Agricultura

Agro brasileiro mira novos mercados e investimentos na produção de energia

Publicado em

Agricultura


A expansão dos biocombustíveis está transformando o mercado de produtos agrícolas no Brasil. Além de abastecer a indústria de alimentos e as exportações, milho, cana-de-açúcar, soja e resíduos da pecuária ganham espaço na produção de energia. Esse movimento amplia as possibilidades de comercialização para o produtor rural, mas também exige investimentos, infraestrutura e regras capazes de sustentar o crescimento da atividade.

O futuro desse mercado está no centro das discussões do Fórum Planeta Campo 2026, iniciado nesta sexta-feira (06.11), em São Paulo. Representantes da agropecuária, da indústria e do Congresso Nacional discutem como o Brasil poderá aproveitar sua experiência na produção de etanol e biodiesel para ampliar a participação em segmentos como biometano e combustível sustentável de aviação.

A dimensão econômica dessa transformação já aparece nas estatísticas. Segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a produção brasileira de etanol deverá alcançar 41,88 bilhões de litros na safra 2026/27, crescimento estimado de 11,7% em relação ao ciclo anterior. O avanço é impulsionado pela demanda por combustíveis renováveis e pela ampliação da capacidade industrial.

O milho ocupa uma posição cada vez mais importante nesse cenário. A produção de etanol a partir do cereal foi estimada pela Conab em 10,17 bilhões de litros na safra 2025/26, aumento de 29,8% sobre o ciclo anterior. Para regiões produtoras do Centro-Oeste, a expansão das usinas representa uma alternativa de comercialização, especialmente em períodos de grande oferta e pressão sobre os preços dos grãos.

A indústria também cria oportunidades para a pecuária. O processamento do milho gera coprodutos utilizados na alimentação animal, enquanto resíduos de atividades agropecuárias podem servir de matéria-prima para biogás e biometano. O aproveitamento desses materiais permite integrar diferentes atividades e agregar valor à produção, embora os resultados dependam dos custos e da escala dos empreendimentos.

Durante a abertura do fórum, o presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), Tirso Meirelles, defendeu um planejamento estratégico de 20 a 30 anos para orientar os investimentos em tecnologia e pesquisa. O dirigente lembrou que a experiência brasileira com o etanol demonstra a importância de políticas de longo prazo para o desenvolvimento industrial.

A necessidade de ampliar a presença brasileira no mercado internacional também foi abordada pelo presidente global da JBS, Gilberto Tomazoni. Ele destacou que a busca de diferentes países por segurança alimentar e energética cria oportunidades para parcerias comerciais e industriais. Nesse ambiente, a rastreabilidade e a comprovação de práticas sustentáveis passam a ter importância crescente para a competitividade das exportações.

No Congresso, o debate envolve a construção de condições para novos investimentos. O presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), deputado Pedro Lupion, defendeu incentivos à produção de combustíveis renováveis e avanços na legislação. A previsibilidade das regras é considerada um dos fatores necessários para viabilizar projetos industriais de grande porte, que exigem financiamento e têm retorno de longo prazo.

A ampliação do mercado, entretanto, não significa valorização automática dos produtos agrícolas. A rentabilidade dependerá da localização das usinas, dos custos de transporte, da concorrência entre compradores e dos preços pagos pelas matérias-primas. Em regiões distantes das unidades industriais, as despesas logísticas continuarão sendo decisivas para o resultado do produtor.

O crescimento da bioenergia também coloca em discussão a capacidade de conciliar a produção de alimentos, a demanda industrial e as exigências ambientais dos mercados consumidores. O desafio será ampliar o aproveitamento da produção existente, incorporar novas tecnologias e assegurar que os ganhos econômicos alcancem diferentes perfis de produtores.

Mais do que aumentar a fabricação de combustíveis, o Brasil terá de desenvolver cadeias produtivas capazes de transformar matérias-primas agrícolas em produtos de maior valor. Para o campo, a principal oportunidade está na diversificação dos compradores e na possibilidade de participar de um mercado energético que tende a ganhar importância nas próximas décadas.

Fonte: Pensar Agro



COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Agricultura

Tecnologia brasileira cria passaporte digital para o agro

Publicados

em


O Brasil desenvolveu uma ferramenta para enfrentar uma das principais barreiras comerciais que se impõem ao agronegócio: a necessidade de comprovar onde e em quais condições os produtos foram produzidos. Criada pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), a tecnologia permite rastrear soja, café e carne bovina desde a propriedade rural até o destino comercial, reunindo informações ambientais, sanitárias e de origem em um registro digital que poderá facilitar o acesso aos mercados internacionais.

Batizada de Embrapa Trace, a ferramenta chega em um momento decisivo para os exportadores brasileiros. A União Europeia prepara a aplicação de novas exigências de rastreabilidade e comprovação de ausência de desmatamento, que afetam diretamente cadeias importantes para a economia rural. A partir de 30 de dezembro de 2026, conforme o cronograma atualmente previsto, grandes e médios operadores sujeitos à regulamentação europeia deverão cumprir essas exigências. Para micro e pequenos operadores enquadrados nas regras específicas, o prazo será 30 de junho de 2027.

O regulamento europeu considera como referência o dia 31 de dezembro de 2020. Para atender às exigências, não basta declarar que a produção respeita a legislação ambiental brasileira. Será necessário apresentar informações verificáveis sobre a localização das áreas produtivas, a origem das mercadorias e o cumprimento dos critérios estabelecidos pelos compradores.

É justamente nessa etapa que a nova tecnologia pretende atuar. A Embrapa Trace reúne dados da propriedade, registros de produção, documentos, certificações e informações sobre transporte, armazenamento e processamento. O sistema permite acompanhar cada etapa da cadeia e consolidar as evidências em relatórios digitais de conformidade, que poderão ser consultados por meio de códigos QR.

Na prática, uma carga de soja destinada à exportação poderá ter suas informações de origem relacionadas aos registros de armazenamento, transporte e processamento. O mesmo princípio se aplica ao café e à carne bovina, respeitando as particularidades de cada atividade. O objetivo é reduzir a necessidade de apresentar repetidamente os mesmos documentos a diferentes compradores e organismos de verificação.

A ferramenta utiliza duas outras tecnologias desenvolvidas pela pesquisa pública. O TerraClass, projeto da Embrapa em parceria com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), fornece informações sobre o uso e a cobertura da terra na Amazônia e no Cerrado. Já o ElegiAgro cruza dados cadastrais, fundiários e geográficos para apoiar a análise da conformidade ambiental das propriedades.

A integração permite confrontar informações declaradas com bases técnicas e registros oficiais. Isso não significa, entretanto, que o sistema substitua automaticamente auditorias, certificações ou todas as exigências legais dos países compradores. Sua função é organizar, validar e conectar evidências que possam ser utilizadas nos processos de comprovação.

Para o produtor rural, um dos principais benefícios esperados é a redução da burocracia. Cooperativas, frigoríficos, indústrias e empresas exportadoras poderão utilizar os registros digitais para demonstrar a origem das mercadorias, evitando parte da duplicação de documentos e procedimentos. A economia efetiva dependerá da adoção da tecnologia e das exigências de cada mercado.

O acesso ocorre por meio da AgroAPI, plataforma da Embrapa destinada à integração de informações com sistemas digitais utilizados por empresas e instituições. Na modalidade de testes da ferramenta para soja, há uma oferta gratuita de até 10 mil requisições, válida até 30 de dezembro de 2026. Isso não significa que todos os serviços de certificação ou rastreabilidade da cadeia sejam gratuitos.

A Embrapa Trace também será integrada à plataforma AgroBrasil Mais Sustentável, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). A proposta é combinar a avaliação socioambiental das propriedades com o acompanhamento dos produtos ao longo da cadeia comercial, fortalecendo a capacidade brasileira de apresentar informações próprias nas negociações internacionais.

A importância econômica da iniciativa vai além da União Europeia. A rastreabilidade tornou-se uma exigência crescente de compradores interessados em verificar a origem dos alimentos, as condições de produção e o cumprimento de padrões ambientais. A disponibilidade de informações confiáveis pode reduzir riscos comerciais e ajudar empresas brasileiras a preservar mercados diante de exigências cada vez mais rigorosas.

A tecnologia também poderá alcançar outras atividades. A Embrapa prevê a incorporação de cadeias como cacau, madeira, borracha, frango, suínos e pescados, ampliando a possibilidade de utilização dos mesmos princípios de rastreabilidade em diferentes segmentos do agronegócio.

O desenvolvimento de uma infraestrutura nacional de informações representa uma alternativa para reduzir a fragmentação dos sistemas utilizados atualmente. Mas seu resultado dependerá da participação de produtores, cooperativas, indústrias, certificadoras e exportadores, além da qualidade dos dados fornecidos.

Para o agronegócio brasileiro, o avanço representa uma mudança importante: produzir com eficiência e cumprir a legislação continuam sendo condições essenciais, mas já não são suficientes para disputar determinados mercados. Será cada vez mais necessário comprovar essas condições com informações verificáveis, capazes de acompanhar o produto da fazenda até o comprador.

A ferramenta pode ser consultada na plataforma AgroAPI — Embrapa Trace.
O acesso operacional depende do perfil e da autorização de cada participante da cadeia.

Fonte: Pensar Agro



COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTE

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA