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Quem está na batuta, você ou o algoritmo?

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* Por Fabricio Carvalho

Não é novidade para ninguém que o mundo digital tem avançado a passos largos, redefinindo não apenas a forma como interagimos, mas também como trabalhamos, consumimos e construímos nossa identidade. A tecnologia nos oferece liberdade de comunicação e interação, no entanto, ironicamente, pode nos escravizar de maneiras novas e nem sempre óbvias. E assim, sem perceber, estamos todos dançando conforme a música que o algoritmo toca.

Dessa forma, sob essa aparente liberdade, consolida-se um novo sistema de dominação econômica e social: o tecnofeudalismo, uma espécie de feudalismo 2.0, agora com senhores feudais em escritórios climatizados e servos digitais munidos de smartphones.

O termo não é novo, mas sua popularização recente se deve, principalmente, ao ex-Ministro das Finanças da Grécia, o economista e político grego Yanis Varoufakis. Para contextualizar, o tecnofeudalismo é um sistema emergente onde plataformas digitais transformam usuários em “servos digitais”, enquanto as big techs como Apple, Meta e Google operam como novos “senhores feudais”. A diferença? Em vez de plantar batatas para o senhor feudal, agora produzimos dados valiosíssimos e ainda pagamos pelo privilégio de entregar essa informação de graça.

Cada like, cada clique, cada segundo que passamos rolando a tela do celular é um pedacinho de tempo e atenção que doamos para essas corporações. E o mais curioso é que, em vez de serem gratos, os algoritmos nos presenteiam com publicidade cada vez mais certeira, fazendo-nos gastar com coisas que nem sabíamos que precisávamos. Já aconteceu de você mencionar algo casualmente e, minutos depois, aparecer um anúncio sobre isso? Coincidência? Só se for a nova versão do “destino digital”.

Esse feudalismo digital não apenas concentra riqueza e poder, mas também impacta profundamente a saúde mental dos usuários. E não estamos falando apenas do dilema existencial que bate quando você percebe que gastou três horas vendo vídeos de gatos tocando piano. A constante pressão para acompanhar o ritmo frenético das redes sociais, a busca incessante por validação online e pela “vida perfeita” levam a quadros de ansiedade e depressão. Se na Idade Média os servos tinham que lidar com a fome e a peste negra, hoje lidamos com a praga do Fear of Missing Out, aquela sensação cruel de que todo mundo está se divertindo menos você.

E se você acha que isso é exagero, basta ver o impacto dos filtros de beleza. Um dia você tira uma selfie e parece um elfo celestial. No outro, olha no espelho e descobre que na verdade não tem olhos gigantes e pele de porcelana. A decepção é tamanha que já tem gente cogitando pagar cirurgião plástico para parecer com a própria versão filtrada. Isso sim é um bug na Matrix!

A hiperconectividade também afeta o sono e a produtividade. As notificações incessantes e os mecanismos de reforço intermitente transformam a experiência digital em um verdadeiro cassino. Os algoritmos são projetados para prender você na plataforma a qualquer custo, seja recomendando mais um vídeo “imperdível” ou garantindo que você assista e se reconheça na memória de sua navegação anterior, te mantendo, dessa forma, em sua zona de conforto digital.

Mas nem tudo está perdido. Ao contrário dos servos da Idade Média, que não tinham como fugir do feudo, nós temos ferramentas para resistir. Podemos escolher quando e como nos engajar, criar espaços online mais saudáveis e, de vez em quando, fazer a escolha revolucionária de deixar o celular de lado e viver o mundo real.

A grande questão é: estamos dispostos a recuperar o controle, ou preferimos continuar servindo aos algoritmos, um scroll de cada vez?

Fabricio Carvalho é Maestro e Membro da Academia Mato-Grossense de Letras (Cadeira n.º 23).



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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário



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