DEPRESSÃO TEM CURA
O otimismo amarelo de setembro precisa ir de janeiro a dezembro
“A minha mensagem para as pessoas que estão passando por algum sofrimento emocional ou psicológico é de que a busca pela felicidade não é uma utopia. Acredite!”
Opinião
A doença considerada do século ainda é pouco falada em nossa sociedade, sem contar o grande tabu que ainda existe em torno da depressão, essa que atinge mais de 300 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde. Até pouco tempo não enxergávamos ela como uma doença que tem cura e que precisa ser amplamente discutida.
É em Setembro que as intuições públicas e privadas levantam a pauta sobre a depressão e suas características clínicas que resultam no suicídio. E no chamado setembro amarelo é que debatemos as dificuldades de detecção dos quadros depressivos; a falta de suporte social, que prejudica o tratamento adequado, e a análise deste fenômeno de enorme complexidade e multidimensional.
É nessa perspectiva que precisamos estimular mais a discussão, não só sob o ponto de vista clínico, mas num panorama mais amplo onde há uma necessidade de desmistificação do tema, levando em consideração o trauma que os resultantes depressivos, como o suicídio, acarreta em nosso meio social.
Não podemos nos restringir há uma vez no ano à busca pela informação e esclarecimentos sobre os riscos dos comportamentos autodestrutivos, ainda que seja numa perspectiva de importante conscientização social. A ausência desse conhecimento compartilhado gera grande descompasso entre as necessidades daqueles que apresentam a ideação suicida, e a tomada de atitudes das pessoas de seu convívio.
É preciso que as instituições sensibilizem a sociedade para uma ótica menos amedrontada e mais acolhedora, onde o sofrimento alheio seja, antes de tudo, escutado para possibilitar intervenções. Hoje, a cada caso de suicídio consumado existe entre 10 ou 20 tentativas anteriores, o que evidencia a importância da prevenção.
As pessoas têm vergonha de admitir as suas angústias e aflições, falo por experiência própria, pois já sofri e, ainda sofro, com a depressão. Quantas vezes relutei em admitir e expressar o que se passava pelos meus pensamentos. Agora imagina nos estágios depressivos mais avançados onde emana a ideia de que a morte é um alívio para tal sofrimento.
Quero me solidarizar com todas essas pessoas e reforçar o nosso pedido de atuação preventiva pelo município onde o nosso Núcleo de Apoio, em conjunto com as secretarias municipais e demais parceiros, irão levar informação e promover o debate em todas as nossas unidades socioassistenciais presentes nos bairros de Cuiabá.
Vamos levar à discussão às escolas, as famílias e a todos os níveis da sociedade possível, pois temos a consciência que quanto maior for o conhecimento sobre a depressão e os riscos de suicídio, maiores são as chances de prevenção e casos fatais.
A minha mensagem para as pessoas que estão passando por algum sofrimento emocional ou psicológico é de que a busca pela felicidade não é uma utopia. Acredite!
*Márcia Pinheiro é atual primeira-dama de Cuiabá, empresária e pós-graduada em Gestão Pública.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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