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Acordo provisório completa 3 meses com R$ 9,2 bilhões em carnes sob ameaça

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Três meses depois do início da aplicação provisória do acordo comercial entre o Mercado Comum do Sul (Mercosul) e a União Europeia (UE), o agronegócio brasileiro enfrenta uma contradição: ao mesmo tempo que o tratado reduz tarifas e promete ampliar as vendas ao bloco, novas exigências europeias podem interromper, a partir de 3 de setembro, a entrada de produtos brasileiros de origem animal.

A restrição alcança carne bovina, carne de frango, ovos, mel, pescado e outros produtos sujeitos ao controle de medicamentos veterinários. A medida coloca sob risco um mercado relevante para frigoríficos, cooperativas, exportadores e milhares de produtores integrados às cadeias de proteína animal.

Somente as exportações brasileiras de carnes para a União Europeia movimentaram aproximadamente R$ 9,2 bilhões em 2025. A carne bovina respondeu por cerca de R$ 5,3 bilhões desse total, conforme dados do comércio exterior brasileiro convertidos pela cotação atual. Embora o bloco compre menos que a China em volume, costuma pagar mais por cortes de maior valor agregado.

O acordo entre Mercosul e União Europeia foi assinado em janeiro, aprovado pelo Congresso brasileiro em março e começou a ser aplicado provisoriamente em 1º de maio. O tratado prevê a redução ou eliminação gradual das tarifas incidentes sobre 95% dos produtos importados pela União Europeia e 91% dos produtos adquiridos pelo Mercosul.

Para o agro, as oportunidades incluem carnes, café, frutas, sucos, óleos vegetais, açúcar, etanol, arroz, mel e alimentos processados. Parte desses produtos, porém, continuará submetida a cotas, cronogramas graduais e limites negociados para proteger setores considerados sensíveis pelos europeus.

A redução das tarifas também não elimina as exigências sanitárias, ambientais e de rastreabilidade. Na prática, o produto pode receber uma condição comercial mais favorável e, ainda assim, ficar impedido de entrar na Europa se não cumprir as regras estabelecidas pelo bloco.

É justamente o que pode ocorrer com os produtos brasileiros de origem animal. A União Europeia retirou o Brasil da relação de países considerados plenamente adequados às novas normas sobre o uso de antimicrobianos na criação.

As exigências proíbem a utilização de determinados medicamentos para estimular o crescimento ou aumentar o rendimento dos animais. Também restringem o emprego, na produção animal, de substâncias que os europeus consideram essenciais para o tratamento de infecções em seres humanos.

A decisão não significa que a União Europeia tenha identificado carne brasileira contaminada ou imprópria para consumo. A divergência está na capacidade do Brasil de demonstrar, por meio de controles oficiais, registros e rastreabilidade, que as regras foram respeitadas durante todo o ciclo produtivo.

O Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) informou que apresentou documentação técnica à Comissão Europeia sobre os sistemas brasileiros de fiscalização de bovinos, aves, ovos, pescado e mel. O governo tenta recolocar o país na lista de fornecedores autorizados antes de 3 de setembro.

Caso não haja acordo até essa data, os frigoríficos habilitados poderão perder temporariamente o acesso ao mercado europeu. A interrupção também atingiria produtores que fornecem animais dentro dos protocolos exigidos pelos compradores do bloco.

Na pecuária bovina, a adaptação tende a ser mais demorada. Como os europeus exigem garantias sobre toda a vida do animal, será necessário reunir informações desde o nascimento, incluindo movimentações entre propriedades e registros dos tratamentos veterinários.

Representantes da cadeia estimam que a formação de uma oferta bovina completamente acompanhada pelos novos protocolos poderá levar até dois anos. Esse prazo não representa necessariamente a duração do bloqueio, que dependerá das negociações entre os governos, mas indica o tempo necessário para completar o ciclo de parte dos animais sob as novas regras.

Na avicultura, uma adequação pode ocorrer mais rapidamente porque o ciclo entre o alojamento do pintinho e o abate é de aproximadamente 45 dias. Ainda assim, granjas, fábricas de ração, cooperativas e frigoríficos terão de demonstrar a separação dos lotes destinados à Europa e manter registros auditáveis.

Para o produtor rural, as mudanças podem significar aumento do controle sobre medicamentos, necessidade de prescrição veterinária, identificação individual ou por lote, armazenamento de documentos e maior fiscalização dentro da propriedade. Também poderá haver exigência de segregação dos animais que atendem ao protocolo europeu.

Essas adaptações elevam custos, mas permitem acessar um mercado que remunera produtos diferenciados. Na bovinocultura, programas destinados à Europa costumam comprar animais jovens, rastreados e enquadrados em padrões específicos de alimentação, manejo e acabamento.

O risco é que pequenos e médios produtores tenham dificuldade para suportar os custos de certificação e controle. Sem assistência técnica e participação de frigoríficos e cooperativas, parte deles poderá ficar fora das cadeias exportadoras de maior valor.

Além das regras sanitárias, o produtor brasileiro ainda precisa acompanhar as exigências ambientais europeias. Comprovação de origem, rastreabilidade e ausência de vínculo com desmatamento irregular ganham importância nas negociações. O setor defende que essas normas sejam baseadas em critérios técnicos e não funcionem como barreiras comerciais disfarçadas.

O Brasil também terá instrumentos para reagir se o acordo provocar aumento excessivo das importações europeias e prejuízo à produção nacional. O Decreto nº 12.866, publicado em março, regulamentou a aplicação de salvaguardas em acordos comerciais.

Essas salvaguardas permitem interromper temporariamente a redução de tarifas, restabelecer alíquotas ou criar cotas quando o crescimento das importações causar dano grave ou ameaça à atividade brasileira. A adoção das medidas depende de investigação conduzida pelas autoridades de comércio exterior.

O mecanismo poderá proteger setores mais expostos à concorrência europeia, especialmente segmentos da indústria de alimentos. Não resolve, entretanto, o impasse sanitário envolvendo as carnes brasileiras. As salvaguardas tratam da entrada de produtos no Brasil, enquanto a restrição aos produtos de origem animal depende da aceitação dos controles nacionais pela União Europeia.

A proximidade do prazo transforma agosto em um período decisivo para o agro. Sem uma solução negociada, o Brasil poderá chegar a setembro com tarifas menores em razão do acordo comercial, mas com parte importante de sua produção impedida de aproveitar a abertura do mercado europeu.

Fonte: Pensar Agro



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Tecnologia brasileira cria passaporte digital para o agro

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O Brasil desenvolveu uma ferramenta para enfrentar uma das principais barreiras comerciais que se impõem ao agronegócio: a necessidade de comprovar onde e em quais condições os produtos foram produzidos. Criada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a tecnologia permite rastrear soja, café e carne bovina desde a propriedade rural até o destino comercial, reunindo informações ambientais, sanitárias e de origem em um registro digital que poderá facilitar o acesso aos mercados internacionais.

Batizada de Embrapa Trace, a ferramenta chega em um momento decisivo para os exportadores brasileiros. A União Europeia prepara a aplicação de novas exigências de rastreabilidade e comprovação de ausência de desmatamento, que afetam diretamente cadeias importantes para a economia rural. A partir de 30 de dezembro de 2026, conforme o cronograma atualmente previsto, grandes e médios operadores sujeitos à regulamentação europeia deverão cumprir essas exigências. Para micro e pequenos operadores enquadrados nas regras específicas, o prazo será 30 de junho de 2027.

O regulamento europeu considera como referência o dia 31 de dezembro de 2020. Para atender às exigências, não basta declarar que a produção respeita a legislação ambiental brasileira. Será necessário apresentar informações verificáveis sobre a localização das áreas produtivas, a origem das mercadorias e o cumprimento dos critérios estabelecidos pelos compradores.

É justamente nessa etapa que a nova tecnologia pretende atuar. A Embrapa Trace reúne dados da propriedade, registros de produção, documentos, certificações e informações sobre transporte, armazenamento e processamento. O sistema permite acompanhar cada etapa da cadeia e consolidar as evidências em relatórios digitais de conformidade, que poderão ser consultados por meio de códigos QR.

Na prática, uma carga de soja destinada à exportação poderá ter suas informações de origem relacionadas aos registros de armazenamento, transporte e processamento. O mesmo princípio se aplica ao café e à carne bovina, respeitando as particularidades de cada atividade. O objetivo é reduzir a necessidade de apresentar repetidamente os mesmos documentos a diferentes compradores e organismos de verificação.

A ferramenta utiliza duas outras tecnologias desenvolvidas pela pesquisa pública. O TerraClass, projeto da Embrapa em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fornece informações sobre o uso e a cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado. Já o ElegiAgro cruza dados cadastrais, fundiários e geográficos para apoiar a análise da conformidade ambiental das propriedades.

A integração permite confrontar informações declaradas com bases técnicas e registros oficiais. Isso não significa, entretanto, que o sistema substitua automaticamente auditorias, certificações ou todas as exigências legais dos países compradores. Sua função é organizar, validar e conectar evidências que possam ser utilizadas nos processos de comprovação.

Para o produtor rural, um dos principais benefícios esperados é a redução da burocracia. Cooperativas, frigoríficos, indústrias e empresas exportadoras poderão utilizar os registros digitais para demonstrar a origem das mercadorias, evitando parte da duplicação de documentos e procedimentos. A economia efetiva dependerá da adoção da tecnologia e das exigências de cada mercado.

O acesso ocorre por meio da AgroAPI, plataforma da Embrapa destinada à integração de informações com sistemas digitais utilizados por empresas e instituições. Na modalidade de testes da ferramenta para soja, há uma oferta gratuita de até 10 mil requisições, válida até 30 de dezembro de 2026. Isso não significa que todos os serviços de certificação ou rastreabilidade da cadeia sejam gratuitos.

A Embrapa Trace também será integrada à plataforma AgroBrasil Mais Sustentável, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A proposta é combinar a avaliação socioambiental das propriedades com o acompanhamento dos produtos ao longo da cadeia comercial, fortalecendo a capacidade brasileira de apresentar informações próprias nas negociações internacionais.

A importância econômica da iniciativa vai além da União Europeia. A rastreabilidade tornou-se uma exigência crescente de compradores interessados em verificar a origem dos alimentos, as condições de produção e o cumprimento de padrões ambientais. A disponibilidade de informações confiáveis pode reduzir riscos comerciais e ajudar empresas brasileiras a preservar mercados diante de exigências cada vez mais rigorosas.

A tecnologia também poderá alcançar outras atividades. A Embrapa prevê a incorporação de cadeias como cacau, madeira, borracha, frango, suínos e pescados, ampliando a possibilidade de utilização dos mesmos princípios de rastreabilidade em diferentes segmentos do agronegócio.

O desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de informações representa uma alternativa para reduzir a fragmentação dos sistemas utilizados atualmente. Mas seu resultado dependerá da participação de produtores, cooperativas, indústrias, certificadoras e exportadores, além da qualidade dos dados fornecidos.

Para o agronegócio brasileiro, o avanço representa uma mudança importante: produzir com eficiência e cumprir a legislação continuam sendo condições essenciais, mas já não são suficientes para disputar determinados mercados. Será cada vez mais necessário comprovar essas condições com informações verificáveis, capazes de acompanhar o produto da fazenda até o comprador.

A ferramenta pode ser consultada na plataforma AgroAPI — Embrapa Trace.
O acesso operacional depende do perfil e da autorização de cada participante da cadeia.

Fonte: Pensar Agro



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