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HÁ 82 ANOS NASCIA O FOLCLÓRICO FUFU-DE-VEADO

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Por: Wilson Pires de Andrade 

 

Travessa Aquidaban, nº 25. Conhecida por todos em Várzea Grande por um apelido simplório: Beco do Porrete. Armazém do Bugrelo. É ali que residia um dos personagens mais folclóricos da cidade Industrial: João Cassiano Botelho, livramentense de nascimento, 03 de outubro de 1935, o popular Bugrelo ou ainda Fufu-de-veado, se tivesse vivo faria hoje, 80 anos.

Dizem que ele dava a vida ao Beco do Porrete. Outros acham que ele era o próprio Beco, o mais tradicional ponto de encontro dos analistas de política, políticos, gozadores de plantão e desocupados nos anos 80/90.

Seu nome: João Cassiano Botelho. Sobrenome: Bugrelo. Apelido: Fufu-de-veado. Era uma figura que só abotoava a camisa no dia das eleições e quando ia fazer suas cobranças, mesmo assim, só dois botões e comandava a vida e a alegria do Beco do Porrete.

Camisa desabotoada, sorriso aberto, jeito simples e bonachão, Bugrelo atendia a todos com a mesma cordialidade, pois no seu dialeto, tristeza não pagava dívida de ninguém.

Embora tenha nascido em Nossa Senhora do Livramento, no povoado de Teixeirinha, zona rural, Bugrelo veio para Várzea Grande ainda menino. Aos 7 anos, foi matriculado no Grupo Escolar Pedro Gardez, que ainda hoje atende parte da comunidade estudantil do município. Bugrelo gostava de dizer que em sua época a professora sabia se postar diante do aluno; às vezes, fazia voltar para casa quem estava sem pentear o cabelo. A professora prezava mais pela disciplina que por educação, contava Bugrelo, entre uma e outra gargalhada.

Com nostalgia peculiar, Bugrelo recordava que a sua primeira professora foi à mãe do juiz Benedito Pereira do Nascimento, o Pereirão.

Oriundo de família humilde, Bugrelo teve que trabalhar cedo, logo ao término do primário. Seu primeiro emprego foi na residência do ex-prefeito Gonçalo Botelho de Campos, tio do ex-prefeito Nereu Botelho. Algum tempo depois, foi trabalhar numa fábrica de ladrilho. 

 

BOLICHEIRO

Descobrindo a sua vocação comercial, em 1958 ele decidiu montar o seu primeiro estabelecimento, na Rua Benedito Monteiro (antiga casa de Dona Matilde) ao lado da sede do Clube Operário. Com poucas economias, Bugrelo comprou o empório de secos e molhados (bolichinho) do empresário Antônio Nassardem.

Após tomar um “fôlego” financeiro, em 1º de janeiro de 1961, Bugrelo decidiu montar o seu negócio na Travessa Aquidaban (Beco do Porrete). A mudança, recordava, foi feita por Tico Passarinho.           Naquela época, o ponto de encontro das famílias tradicionais era no cruzamento da Avenida Couto Magalhães com o Beco do Porrete. Bugrelo relembra que todas as tardes havia uma espécie de reunião dos moradores, quando todos se sentavam de cócoras (para Bugrelo era “coque”), nos idos de 1961, para observar o movimento. Alguns conhecidíssimos da população, como Zelito Costa Campos, Benedito Gomes (pai do ex-prefeito Carlos Gomes) e a “Caetanada”, oriundos da família Caetano (Arquimedes, Augusto Roberto, Araldo Figurinha entre outros).

E o encontro era levado a sério por todos. Ninguém podia sair primeiro, porque a previsão é que todos fossem embora juntos. “O primeiro que saía caía na tesoura”, contava Bugrelo, se referindo às críticas, cornetações e fofocas dirigidas aos ausentes. 

Hoje, dos antigos moradores do Beco do Porrete, sobraram às famílias do finado Bugrelo (Dona Nildez, Paulo e Ivan) e Jorge Mussa (pai do Jamil Mussa Sobrinho – o Jorginho Confusão, Cuié, Neto Chupa-páia e Nenê). “Só saio daqui morto”, garantia Bugrelo.

Aas famílias que deixaram de morar no Beco do Porrete, enumeradas por ele são: Zelito Costa Marques, Lamartine Pompeo, Basílio, Salvador Conceição, Caetano “Caetanada” Costa e Sinhôco Botelho.

 

BECO DO PORRETE

O Beco do Porrete historicamente era o caldeirão político da Cidade Industrial. Todavia, foram lançados vários candidatos à Câmara dos Vereadores do Município, como Jorginho Mussa e Estabelito, mas conseguiu eleger apenas Mané Santana. Mas foi por muito tempo o ponto de partida das campanhas eleitorais em Várzea Grande.

 

MUITOS APELIDOS

Mestre em colocar apelidos, Bugrelo cativava a todos por causa do seu jeitão maroto e linguajar arrastado, ao melhor estilo do dialeto varzeagrandense e da Baixada cuiabana. Sempre sem camisa ou no máximo com a camisa desabotoada, ele mantinha a velha tradição: era hospitaleiro e dizia que só dormia em rede. “Pra que cama?”, perguntava.

Entre os apelidos notórios “que pegaram pra valer”, Bugrelo recordava: Cinco Cuecas, Não Convém, Marcos Toporeia, Cheira Tempo, Rabada, Granito, Nariz de Tucano, Jornal das Sete, Voz do Brasil, Lagoa, Cuiê, Neto Chupa Paia, Subaco, Martelão, Tuiuiú, Quibaça, Cadeira de Cachorra, Mané Vivo, Vitório, Porcão, Mané Morto, Nhaca, Birú, Família Ave (Galo, Pinto, Frango e o Ração), Kalil Bondade, Chapinha, Zezão CBT, Pé-de-Anjo, Lula Chupeta, Sapo do Avesso (Satú), entre outras dezenas.

POLÍTICA E POLÍTICOS

Apesar de folclórico, Bugrelo era respeitado pelos líderes políticos e até empresariais de Várzea Grande. Muitos foram freqüentadores assíduos do Beco do Porrete.

Ele se orgulhava de todos que falavam do Beco e dele mesmo, mas sempre de forma jocosa. Não havia maldade. O empório, onde se reunia de governadores, líderes comunitários e fofoqueiros de plantão, o tema das conversas era sempre política ou a vida dos outros. Era um lugar propício para jogar conversa fora. No Armazém do Bugrelo, com pouco mais de vinte metros quadrados, vendia desde rojão até adubo, passando por remédios, bebidas com raiz até arame farpado.

FAMÍLIA UNIDA

Casado com dona Nildez Magalhães Botelho, de família tradicional varzeagrandense, desde 1959, Bugrelo teve três filhos: Paulo Luiz Botelho, Ivan Mário Botelho (Bugrelo dizia, se Ivan emagrecesse 40 kilos seria o melhor meia-esquerda do futebol mundial (sic) e Lenize Magalhães Botelho.

O progresso de Várzea Grande não fez com que Bugrelo mudasse os seus hábitos. Era considerado o presidente de honra do Beco do Porrete.

Os amigos de Bugrelo ou Fufu-de-veado concretizaram os seus últimos desejos, que era fazer um velório alegre, não queria tristeza, enquanto houvesse uma garrafa de caninha ou Tubaína era para seguir o velório. Outro pedido dele era para que o enterro não fosse em carro de funerária, queria que os amigos carregassem o caixão, cada um em uma alça, passo-a-passo até o cemitério central, contando histórias, causos, piadas e prosas.

E assim foi feito, João Cassiano Botelho, Bugrelo ou Fufu-de-veado, morreu no dia 18 de dezembro de 1999, aos 64 anos.

Portanto, há 18 anos o Beco do Porrete nunca mais foi o mesmo, após a partida de Bugrelo para o andar de cima.

 

Wilson Pires de Andrade é jornalista em Mato Grosso.

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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