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Mal entrei na nossa modesta casa, senti a mudança drástica de classe social: tudo muito pobre!
Não devia ter experimentado da vida de ricos, pensei desanimado. Difícil voltar a conviver com as simplórias coisas regradas do nosso lar.

Sentei-me no pequeno sofá alquebrado da sala de estar, decidido a aliviar os pensamentos e recompor o baque causado pelo retorno à minha realidade humilde.

Chamei pela mãe e pelo mano, nada! A porta frontal não estava trancada; então, deviam estar lá…
“Só se minha mãe saiu novamente, e o mano está no banho…” – raciocínio lógico.

Atravessei a ala da cozinha para acessar o banheiro; essa mesma porta escancarava o quintal cemitério, tema citado anteriormente.

Trata-se do quintal onde meu pai anunciou ter achado ossos humanos, exibindo suposta canela de cadáver. Isso aconteceu quando ele foi preparar horta na parte mais macia da terra.

Minha mãe o recriminou por fazer medo na gente, dizendo ser uma de suas historinhas fantasiosas.
Difícil foi esquecer essa descoberta macabra…

NA PORTA DO BANHEIRO…

Chamei pelo mano e bati na porta, trancada por dentro. O silêncio persistente, pós-pancadas, respondeu ausência…
Tampouco o mano Zé estava no “laboratório” montado no corredor lateral da casa, pois ouviria ruídos de vidrinhos farmacêuticos. É o laboratório que pegou fogo meses depois, fato igualmente narrado nesse espaço…

Se o mano não chegara, quem, afinal, estava no banheiro?

Talvez estivesse ainda no mercadinho, tentando convencer minha mãe a comprar caramelos. Há dias, apesar das recomendações do meu pai, chegou com pipoca doce e paçoca. Mano Zé não tinha dó da labuta do velho na cooperativa de laticínios.

Já quase desistindo, ouvi o tilintar do balde com água do banheiro. Entendi que o mano se fingira de surdo, certamente por cumprir reinado fisiológico. Agora, partia para o banho…
– Já sei que está aí, Zé! Pode abrir!

Bati novamente na porta! Que pirracento!

– Vou comer seu bolo e doce de goiaba! – avisei furioso.
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De volta ao centro da cozinha, deu para ver o momento em que minha mãe entrou rápida no quarto, acendendo a luz.
– Mãeeeee! Zé Antônio está trancado no banheiro e não quer sair!

Disse isso ao escutar inequívoco barulho na penteadeira, certamente ela arrumando algo que comprou no mercadinho. Mas… não foi lá pra comprar alimentos?

NÃO HAVIA ninguém também no quarto, apesar da luz acesa. Nem sinal da mãe nem do mano Zé!
– Ué, sô! Cadê eles?! – mentalizei preocupado, pensando em retornar à casa da Miss Minas Gerais.
Pela janela, vi que eles acenderam as luzes, irradiando muita claridade.

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O resfolegar de passos e sacolas substituiu meus pensamentos: minha mãe e o mano Zé entravam na casa. UFAAAA! Ela ficou feliz ao me ver.

Já fui contando que pensei ter escutado o mano tomando banho, mas trancaram o banheiro por dentro. Ou que vira ela entrar no quarto, minutos atrás.

– Banheiro trancado?! – perguntou ela. Foi checar e voltou dizendo que estava aberto.
Perguntei se meu pai demoraria a vir jantar.

– Ainda vou preparar a comida. Mas… malandrinho: já sei que você jantou lá! – polegar indicando a casa vizinha.
Não tive como negar isso…

João Carlos de Queiroz, jornalista – Direitos Reservados

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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