Opinião
O Direito ao Trabalho: Um pilar da dignidade e inclusão social!
Opinião
*Luís Köhler
O direito ao trabalho, consagrado pela Constituição Federal do Brasil no artigo 6º, é muito mais do que o acesso a uma ocupação remunerada. Ele representa um dos pilares fundamentais da dignidade humana e da inclusão social. No Brasil, onde cerca de 14,3 milhões de pessoas estão desempregadas, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2024, garantir o direito ao trabalho é essencial para que milhões possam exercer sua cidadania plena e contribuir com o desenvolvimento do país.
Trabalhar não é apenas uma forma de sustento; é um meio de construir identidade, desempenhar um papel social e garantir a sobrevivência das famílias. Em muitas cidades do país, o trabalho está diretamente ligado à capacidade de mobilidade social, especialmente em áreas economicamente vulneráveis. Como farmacêutico e acadêmico de Direito, tenho a oportunidade de enxergar o direito ao trabalho sob várias perspectivas e compreendo a responsabilidade mútua de garantir oportunidades justas e reconhecer o valor das diferentes profissões.
O trabalho é mais do que uma obrigação econômica; ele é uma garantia de autonomia e dignidade. Para o farmacêutico, por exemplo, essa dignidade se reflete na prestação de serviços essenciais à saúde, como assistência ao paciente, atendimento em farmácias comunitárias, e atuação na linha de frente em contextos de pandemia. Segundo o Conselho Federal de Farmácia (CFF), o Brasil conta com mais de 230 mil farmacêuticos, que trabalham diariamente para atender a população. Esses profissionais enfrentam, além da carga de trabalho elevada, desafios como a falta de estrutura adequada e a carência de reconhecimento. Esse cenário evidencia a importância do direito ao trabalho como garantia de que o exercício profissional seja valorizado e respeitado.
Do ponto de vista jurídico, o direito ao trabalho exige a implementação de políticas públicas voltadas ao acesso ao emprego, condições de trabalho justas e segurança no ambiente laboral. De acordo com o artigo 170 da Constituição, a ordem econômica deve ser fundada na valorização do trabalho humano e na livre iniciativa. No entanto, essa garantia ainda está distante para muitas pessoas: a informalidade atinge cerca de 39% dos trabalhadores no Brasil, o que representa um contingente de aproximadamente 38 milhões de pessoas sem direitos trabalhistas assegurados. Essa falta de regulamentação e proteção torna o trabalho informal uma alternativa de risco, onde direitos básicos, como jornada de trabalho e descanso remunerado, muitas vezes não são respeitados.
Nesse contexto, torna-se crucial a promoção de políticas públicas que incentivem o trabalho decente e a inclusão social. A Organização Internacional do Trabalho (OIT) define “trabalho decente” como aquele que oferece uma remuneração justa, segurança e proteção social, além de direitos fundamentais e liberdade para que os trabalhadores expressem suas preocupações e participem das decisões que afetam suas vidas. No Brasil, políticas públicas voltadas ao trabalho decente poderiam reduzir a vulnerabilidade de trabalhadores informais, ampliar o acesso a direitos trabalhistas e melhorar as condições de trabalho nos setores de saúde, educação e serviços essenciais.
Para o farmacêutico, o direito ao trabalho também é um compromisso com o cuidado direto à população e a promoção da saúde pública. No entanto, a sobrecarga de demandas e a falta de políticas adequadas que valorizem essa profissão têm levado muitos profissionais a enfrentarem condições de trabalho extenuantes. Segundo a Associação Brasileira de Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), as redes de farmácias atendem cerca de 10 milhões de brasileiros por dia, o que demonstra a importância do farmacêutico na promoção da saúde. Quando o direito ao trabalho não é plenamente garantido – seja pela ausência de uma remuneração justa ou de condições de trabalho adequadas – não apenas o profissional é prejudicado, mas também a qualidade do atendimento à população.
A regulamentação das profissões de saúde e a luta por melhores condições de trabalho são fundamentais para a efetividade do direito ao trabalho. A Constituição, em seu artigo 7º, assegura direitos como descanso semanal remunerado, uma jornada compatível com a vida pessoal e condições seguras de trabalho. Para os farmacêuticos, essas garantias são cruciais, pois a exaustão e a pressão laboral podem comprometer a qualidade do atendimento prestado. Além disso, um estudo do Ministério da Saúde indicou que profissionais da saúde em ambientes de alta demanda, como farmácias e hospitais, têm 2,5 vezes mais chances de desenvolver problemas de saúde mental, como estresse e ansiedade.
A legislação trabalhista brasileira, uma das mais abrangentes do mundo, busca assegurar proteções que vão desde o piso salarial até a saúde e segurança no ambiente de trabalho. Entretanto, ainda há desafios significativos, como a informalidade e a precarização do trabalho, que afetam o exercício pleno desse direito. Dados da OIT apontam que o Brasil está entre os países com maior taxa de informalidade na América Latina, o que ameaça a inclusão e a proteção social. Como estudante de Direito, vejo o papel da legislação trabalhista como um mecanismo de equilíbrio, promovendo não apenas o acesso ao trabalho, mas também sua qualidade e continuidade.
Portanto, o direito ao trabalho deve ser visto de forma ampla: não basta garantir empregos; é preciso assegurar que esses postos ofereçam condições dignas, justas e que promovam o bem-estar do trabalhador e da sociedade. A luta pelo direito ao trabalho é, sobretudo, uma luta pela dignidade e pela construção de uma sociedade inclusiva.
O trabalho é parte do que somos e do que oferecemos à sociedade. Como farmacêutico e futuro advogado, defendo o direito ao trabalho como um meio de valorização e inclusão social, essencial para a saúde pública e para a justiça social. Em um país como o Brasil, onde a desigualdade ainda é um obstáculo significativo, lutar pelo direito ao trabalho é lutar por uma sociedade mais justa e digna para todos.
*Luís Köhler é farmacêutico, consultor em assuntos regulatórios, graduando em Direito e especialista em Direito Administrativo, Farmacologia e Farmácia Clínica. Possui MBA em Inovação e Empreendedorismo e MBA em Liderança e Coaching na Gestão de Pessoas. Foi Presidente do Conselho Regional de Farmácia de Mato Grosso (CRF/MT) no biênio 2022/23 e atualmente é Presidente da Sociedade Brasileira de Farmacêuticos e Farmácias Comunitárias (SBFFC/MT).
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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