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Entre Flores e Espinhos

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Eu sabia que o dia de lançar um livro seria muito especial. Uma data que eu mesmo escolhi e organizei do começo ao fim – os itens do café da manhã, os exemplares, as notas, cada detalhe verificado até o último momento.
Mas tinha uma coisa que eu não podia deixar passar.
O lançamento seria véspera do Dia Internacional das Mulheres. Então, no meio de toda aquela correria, fiz questão de providenciar botões de rosa para as mulheres que passassem por lá. Não estava no roteiro. Ninguém pediu. Foi uma decisão minha, movida por algo que vem de longe.
Quando eu era criança, o 8 de março tinha cheiro de flor. Os alunos chegavam às vezes com rosas para a professora. Em uma dessas vezes, fui eu. Minha mãe foi ao jardim, escolheu uma rosa, retirou os espinhos com cuidado, me entregou – e eu levei para a tia Zarif.
Não fiz aquilo por obrigação. Fiz porque aquilo fazia sentido. E esse sentido nunca foi embora.
Já em Mato Grosso, em todas as cidades por onde passei – Ribeirão Cascalheira, Querência, Vila Bela, Pontes e Lacerda, Mirassol D’Oeste, Cáceres e Várzea Grande – procurei repetir o gesto. Sempre escolhi a flor, o dia, o horário, e fiz questão de que nenhuma mulher fosse esquecida. Não para ter algo em troca. Não para aparecer. Mas porque acredito que homenagear é uma forma de enxergar o outro – e este é um dos gestos mais humanos que existem.
Sempre soube que mesmo mais de mil homenagens seriam pouco diante de tudo que as mulheres enfrentaram – e ainda enfrentam – numa sociedade que as marginalizou desde os primórdios.
Quando ouço uma vivência difícil contada por um homem, nunca deixo de pensar que seria infinitamente mais difícil se fosse uma mulher. Mas isso não vai me impedir de homenagear e de cuidar.
O problema é que o mundo mudou. A sociedade líquida e plataformizada acelera a transformação dos valores e torna os tempos mais áridos, sobretudo quando a polarização política embota o avanço humano [1]. Nesse ambiente, a manipulação da linguagem virou arma. Palavras que deveriam unir passaram a ser usadas para dividir. Gestos simples viraram alvo de julgamento.
Quer ver como funciona? Se eu subir num caixote e gritar que “todo dracenense é um mentiroso”, essa afirmação precisa ser falsa para ser verdadeira. É o mesmo mecanismo que faz muita gente de coração genuíno começar a se perguntar se está fazendo a coisa certa.
Se eu parabenizar minha mãe pelo Dia das Mulheres, ela vai ficar feliz pela homenagem – ou triste porque o correto seria homenageá-la todos os dias? O correto é continuar dando rosas ou parar? Se eu optar pela flor será que não dou proteção?
Quando se deparar com uma armadilha assim, não perca tempo. Alguém quer desviar sua atenção. São os novos ilusionistas do século XXI – fazem você olhar para um lado enquanto o problema real continua do outro.
E o problema real existe. E é seríssimo.
A violência contra as mulheres no Brasil não é exagero de discurso. É uma realidade dura, presente, que acontece dentro de casa, praticada por pessoas conhecidas, contra mulheres e meninas que na maioria das vezes têm medo de denunciar [2]. Mudar isso exige mais do que um dia no calendário. Exige investigações sérias, vítimas tratadas com respeito, agressores responsabilizados e políticas públicas de verdade – não só de intenção. Isso é proteção concreta. Que salva vidas.
E isso não tem nada de incompatível com uma rosa entregue de manhã.
Em O Pequeno Príncipe, Saint-Exupéry nos conta que o menino encontra um campo repleto de rosas, mas logo percebe algo essencial: a rosa dele continua sendo única – não porque era diferente das outras, mas porque cuidou dela [3].

Cuidado é o que transforma sentimento em responsabilidade.
Quem parabeniza as mulheres no 8 de março com Alegria genuína pode, ao mesmo tempo, acreditar que elas devem ser reconhecidas e protegidas nos outros 364 dias do ano. As duas coisas cabem na mesma pessoa, no mesmo dia, no mesmo gesto. Afeto e rigor não são inimigos – são parceiros.
Minha mãe, Dona Sirlei, me ensinou isso sem saber que estava me ensinando. Ela tirou os espinhos da rosa sem destruir a flor. Mostrou que dá para preservar a beleza e remover o que fere com as mesmas mãos.
As flores que dei ao longo da vida não foram ingenuidade. Foram consciência – a consciência de que toda mulher merece ser vista, celebrada e protegida.
As três coisas. Juntas. Sem abrir mão de nenhuma.
As mulheres merecem! Sempre mereceram!Referências:[1] BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001. [2] FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública. São Paulo, 2025. [3] SAINT-EXUPÉRY, Antoine de. O Pequeno Príncipe. *Douglas Strachicini
Dracenense e Promotor de Justiça em Mato Grosso.

Fonte: Ministério Público MT – MT



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Mulheres de Sinop com medida protetiva podem falar e ser ouvidas no projeto ‘Renascendo em Círculos’

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“Todas precisam ser ouvidas. Às vezes, a mulher não tem quem ouve e até quem mora dentro da casa dela não ouve ela. É tão ruim você falar com a pessoa e a pessoa fingir que está te ouvindo e você continuar falando como se estivesse falando com uma cadeira. É horrível! Mas eu continuo falando. E é isso que elas querem: ser ouvidas. E aqui a gente encontra pessoas que passaram pela mesma coisa ou até pior e elas têm o prazer de estar te ouvindo”.

Essas são palavras de J.S.A., 29, após participar pela primeira vez de um Círculo de Construção de Paz, na última sexta-feira (31), no Fórum de Sinop (500Km de Cuiabá), onde mulheres com medida protetiva são atendidas pelo projeto “Renascendo em Círculos”, uma iniciativa do Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (Cejusc) daquela comarca, que integra as ações da Rede de Enfrentamento à Violência Doméstica contra a Mulher de Sinop.

O município aparece na quarta colocação no estado em número de medidas protetivas concedidas. Somente de janeiro a maio deste ano, foram 431 decisões judiciais autorizando essa proteção às mulheres.

Após participar do Círculo de Construção de Paz, J.S.A. conta que saiu com mais esperança para seguir em frente. Depois de passar por tantas situações na vida, ela chegou a pensar que estava sozinha. “Mas sempre chegam pessoas que te mostram outro ponto de vista, que você pode pensar de modo diferente agora. Doeu, mas a gente pode ser feliz, pode pensar diferente, ser diferente. Tudo pode ser diferente. Basta você querer”, afirma.

Ela relata que possui medida protetiva em relação a dois ex-companheiros e que a última agressão que sofreu do ex-marido se deu em meio a uma discussão pelo sabor da pizza. Depois disso, ele pegou a filha do casal, arrumou as roupas dela numa bolsa e sumiu. “Ele não agiu com sabedoria. Ele não pensou. Simplesmente agiu no impulso”.

Segundo J.S.A., ao participar do Círculo de Construção de Paz no Fórum de Sinop, o que mais a impactou foi o relato de outra mulher que se comparou a um “vaso quebrado”. “Todas que estavam aqui estavam se sentindo como um vaso quebrado. Psicologicamente, com a mente destruída, não pelo que a gente fez com a gente mesmo, mas por pessoas com a mente sem criatividade, pessoas frias, que não têm amor a si próprio e querem destruir o seu próximo, relacionamentos, família, amigos…”.

A outra participante do círculo que se comparou ao “vaso quebrado” é M.J.M., que também estava pela primeira vez no projeto Renascendo em Círculos. Ela foi vítima de agressão por parte do próprio filho, após defender a nora, que era o alvo inicial da violência. Apesar disso, o que a levou a se comparar ao vaso quebrado foi uma experiência anterior.

“Eu era um vaso bonito, a princípio, no casamento, mas com o passar do tempo, esse vaso pra ele foi ficando feio, foi virando desprezo, até que um dia o vaso se quebrou. Esse vaso ficou quebrado por muito tempo, mas eu resolvi construir aquele vaso quebrado de novo, que sou eu. E nessa parte conjugal, eu consegui reconstruir a minha vida. O único problema agora é esse com meu filho, porque ele está lá e eu não sei se está bem”, disse.

Após participar do círculo de paz com outras mulheres na mesma situação que ela, M. afirmou estar seguindo em frente, agora, mais aliviada. “Eu estou saindo daqui me sentindo muito mais leve, porque eu pude falar o que eu nunca tinha falado sobre esse vaso quebrado. Então eu pude me expressar um pouco. Estava guardado aqui dentro de mim há muito tempo. Se eu puder, da próxima vez eu volto”.

Diante desse relato, J., ao perceber que assim como ela, as demais participantes do Círculo de Construção de Paz também traziam dores relativas à violência doméstica, refletiu sobre todas as pessoas que passaram pela sua vida e a levaram a tomar a decisão de pedir ajuda da Justiça. “Eu já não estava aguentando mais, mas eu não estava aguentando ir sozinha, teve que ter alguém me empurrando, me levantando, senão eu estava lá na mesma vida”.

J. afirma que toda mulher na situação em que ela vive “quer uma pessoa que te pegue pela sua mão e te levante e ergue a sua cabeça e fala: ‘Você é forte, você vai conseguir, você não pode desistir, o que você passou foi só um testemunho da sua vida pra você contar dali pra frente. Não pra deixar as outras pessoas tristes, mas pra incentivar as pessoas que você conseguiu e que elas também podem’”. Mais do que isso, J. diz que quer ser essa pessoa que abrace e passe conforto para outras mulheres, assim como ela encontrou no projeto “Renascendo em Círculos”.

Renascendo em Círculos – Iniciado em 2023, o projeto, idealizado pela juíza coordenadora da Justiça Restaurativa em Sinop, Débora Caldas, é destinado a mulheres que possuem medida protetiva em vigência para que possam ter a esperança de uma vida melhor. “O objetivo desse projeto é oportunizar a essas mulheres essa dinâmica de, em círculos, olhar para as histórias das outras, se perceber, ter esse olhar para si, o que é raro no dia a dia corrido que elas têm de dedicação ao trabalho, aos filhos, aos companheiros”, afirma.

A magistrada destaca que o Círculo de Construção de Paz é um ambiente seguro, onde as participantes podem se expressar por meio de um diálogo facilitado, inclusive com ajuda das facilitadoras, que são treinadas pelo Núcleo Gestor da Justiça Restaurativa (NugJur) do Tribunal de Justiça de Mato Grosso (TJMT).

O que é o Círculo de Construção de Paz – Facilitadora de Círculo de Construção de Paz, a servidora pública Amanda Patrícia de Jesus da Silva de Oliveira explica que o objetivo da atividade é promover a reflexão sobre si mesma, o que ocorre por meio de perguntas direcionadas pelas facilitadoras e que as participantes vão respondendo de acordo com suas vivências. “O círculo vem com esse propósito de ser acolhedor, de ser um momento pra falar sobre questões que, às vezes, você tem dificuldade de falar em outros lugares. É um espaço sem julgamento”, explica.

Segundo Amanda, o benefício da atividade não é restrito às participantes, mas às próprias facilitadoras, que atuam em duplas. “Pra mim é bem importante porque, como mulher e por trabalhar na área de atendimento a mulheres, o círculo vem pra complementar. Então, ver esse projeto é um fortalecimento para que as mulheres não se sintam sozinhas, porque muitas delas acreditam que só elas vivem aquela situação, seja de uma medida protetiva, seja de qualquer situação de violência. Então, quando elas vêm pra participar de um momento como esse, percebem que não estão sozinhas e que, na verdade, existem várias outras, com histórias diferentes, mas situações parecidas e assim a gente se fortalece”.

Autor: Celly Silva e Júnior Silgueiro

Fotografo: Josi Dias

Departamento: Coordenadoria de Comunicação do TJMT

Email: [email protected]

Fonte: Tribunal de Justiça de MT – MT



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