Mato Grosso
Poder Judiciário debate impacto do feminicídio e reforça ações de prevenção durante evento anual
Mato Grosso
Por trás de cada estatística sobre feminicídio existe uma história interrompida, uma família marcada pela violência e, muitas vezes, crianças obrigadas a reconstruir a vida após perder a mãe. Foi a partir dessa perspectiva que o “III Evento Anual do Núcleo de Atendimento a Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e Familiar – Espaço Thays Machado” reuniu magistrados(as), servidores(as) e integrantes da Rede de Proteção e dos Grupos Reflexivos para Homens, em Cuiabá.
Promovido pelo Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT), por meio da Coordenadoria Estadual da Mulher em Situação de Violência Doméstica e Familiar (Cemulher-MT), o encontro transformou números em reflexões e relatos de vida, reforçando a importância do acolhimento, da prevenção e da atuação integrada no enfrentamento à violência contra a mulher.
Em Mato Grosso, o Observatório Caliandra, do Ministério Público de Mato Grosso (MPMT), registrou 338 feminicídios entre 2019 e 2025. Somente em 2025, os 54 casos contabilizados deixaram 89 crianças e adolescentes órfãos. Já em 2026, até meados de junho, os 22 feminicídios registrados no estado haviam deixado outras 23 crianças sem suas mães.
Transformar dor em voz
Foi justamente sobre essa dimensão humana da violência que a psicóloga, artista plástica e ativista Lili de Grammont conduziu a palestra “Órfã do feminicídio: transformando a dor em força”.
Filha da cantora Eliane de Grammont, assassinada pelo ex-marido, o cantor Lindomar Castilho, em 1981, ela transformou sua trajetória pessoal em instrumento de conscientização, acolhimento e mobilização social. Durante a palestra, falou sobre as consequências que a violência deixa para além da vítima direta.
Ela destacou a importância de ampliar o debate sobre a violência de gênero para além dos casos já consumados, defendendo ações preventivas voltadas à formação de meninos e homens. Filha de uma vítima de feminicídio, afirmou que muitos autores de violência sequer reconhecem suas próprias condutas agressivas.
“Eu percebo o quanto os autores de violência não reconhecem a própria violência. Muitos continuam numa situação de vitimização própria, entendendo que a mulher provocou ou que alguma circunstância justifique a agressão. Esclarecer o que é violência é fundamental”, afirmou.
De acordo com ela, o enfrentamento ao problema passa pela reflexão sobre comportamentos naturalizados no cotidiano. “Não são apenas os autores de violência que precisam dessa discussão. Nossos meninos, maridos, companheiros e todos os homens precisam reconhecer os mínimos comportamentos que levam a esse grande tsunami que é o feminicídio”, ressaltou.
Educação e Prevenção
Lili de Grammont também chamou atenção para a necessidade de investir em educação e prevenção desde a infância. Segundo ela, enquanto as mulheres estão mais conscientes sobre seus direitos e denunciam mais as agressões, a disseminação de conteúdos misóginos nas redes sociais tem influenciado a formação de adolescentes e jovens.
Ao abordar a realidade dos órfãos do feminicídio, tema que marcou sua trajetória pessoal, a palestrante defendeu a ampliação das políticas públicas destinadas a essas crianças e adolescentes. Ela argumentou que os impactos da violência vão muito além da perda material.
“O órfão do feminicídio perde mais do que a mãe. Ele perde a referência de que família é amor, cuidado e proteção. Não basta apenas a pensão. É preciso oferecer apoio psicológico, espaços de acolhimento e oportunidades para que essa criança volte a ser criança”, enfatizou.
Prevenção e conscientização
Para o juiz da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Cuiabá, Valter Fabrício Simioni da Silva, relatos como o de Lili de Grammont ajudam a sensibilizar profissionais da rede de proteção e a sociedade sobre a importância da prevenção.
“O efeito é positivo porque consegue conscientizar as pessoas, mudar a forma de pensar e de agir. A prevenção é um caminho importantíssimo dentro da política de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica”, afirmou.
O magistrado também destacou a importância da rede de proteção aos órfãos do feminicídio. Segundo ele, a prioridade é garantir acolhimento rápido e suporte adequado às crianças e adolescentes que perdem suas mães em decorrência da violência. “Toda a rede atua em conjunto para oferecer proteção e amparo a essas crianças que enfrentam uma situação extremamente traumática”, disse.
Benefício
Como forma de amparar crianças e adolescentes afetados por essa violência, a Lei nº 14.717/2023 criou a pensão especial destinada aos órfãos do feminicídio. O benefício é voltado a menores de 18 anos cuja mãe tenha sido vítima de feminicídio e que se encontrem em situação de vulnerabilidade econômica.
O evento
O “III Evento Anual do Núcleo de Atendimento a Magistradas e Servidoras Vítimas de Violência Doméstica e Familiar – Espaço Thays Machado” integrou uma programação mais ampla.
Entre os dias 17 e 19 de junho, servidores do Tribunal de Justiça de Mato Grosso e das comarcas que atuam nas Redes de Enfrentamento e nos Grupos Reflexivos para Homens participaram da capacitação “Reflexão e Sensibilização para Autores de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher”, promovida pela Escola dos Servidores do Poder Judiciário de Mato Grosso.
Autor: Marcia Marafon
Fotografo:
Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT
Email: [email protected]
Mato Grosso
Diálogos Acadêmicos: Violência nas escolas demanda fortalecimento de ações preventivas
A violência no ambiente escolar, frequentemente tratada como uma questão disciplinar, revela-se um problema estrutural, complexo e ainda sem respostas institucionais consolidadas. Esse foi um dos principais pontos evidenciados durante o evento “Diálogos Acadêmicos”, realizado na noite de quinta-feira (18), em Rondonópolis, que reuniu autoridades do Poder Judiciário, da Universidade Federal de Rondonópolis (UFR) e da sociedade civil para discutir o tema sob uma perspectiva multidisciplinar.
A juíza Aline Luciane Ribeiro Viana Quinto Bissoni, diretora do Foro local e titular da 5ª Vara Criminal de Rondonópolis, destacou que a escola funciona como um verdadeiro “radar social”, refletindo as tensões e desigualdades presentes na sociedade. Segundo ela, o ambiente escolar concentra diferentes formas de violência, que vão desde práticas recorrentes de bullying e cyberbullying até situações mais graves, envolvendo agressões físicas e psicológicas. “A escola é um espaço onde essas violências aparecem de forma muito clara, mas também onde temos a oportunidade de agir”, afirmou.
Para a magistrada, um dos maiores desafios atualmente é a falta de preparo institucional para lidar com essas situações. Ela relatou um episódio recente que evidencia essa lacuna. Uma ameaça escrita dentro de uma escola mobilizou familiares e direção, mas não houve clareza sobre como proceder. “Não existe um fluxo definido para lidar com esse tipo de situação. Nem a escola, nem a família, nem as autoridades sabiam exatamente o que fazer”, relatou.
A juíza ressaltou que esse cenário demonstra o quanto o tema ainda é tratado de forma insuficiente, apesar de seu impacto na formação dos indivíduos. “A infância é um terreno em que pisamos por toda a vida. O que acontece nesse período pode definir trajetórias”, destacou Aline. Segundo ela, durante muitos anos a violência escolar foi subestimada, sendo vista como um problema menor ou restrito à disciplina, quando, na verdade, envolve a violação de direitos fundamentais.
Os dados apresentados pelo curso de Direito da UFR durante o evento reforçam essa percepção. A pesquisa realizada com estudantes revelou não apenas a alta incidência de violência, mas também um fator agravante: a falta de confiança nos canais de denúncia disponíveis. De acordo com o professor Anderson Nogueira Oliveira, muitos alunos não se sentem seguros para relatar situações a pais, professores ou diretores. “Isso não acontece por falta de vontade dos profissionais, mas porque muitas vezes eles não têm formação específica para lidar com essas situações”, explicou.
Essa ausência de confiança contribui para a reduzida notificação dos casos e dificulta a intervenção de maneira precoce. Assim, iniciativas como a criação de canais alternativos de denúncia surgem como ferramentas importantes para ampliar o acesso à proteção.
A universitária Sophia Baptistella, que participou diretamente das atividades nas escolas da cidade, trouxe um olhar prático sobre a realidade vivenciada pelos alunos. Segundo ela, mesmo na presença de adultos, já era possível identificar comportamentos problemáticos. “Muito deboche, discriminação, principalmente por gênero e identidade. Foi muito triste o que vimos”, afirmou. Para ela, esses comportamentos demonstram que a violência não se limita a episódios extremos, mas se manifesta de forma cotidiana.
A introdução de noções de Direito nas escolas, iniciada após a articulação entre a Comarca de Rondonópolis e a UFR, é vista como uma estratégia importante para que os estudantes compreendam seus direitos e saibam identificar situações de violação. Além disso, a integração entre universidade, Judiciário e sociedade civil é fundamental para criar protocolos, fluxos de atendimento e soluções práticas.
“É importante que todos os segmentos estejam conscientes do seu papel como ser humano e também na sociedade. E daí tragam ideias para que se transformem em ação, a fim de que possamos mitigar esses problemas que estão à nossa vista, portanto, no nosso viver do dia a dia. Às vezes ficamos preocupados, esperando o Estado trazer soluções. Quem tem que solucionar é a sociedade. É um exercício da cidadania e, consequentemente, também da democracia”, ressaltou o desembargador Márcio Vidal, que participou do evento.
Leia matéria já publicada sobre o assunto:
Judiciário e UFR promovem diálogos acadêmicos e apresentam iniciativas contra violência escolar
https://esmagis.tjmt.jus.br/noticias/6a3559e1d1cfaa001c2e9674
Outras informações podem ser obtidas pelo e-mail [email protected] ou pelos telefones (65) 3617-3844 / 99943-1576.
Autor: Lígia Saito
Fotografo: Rodrigo Moura
Departamento: Assessoria de Comunicação da Esmagis – MT
Email: [email protected]
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