Opinião
MEDOS NOTURNOS DE ENY QUEIROZ…
Opinião
“Você é o que sente, e tudo que quer conceber…”
Por: João Carlos Queiroz
“Tenho muito medo de dormir; receio contínuo de que os ponteiros do meu velho relógio cessem, de repente, seu silencioso giro de serviço, e denotem ingresso repentino em dimensões de um desconhecido sem fim. Pois o infinito é triste, e ninguém quer mesmo morrer; destino bom ou ruim…
O certo é que “nos veremos mortos” num momento impreciso; dor que nem sentiremos direito. Depende, lógico, do peso de débitos pendentes com o Senhor… Se o espírito nem perceber, pode ser indício perceptível de que terminou bem, “começo feliz do fim…”
“Dizem, inclusive, sisudos intérpretes dos tempos: “Os olhos evoluídos do espírito conseguem “ver” o mundo no seu todo interior. Sentem o efeito hipnótico provindo do leque de flores que nos cobrem em universos indistintos, incursões de novo viver….”
Resumindo: Podemos ser felizes, sim, se formos suficientemente lúcidos no ingresso de outros mundos invisíveis, inconcebíveis de existir depois que o corpo perece e o pó, de onde viemos, reconstrói missões terrestres…
“O homem sempre ressuscitou do pó…”
Eis trecho metódico, porém conclusivo, sobre o receio precoce que ENY, mestre de ensino, sempre sentiu de morrer. Tormento expresso em tom lúgubre, repetitivo consigo e com entes íntimos. Infelizmente, ENY fechou os olhos em pleno sono dos justos, terço de fé comprimido entre os dedos religiosos. E impregnou seu leito {e o domicílio inteiro} com inédito perfume exótico…
ENY, definem todos, “só pode mesmo ter previsto seu fim terrestre”. Reiniciou um viver incógnito, perpétuo, conforme premonições presentes nos tesouros de escritos virgens que deixou. Escrever sempre foi seu refúgio, e instrumento de expurgo no fôlego opressor de sentimentos tristes…
Tudo ocorreu no silêncio divino imposto por Deus: ENY nem sentiu o súbito corte do fluxo de oxigênio nos pulmões. Ninguém ouviu um só pedido de socorro ou ruídos impróprios, nesse espectro noturno de morte; simplesmente, ENY obteve consentimento de repouso sublime, concedido pelo Senhor…
Obediente, cerrou, de vez, o brilho meigo de luz expresso em seu corpo respeitoso. Optou pelo sepulcro, que se tornou ponto predileto de seu (re)existir. ENY escolheu perecer no leito do domicílio dos montes tórridos norte-mineiros, onde morou feliz por tempos longínquos, num pequeno prédio dividido em dois; improviso construtor, de pretensos engenheiros.
Pode-se dizer que é um domicílio perfeito, berço de outros entes queridos que ENY gerou e conviveu. Convívio breve, intensivo em bem servir. Disso sobrou somente o sorriso meigo de quem foi exemplo de virtudes e mistérios. E seu perfume inesquecível, de flores, hoje revive tempos gloriosos no seio dos próximos…
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O enterro do pequeno corpo feminino teve moldes de evento concorrido. Sucedeu num domingo, no cemitério do Bonfim. ENY se despediu sob sol tímido e refugo de preces e choros contidos, e se isolou, enfim, no conhecido corredor de luz, de encontro direto com Deus…
REFLEXÕES…
“O destino súbito dos seres {que Deus gerou} é o ontem ilusório de vivermos felizes e cumprir outros projetos. Em resumo, ninguém quer morrer. O Senhor nos delegou missões de desconhecimento terrestre”, houve quem dissesse próximo do féretro.
Quem viu ENY, corpo rígido, no seu leito de morte, e posteriormente no velório, pensou que estivesse dormindo. Ou que cumprisse os últimos resquícios de sono profundo e puro. “Leito que ofertou um triste deleite físico, irreversível… Senti, o tempo todo, doce perfume, presente no recinto”, observou um dos filhos.
O que ENY “pensou”, depois que esteve com Deus…
“Eu Lhe pedi que fosse feliz no novo círculo divino que Eleescolheu. Veio, depois, um sono trôpego, fugidio, de dever cumprido, reflexos do rotineiro leque de serviços domésticos que sempre cumpri. O leito me ofertou súbito repouso pretendido, de conforto pleno do físico e do espírito.”
ENY pode ter dito…
“Mereço este repouso, Senhor! Leitos sempre conseguem recompor o fôlego de corpos desconstituídos por completo, que sentem o peso de esforços comuns. O repouso noturno é bem superior, melhor que o diurno. O simples gesto de nos cobrirmos envolve questões de teor complexo, pois vêm os sonhos do consciente semi-desperto e do subconsciente. Dormir, resumindo, reúne um simplório controvertido…”
SOBRE SEU ESTILO POÉTICO…
“Surpreendentemente, prefiro escrever contos e outros textos no momento em que o pôr do sol se impõe tímido, com luzes de tom mortiço… Momento de conflito, confissões de temores justos e injustos…”;
“Ninguém soube dizer, em todos esses séculos, o que o futuro nos oferece de modo singelo, ou forçoso. Posso morrer dormindo, sem perceber. Receio que isto se torne concreto”.
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Enfim, ENY previu seu próprio destino: sucumbiu dormindo, feito um meteoro célere, “foguete” oriundo do universo, em riscos precisos pelo céu composto de cor celeste e negrume medonho. Seu fiel esposo, o metódico e idoso Petronilho Queiroz, “dormiu” de vez, meses depois… “ENY me convocou”, revelou ele, no mesmo domingo do inesquecível enterro, idêntico crepúsculo do seu existir…
Hoje, filhos e elos de intelecto superior querem reunir o elenco poético e produtivo de ENY. Tudo se resume em excelentes escritos. O jeito de ENY ver o mundo despertou interesse coletivo. Empenho que resultou num livreto poético, e, no futuro, pode ser que gere rol de livros primorosos. O livreto eclodiu como fruto primoroso do seu dom de escrever…
Dizem, inclusive, que o conteúdo dos textos é riquíssimo! No livreto, ENY fez esboço fiel do que vivenciou, estilo genuíno. Tempos em que tentou ser feliz, perto de rebentos e netos. E foi, de certo modo, pois viu, sorridente, o pôr do sol nos montes secos. Os mesmos que hoje têm brilho mortiço e utópicos sonhos chuvosos no ex-pomposo município norte-mineiro, repleto de horizontes perdidos, sem brilho de futuro…
O inclemente sol, tem visto ENY desde 2000, registro do seu óbito, virou o pior inimigo do povo, que, em fôlego curto e muito suor, tem pedido que Deus os perdoe e libere dilúvios generosos, meio de umedecer o solo e tudo que respire.
Tudo isso sucede num longínquo município mineiro, onde ENY viveu e conquistou posições e privilégios; prêmios concebidos pelo seu inteligente dom superior…
FIM
*Homenagem de João Carlos de Queiroz, filho de MARIA ENY DIAS DE QUEIROZ, professora de História (Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras – FAFIL – Montes Claros). ENY faleceu dormindo. Dia 27 de maio de 2000.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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