Opinião
Relações humanas e de Poder na VG
Opinião
Por: Eliseu Silva
Desde que o mundo é mundo, é sabido que da convivência entre o ser humano e seus egos, os conflitos de vontades e interesses serão sempre inevitáveis. É uma luta entre outro, a sua vontade. Na esfera política então, nem se fala. Fazer valer a vontade sobre outrem é mais que um domínio: um prazer. Vejamos os embates entre grupos políticos no Brasil e no mundo, e porque não dizer em Várzea Grande. Na cidade de Couto Magalhães os conflitos são travados de geração em geração, de eleição em eleição, acordadas entre grupos e famílias tradicionais do lugar, e vence nas urnas ou nos tribunais, aquele mais bem aparelhado em várias circunstâncias: mais influente; mais forte e em algumas vezes, não mais inteligente.
A maneira usada para se conquistar o comando daquela cidade se dá de maneira bem alheia daquilo que já presenciamos ou imaginamos. Evidentemente, da maneira pior possível. Rasteiras, traições e tapetões são comuns no dia a dia político da outrora cidade industrial. A relação humana e o Poder na popular vegê são bem mais sutis do que se imagina, e a instabilidade política do lugar sempre descendo ralo abaixo e que se dane a vida de seus habitantes.
Para tentar entender esse viés de jogos baixos – do quanto pior, melhor, recorri aos belos textos da professora universitária, Cynthia Mello Ferrari, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade de SP. E, num primeiro entendimento, percebi que o político em geral, em especial os de Várzea Grande, ao aproximar do poder, se sente autossuficiente na capacidade de realizar qualquer ato ou ação. Ele pressupõe numa capacidade de superar até mesmo uma oposição pela força da moeda, impondo-se a ela. Seria como adquirir potência total para realizar determinado desejo ou vontade. Todavia, usar desses ímpetos nos dias atuais é querer “dar com os burros n’água”. Órgãos fiscalizadores em favor da sociedade estão atentos. Não é a toa que nos últimos seis anos, a cidade teve quatro prefeitos cassados pela Justiça Eleitoral.
Foi assim em 2011, com Murilo Domingos, em 2012, com Tião da Zaeli, em 2015, com Wallace Guimarães, e agora, recentemente, com Lucimar Sacre de Campos, e seu vice, José Anderson Hazama, por suposto abuso da máquina pública no ano de 2016. Vale observar que tanto Murilo, quanto Zaeli e Wallace, não conseguiram retomar os seus mandatos. Já o futuro da prefeita Lucimar esta nas mãos dos juízes do TRE.
Diante desse verdadeiro circo de péssima comédia, não sei dizer qual grupo político sairá ganhador ou perdedor, quem tá certo ou errado, porém me arrisco em expressar concordar que as decisões dos juízes eleitorais são valorosas e tem tirado o vício de muita gente ao condenar a desaprovação de tais atitudes ilícitas, que para maioria dos brasileiros, significa falha ou defeito frente aos valores vigentes em uma sociedade moderna, que não aceita mais desmandos com o erário público.
Elizeu Silva é jornalista em Mato Grosso
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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