Mato Grosso
Anjos existem: aos 71 anos, aposentada com artrose cuida de animais de rua em Cuiabá
Mato Grosso
Aposentada pelo INSS, a idosa Hortência Júlia de Aguiar cumpre extenuante jornada diária para alimentar dezenas de cães e quase duas centenas de gatos abandonados nas ruas de Cuiabá. Seu principal temor é de que falte ração para tantos animais. “Vou trabalhando até aguentar; não posso é deixá-los com fome…”
Da Redação
Aos 71 anos de idade e morando sozinha, com problemas diversos de saúde, incluindo artrose, o que dificulta parte de sua mobilidade, a aposentada Hortência Júlia de Aguiar, residente em Cuiabá, próximo à Arena Pantanal, diz ficar desesperada quando não consegue manter regularmente o estoque alimentar das dezenas de caninos e felinos sob sua proteção. Ao todo, ela assiste mais de 200 animais, alguns abrigados em sua residência e a maioria em casas e lotes abandonados, nas proximidades da Arena Pantanal. São pontos de “parada” de sua rotina alimentar diária aos desvalidos, quando empurra um carrinho de supermercado repleto de ração, água e leite. Por vezes, Hortência volta pra casa com gatinhos e filhotes de cães abandonados ao longo desse percurso missionário.
“As pessoas talvez imaginem que não existe um Deus para puni-las por tanta covardia. Abandonar esses bichinhos equivale a abandonar bebês, criancinhas. Será que não têm remorsos por fazer isso? É uma covardia extrema! A lei do retorno existe, caso elas não saibam. Mais dia, menos dia, certamente vão pagar por isso”, alerta Hortência.
O maior problema que a protetora enfrenta é não ter ração suficiente para alimentar seus protegidos, pois os preços estão cada vez maiores, dificultando a aquisição do produto. “Tenho me desdobrado para conseguir alimentá-los diariamente. Mas, confesso, houve dias em que fiquei apreensiva, sem nenhum dinheiro e com o estoque de ração quase no fim. Ouvir miados de fome e ganidos pedindo comida, sem que você tenha o suficiente, é muito doloroso…”

Quando isso acontece, Hortência diz não ter vergonha de pedir ajuda a alguns amigos mais chegados, a exemplo da cunhada Abadia, o delegado Cavado, também aposentado, e os vizinhos Júnior, Graça e Vanessa Pinho. Essa última possui uma ONG de proteção aos animais. “São pessoas maravilhosas, de coração iluminado. Mas eu não gosto de abusar, de ficar sempre pedindo ração: é preciso respeitar limites”.
Mesmo aposentada, a protetora ainda presta serviços à frente da coordenação de limpeza da Polícia Judiciária Civil. Sua intimidade com os colegas policiais é tanto que muitos a visitam sempre para levar um outro pacote de ração. “Já chegaram aqui quando não tinha mais nada. Foi Deus que mandou, com certeza”. Essa necessidade de auxílio é porque seus proventos de aposentada do INSS mal cobrem as despesas semanais. “Se fosse depender disso para viver, já teria morrido há tempos. E os animais também, de fome”.

Hortência tem um horário definido para sair de casa e iniciar sua maratona caridosa pelos animais nos quarteirões próximos à Arena Pantanal, cerca de 17h30. A escolha desse horário é para evitar o sol, pois ela não dispõe de carro. “É quando consigo andar sem ficar muito cansada”, explica. Ela recorda, saudosa, dos tempos em que tinha um velho Monza (Chevrolet), veículo que utilizava nesse vai e vem rotineiro. “Fui obrigada a vendê-lo para não deixar meus filhinhos adotivos passarem fome”.
APOIO DA CLÍNICA VETERINÁRIA SÃO BERNARDO
Além de todo esse sacrifício para alimentar animais de rua, Hortência também providencia socorro veterinário quando algum deles necessita. O “anjo da guarda”, nesses casos, é doutora Cristina Helena, da Clínica São Bernardo, localizada na Avenida Mato Grosso, centro de Cuiabá (3623.1830) “Ela [doutora Cristina] é uma mulher do bem. Tem me auxiliado muito com cirurgias e atendimento, em geral. Cobra apenas aquilo que consigo pagar, e, não raramente, aguarda por meses até que consiga quitar as consultas, internações e cirurgias. Tenho muito respeito e admiração por doutora Helena; pessoa humana e veterinária excepcional. Sempre operou meus animais com muito cuidado e amor. Deus haverá de recompensá-la algum dia, tenho certeza”.

Hortência já se tornou assim figura conhecidíssima na região da Arena Pantanal. Também sempre ajuda os moradores de rua, parceiros de proteção aos animais. “Eles não fazem mal aos animais, pelo contrário: protegem. Então, costumo alimentá-los comprando marmitas, fornecendo roupas, essas coisas. São seres humanos que também precisam de ajuda”, diz com semblante sério. E afirma: “Jamais podemos discriminar ninguém! Por vezes, esse maltrapilho que bate pedindo comida à sua porta é um anjo de Deus. O próprio Cristo se disfarça assim para testar o coração das pessoas”.
Em função dessa maratona solidária à causa animal, executada durante dezenas de anos, Hortência ganhou a simpatia geral da comunidade do Grande Verdão. Por onde passa, recebe cumprimentos e muitos elogios. Educada, geralmente a idosa para e conversa com quem a aborda, distribuindo sorrisos meigos, cansados, no decorrer do diálogo. Os vizinhos reconhecem que não é fácil para uma pessoa idosa cumprir uma atividade tão penosa todos os dias. “Só peço a Deus para não morrer antes de todos os meus protegidos ganharem um lar decente”, comenta a protetora.

AO FINAL dessa missão diária, que dura em média duas horas, finalmente Hortência sobe a rua empurrando o carrinho de volta pra casa, expressão feliz por saber que todos os protegidos estão bem. Alguns gatos ainda a acompanham por dezenas de metros, reconhecendo nela o único amparo de vida que têm…
Finalmente, Hortência abre o portão estreito de sua modesta residência e explica que deixou ração extra/leite nos abrigos que improvisou nos lotes abandonados. “Pelo menos, até amanhã, eles (animais) terão o que comer e beber. Só torço para não furtarem a ração que deixei ali, como tem acontecido ultimamente. Estão tirando o pão da boca de anjos inocentes”.
*Quem quiser auxiliar Hortência com ração e leite, eis o número dela de contato (WhatsApp): (65) 9-9248.3942
Mato Grosso
PM acusado de matar esposa em Cuiabá vai a júri popular
A Justiça de Mato Grosso decidiu levar a julgamento pelo Tribunal do Júri o policial militar Ricker Maximiano de Moraes, acusado de matar a esposa, G.D.S., em maio de 2025, em Cuiabá. Na sentença de pronúncia, o Juízo da 1ª Vara Especializada de Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher considerou haver provas da materialidade do crime e indícios suficientes de autoria para que o réu seja submetido ao julgamento pelos jurados. A denúncia foi oferecida pelo Ministério Público do Estado de Mato Grosso (MPMT), por meio da 15ª Promotoria de Justiça Criminal de Cuiabá – Violência Doméstica e Familiar Contra a Mulher, sob responsabilidade da promotora de Justiça Claire Vogel Dutra. O MPMT imputou ao acusado a prática do crime de feminicídio em contexto de violência doméstica e familiar, com causas de aumento de pena e circunstância qualificadora que dificultou a defesa da vítima. De acordo com a denúncia, no dia 25 de maio de 2025, por volta das 16h40, o acusado efetuou disparos de arma de fogo contra a esposa dentro da residência do casal, localizada no Bairro Praeiro, em Cuiabá. A vítima morreu em decorrência dos ferimentos causados pelos tiros. Conforme a acusação, o crime foi cometido na presença dos filhos do casal, então com três e cinco anos de idade.Na decisão, destacou-se que a materialidade do crime está comprovada por laudos periciais, entre eles o exame de necropsia, que apontou que a vítima morreu em decorrência de choque hemorrágico provocado por disparos de arma de fogo que atingiram órgãos vitais. O laudo de confronto balístico também confirmou que os projéteis encontrados foram disparados pela pistola funcional acautelada ao acusado. Durante a instrução processual, testemunhas relataram que o acusado deixou o local após os disparos levando os filhos para a casa dos avós paternos. Em juízo, o próprio réu admitiu ter efetuado os disparos contra a esposa, alegando que passava por forte perturbação emocional e problemas psiquiátricos. A defesa buscou a absolvição sumária sob o argumento de inimputabilidade por doença mental. No entanto, um laudo psiquiátrico concluiu que o acusado apresentava Transtorno Psicótico Não Especificado (CID-10 F29) e possuía capacidade de entendimento parcialmente preservada, sendo enquadrado na condição de semi-imputável. Diante disso, a Justiça afastou o pedido de absolvição sumária, entendendo que a questão deverá ser apreciada pelo Tribunal do Júri.Ao pronunciar o réu, a Justiça manteve todas as circunstâncias descritas na denúncia do Ministério Público, incluindo o feminicídio em contexto de violência doméstica e familiar, a condição de a vítima ser mãe de crianças, a suposta prática do crime na presença dos descendentes e o emprego de recurso que teria dificultado ou impossibilitado a defesa da vítima. Também foi mantida a prisão preventiva do acusado, que está preso desde a conversão do flagrante em prisão preventiva, ocorrida logo após o crime. Com a pronúncia, o processo seguirá para a fase de preparação do julgamento pelo Tribunal do Júri da Comarca de Cuiabá.
Fonte: Ministério Público MT – MT
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