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Andanças e caminhos

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Foto: Arquivo Pessoal/Jandira Maria Pedrollo

Com as eleições municipais ouvimos candidatos a prefeito falarem sobre mobilidade urbana, porém quando tratam do assunto, citam vias, trincheiras, viadutos e transporte coletivo de massa. Ignoram o transporte individual de pessoas (e de maior intensidade): os pés. Consequentemente, ignoram as pistas caminháveis, assunto já abordado por mim em outro artigo anos atrás.
Podemos usar o transporte que for, sempre finalizaremos o caminho como pedestres. Entre a casa e o terminal, entre o estacionamento e o trabalho, sempre os pés ou cadeiras de rodas é que terminam a trajetória.

Para tanto os trajetos devem estar em perfeitas condições de conforto e segurança. Quando as vias estão esburacadas chegam reclamações aos órgãos responsáveis e/ou meios de comunicação, porém o mesmo não ocorre com calçadas intransitáveis. Tem-se a impressão que veículos automotores são mais importantes que pessoas, eles estragam, estouram pneus e isso é caro.

Desconsideram que pessoas podem se machucar ou perder a vida pelas condições das calçadas. A maioria das cidades cobram do proprietário do imóvel a construção e manutenção das calçadas, apesar de serem públicas e integrantes do sistema viário. Não há padronização, não há controle de qualidade. Há calçadas corroídas pelo tempo que o “mato” tomou conta, com desníveis, com obstáculos diversos como entulhos, móveis, eletrodomésticos, veículos estacionados ou à venda, mesas/cadeiras de bares e restaurantes. A
arborização é ausente. Diz-se que atrapalham a acessibilidade, mas na realidade elas são extirpadas para dar visibilidade às fachadas comerciais.

A situação nos leva a crer que os governantes não se deslocam com os próprios pés e assim não sentem a realidade da maioria da população, obrigada a transitar por pistas intransitáveis. Circulam de seus residenciais aos locais de trabalho ou de lazer em veículos automotores, desconhecem a cidade a pé. Para exercitar usam as academias e pistas privadas. Enquanto para grande parcela da população, uma simples caminhada demanda o deslocamento até os poucos parques disponíveis. Atividade que poderia ser corriqueira nos trajetos diários da população, bastariam pistas acessíveis.

Sugiro aos gestores que pensem na mobilidade pedonal viabilizando o transporte das pessoas pelos próprios pés. Para tanto, o município deve se responsabilizar pelas calçadas, ao menos dos corredores de transporte coletivo. Essas devem oferecer acessibilidade universal e conforto, dispor de equipamentos urbanos e sobretudo arborização. E ainda, a constante fiscalização para que nada impeça ou dificulte o trânsito de pessoas, principais atores das cidades.

Jandira Maria Pedrollo, arquiteta e urbanista, foi Diretora. de Pesquisa e Informação do Instituto de Pesquisas e Desenvolvimento Urbano de Cuiabá, Assessora técnica do CAU/MT e Diretora de Planejamento da Região Metropolitana do Vale do Rio Cuiabá. jandirarq@gmail.com.

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Saúde mental é inegociável

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O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.

Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.

Os números que não podem mais ser ignorados

Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.

No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.

O papel da segurança psicológica

Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.

Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.

A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.

O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.

O que aprendemos na prática

Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.

Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.

Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.

Em dez anos, a pauta amadureceu.

Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.

A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.

* Tatiana Pimenta CEO da Vittude



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