Por: João Carlos de Queiroz
“Não fosse o apoio de Jayme e Júlio Campos, jamais eu teria êxito para fundar o aeroclube”
São palavras minhas, ditas sempre com convicção agradecida. Isso porque os irmãos Jayme e Júlio Campos, então governador (Jayme) e senador (Júlio), ofertaram condições logísticas imprescindíveis para que pudesse tocar essa empreitada adiante. Uma luta de anos, finalmente vitoriosa, conforme pode ser atestado: o Aeroclube de Várzea Grande, que fundei em 14 de abril de 1991, encontra-se em atividade regular até hoje, pelas mãos do competente comandante Vargas. Mas, para que esse projeto pudesse se constituir numa realidade prática, faltava tudo naquela época, materialmente falando. Apenas sobravam sonhos, utopias improváveis deste jornalista e poucos aliados, a maioria curiosa para saber qual seria o resultado de tanta abnegação por um investimento precocemente insustentável.
O Aerovag – Aeroclube de Várzea Grande começou a surgir quando desembarquei em Cuiabá em outubro de 1989, procedente de Minas Gerais. Lá, na minha cidade, Montes Claros, reativei e presidi o Aeroclube de Montes Claros em 1984, rebatizando a entidade com o nome do aviador Flammarion Wanderley, responsável pela sua fundação, em 1947. Flammarion presidiu essa escola de pilotos civis por anos seguidos, auxiliado por abnegados adeptos de atividades aeronáuticas de instrução no Norte de Minas Gerais (Antônio Lafetá Rebello, Nathércio França, Mário Magno Cardoso, Omerzindo Assis Lima, Hélio Rocha Lessa e outros).
O Aeroclube de Montes Claros funcionou durante anos, paralisando as atividades em 1975. O PP-RTI, monomotor entelado, popular treinador “Paulistinha”, utilizado nas aulas práticas, tomou destino incerto, e o hangar do aeroclube foi espertamente ocupado pela Infraero, para estocar material de limpeza.
Após minuciosa investigação acerca do paradeiro do “Paulistinha”, descobri seus “restos mortais” num dos hangares do Aeroporto Carlos Prates, em Belo Horizonte. Havia sido canibalizado completamente, só restou a estrutura central. Aproveitamos essa estrutura e o prefixo, adquirido pelo piloto Adão Tarcísio de Castro, que reconstruiu o avião, iniciativa saudosista. Graças à aquisição do prefixo/estrutura, tivemos meios de bancar a regularização jurídica da entidade, reativando-a oficialmente. Contei com o precioso auxílio dos amigos Humberto Velloso Reis, Anísio Ramos Borges e Artur Porfírio Lima Pimenta, além do próprio Adão Tarcísio de Castro.
Assim, a fundação do Aerovag {que tive o prazer de idealizar e concretizar} está diretamente ligada à reativação do Aeroclube de Montes Claros {que também idealizei e realizei} e ao então senador Tancredo Neves, eleito presidente da República, posteriormente. Tancredo, fato que chocou o País, faleceu “misteriosamente” antes de ser empossado na presidência. Viajei com ele num Seneca I, bimotor pillotado pelo comandante Roberto José Farias de Gusmão, que voava pela Servi-Táxi – empresa montesclarense de táxi-aéreo, pertencente aos pilotos José Albinati Neto e Carlos Gomes. Uma viagem rápida entre Montes Claros e Francisco Sá.
Na época, já repórter político do Jornal do Norte, fui incumbido dessa missão; o falatório geral em torno do nome de Tancredo recrudescia em todo o Brasil, nome em alta para ocupar a presidência da República. De Francisco Sá, Tancredo voou até Capelinha, Bahia. O voo no velho Seneca aconteceu numa manhã ensolarada de sábado. Fiquei encantado ao perceber que a aeronave parecia “estática” no ar, arrastando-se lentamente sobre as nuvens, apesar de estarmos a mais de 250 km/h. Gusmão me concedera a honra de ocupar a cadeira do co-piloto, e volta e meia, gentil, explicou alguns procedimentos de pilotagem.
Já sobre Francisco Sá, cidade acanhada, conhecida no Norte de Minas por “Brejo das Almas”, em face de ventanias fortes que ainda hoje assolam a região no período noturno, sobrevoamos a praça principal, chamativo aéreo para que um táxi fosse nos buscar no campo de pouso, pois era um, na verdade. Deu certo, comprovamos ao ver dois táxis saindo rápidos rumo à estradinha que leva à pista, orgulhosamente denominada de “aeroporto” pela população local.
Logo após a aterrissagem, fomos alertados de que o portão do pretenso “aeroporto” estava trancado, correntes e cadeados. Um vigia local nos explicou ter sido ordens expressas do então prefeito Feliciano Oliveira, que era da Arena, adversário político de Tancredo, do MDB. O senador não mostrou irritação, e pediu para que alguém levantasse o arame farpado da cercar. Eu o ajudei nessa travessia delicada, surpreso pela agilidade do bom velhinho. Dali, fomos diretos à casa de correligionário político, reunião que adentrou tarde afora. Ainda sinto o gosto da faropa queimada servida no almoço. Tancredo comeu sem apetite, percebi…
Por que rememoro isso, devem estar se questionando: é que, naquela manhã de sábado, despertei oficialmente minha paixão por aviões, decidindo que seria piloto. Pretensão agora hibernada, talvez palpável em futuros improváveis, numa outra encarnação. Ressurreição é somente para beatos religiosos, eu não acredito. Morremos e viramos pó, e é isso apenas, nada de “ressurgir” de covas, reconstruir esqueletos desfeitos pela ação do tempo…
Também, no auge do entusiasmo desperto de pilotar, decidi reativar também o Aeroclube de Montes Claros, luta empreendida conjuntamente às aulas de instrução primária aérea que fiz no Aeroclube de Lagoa Santa, em Belo Horizonte. O empresário Walduck Wanderley, da Construtora Cowan, a pedido meu, doou um Cessna 150 para o Aeroclube de Montes Claros, sem que a entidade tivesse ainda sido reativada. Todo o processo jurídico foi feito posteriormente, homologando-se a autorização de funcionamento, médico para realizar CCF – Certificado de Capacidade Física (PP/PC) e outros módulos operacionais do aeroclube (aeromodelismo, voo a vela, girocóptero, ultraleve, paraquedismo…).
Walduck nos ajudou por um motivo: ficou sensibilizado ao ler artigos que publiquei na imprensa mineira, principalmente no “Estado de Minas”, maior jornal de circulação do Estado. Nos textos, sempre enaltecia o trabalho do seu pai, destacando-o como precursor das atividades de instrução na ressequida região mineira.
Após reativar o Aeroclube de Montes Claros, fui eleito presidente da escola por dois mandatos. Essa paixão aeronáutica me acompanhou no desembarque na capital mato-grossense. Pesquisando, fui informado pelo Departamento de Aviação Civil – DAC (atual ANAC) que não poderia fundar um aeroclube em Cuiabá, mas, sim, em Várzea Grande, sede do Aeroporto Internacional Marechal Rondon. As aulas práticas até poderiam ser remanejadas para Santo Antônio de Leverger, a 30 quilômetros do aeroporto. Início de outra luta em prol da implantação de uma escola de aviadores civis na Cidade Industrial, apelido de VG.
Sem dinheiro e sem carro, eu dispunha apenas de alguns contatos em Cuiabá e Várzea Grande, a exemplo de políticos que entrevistava para o “Jornal do Dia”, matutino já extinto. Foi ali, utilizando fax, telex e telefone da redação, que comecei a batalha para fundar o Aerovag. Para realizar as reuniões com o grupo de interessados, bem restrito, consegui espaço na antiga Churrascaria Gaúcha, próxima ao Aeroporto Marechal Rondon. A publicação gratuita de convocação da Assembleia-Geral Extraordinária e das atas foi fruto de pedido do então deputado estadual Roberto França no ‘Diário Oficial’, já com a entidade aeroclubística elevada à categoria de Utilidade Pública pela Câmara Municipal de Cuiabá.
Ainda no Jornal do Dia, empreendi cansativa maratona no sentido de garantir as operações aéreas do futuro aeroclube em Santo Antônio de Leverger. Falei com o proprietário do aeródromo, Orides Dias Barbosa, a fim de que autorizasse as atividades de instrução no lugar. Mas ele foi cético quanto à consolidação do projeto de fundação da escola de pilotagem. Frisou que teríamos de ter expressivo capital para tocar um empreendimento do tipo. Ironicamente, o comandante Orides Dias Barbosa veio a presidir o Aerovag anos após…
Nesse corre-corre para regularizar os documentos, a parte jurídica, em si, sempre me perguntavam sobre o avião,ferramenta imprescindível de uma escola de pilotagem. Informei que receberíamos uma aeronave de presente do Ministério da Aeronáutica, modelo Aero-Boero 115, fabricado em Montoros, Argentina. Mesmo os amigos próximos gargalhavam ao ouvir isso, sem acreditar. Salientavam que o País estava em crise, governo José Sarney. “Como ganharíamos um avião de presente?” Ignoravam a existência de acordo operacional técnico no âmbito aeronáutico entre os dois países. A Argentina cedeu centenas de Aero-Boero 115 para o Brasil. A maioria das aeronaves já caiu. Não é nada fácil operar um Boero. Eu mesmo rodopiei feio na pista do Aeroporto Marechal Rondon numa tarde chuvosa, danificando a máquina…
Continuei então a minha luta para implantar a escola, e recebi a visita, em Várzea Grande, de oficiais do Serac-6 – Sexto Serviço Regional de Aviação Civil, sediado em Brasília-DF. Mais ironias referentes ao projeto de fundar o Aerovag, pouco crédito. O Serac-6, ficou óbvio, relutava em autorizar o funcionamento da escola, já homologada existencialmente, com cursos práticos e teóricos. Já voar era uma outra história, complicado… Nem avião tínhamos!
Um dos membros do Serac-6 chegou a ir comigo a Santo Antônio para checar a base alternativa de apoio à instrução aérea. Fomos num Fiat Elba, veículo cedido à entidade pelo Governo Jayme Campos, em regime de comodato. Lá, o oficial reuniu suas ironias às do empresário Orides Dias Barbosa. “Um jornalista quebrado ($$$) jamais teria condições de operacionalizar uma escola de pilotos”, deviam pensar. Estavam enganados.
O Jornal do Dia faliu nessa ocasião e fui trabalhar no jornal O Estado de Mato Grosso, do ex-governador e senador Júlio Campos e Isabel Campos. A sua esposa, professora Isabel Campos, foi eleita presidente de Honra do aeroclube, e sem que eu pedisse, o senador Júlio José de Campos assumiu a luta para trazer o avião para cá. Júlio insistiu tanto que o diretor-geral do DAC me ligou suplicando para que transmitisse um recado a ele: “O avião do aeroclube está à disposição da diretoria do aeroclube, em Maricá-RJ”, disse. Teríamos que ir buscá-lo. A intervenção de Júlio certamente foi decisiva para os oficiais do SERAC-6 e do DAC autorizarem o funcionamento do avião, que agora já podia realizar voos práticos, ensinar a turma a pilotar.
Procurado, o governador Jayme Campos determinou providências urgentes nesse sentido ao seu secretário de Comunicação, jornalista Marcos Lemes, e também ao coronel Oliveira, titular da Casa Militar. O Governo Jayme doou combustível e diárias à entidade, recurso essencial ao traslado do avião. O comandante Marcos, ex-oficial da Aeronáutica, piloto de F-5, foi quem buscou a aeronave no Rio de Janeiro. Mas o veterano piloto militar teve que fazer voos de treinamento num outro Boero em Jaciara, aeroclube local, para poder retirar carteira de instrutor, normativa do DAC. Sem esse documento, nem poderia decolar de Maricá. O avião chegou a Várzea Grande numa tarde chuvosa, após horas e horas no ar. “Um voo difícil, cansativo”, confessou o piloto.
Jayme ainda nos ajudou na parte de mobiliário do aeroclube e na limpeza de terreno que a Infraero sinalizava como área do nosso futuro hangar. Um trator D-9 patrolou o irregular terreno durante dois dias. Jamais esquecerei a boa-vontade de Júlio e Jayme para acelerar o êxito da operacionalização do Aerovag. E enquanto ambos estiveram no Governo e Senado, o aeroclube sempre foi recebido com muita atenção e carinho. Ao contrário do governador Dante de Oliveira, que se referia às aulas de instrução aérea como “atividade da elite”. Dante jamais nos ajudou, e o Aerovag, em que pese o respeito pelo seu súbito passamento, nada deve a ele. Há verdades que precisam ser ditas.
Hoje, ao ver os aviões do Aeroclube de Várzea Grande cruzando os céus da cidade, enalteço a quem estiver por perto o nome desses dois guerreiros públicos: Jayme e Júlio Campos. Aliados com quem contei em todos os momentos de dificuldades para emoldurar esse projeto tão especial para quem gosta de voar. Vários comandantes que operam atualmente grandes jatos em companhias áereas foram formados pelo AEROVAG.
(*No site do Aerovag consta foto minha com o então senador Júlio José de Campos, quando da chegada do avião Aero-Boero. Consto também na galeria de ex-presidentes da entidade. A única falha, por omissão, é que o texto da história do Aerovag diz que a escola foi fundada em 1991. Mas inexiste o nome do FUNDADOR, no caso, eu. Qualquer projeto tem um mentor, uma assinatura de alguém que começou o trabalho para torná-lo realidade. Espero que a diretoria do Aerovag corrija esse pequeno lapso. Fundei o Aerovag, isso ninguém jamais poderá omitir, disfarçar.)
* TODOS OS ARTIGOS SÃO DE RESPONSABILIDADE DE SEUS AUTORES.
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