Opinião
CORRUPÇÃO E CULTURA BRASILEIRA
Opinião
Por: Auremácio Carvalho
A corrupção, em todas as suas formas e níveis é, sem dúvida o grande problema nacional, haja vista, o festival que vimos assistindo diariamente de delações que parecerem filmes de terror .A impressão que se tem, é que ética, moral ou outras antigas virtudes, não tem hoje nenhuma relevância para o brasileiro .
A corrupção está, afirmam muitos, no DNA do brasileiro, começando com pequenos gestos: “lavar a mão do guarda para evitar multa”; “recorrer a um funcionário para apressar a liberação de um empréstimo ou de um processo”; “consulta com ou sem recibo” etc. Quem já não escutou alguém dizer que no Brasil a corrupção é algo natural? Muito se fala que ela faz parte de quem somos.
No entanto, a corrupção é fenômeno inerente a qualquer forma de governo, seja democrático ou despótico. No último ranking da corrupção, organizado pela Transparência Internacional e divulgado ano passado, o Brasil aparece na 69ª posição entre 175 países. A Dinamarca aparece como o “menos corrupto”. Porquê? O país é citado como uma nação que tem um forte Estado de Direito, apoio à sociedade civil e regras claras de conduta para as pessoas que ocupam cargos públicos.
Para muitos, a corrupção é um fator moral e cultural. Como descreveu o antropólogo Sérgio Buarque Holanda no livro Raízes do Brasil (1936), o brasileiro (segundo ele, um indivíduo cordial, que pensa com a emoção) teria desenvolvido uma histórica propensão à informalidade, o que se refletiria nas suas relações com outros indivíduos, instituições, leis e a política.
Parece que o “jeitinho brasileiro”- instrumento para quebra de regras, não apenas faz parte de nossa cultura, mas é aceito sem maiores contestações. Daí, que, embora a corrupção envolva aspectos impessoais e monetários em geral, prevalece até o famoso “rouba, mas faz”. Será o jeitinho a ante-sala da corrupção? Uma “zona cinzenta” entre o certo e o errado? O exercício da cidadania brasileira é vista como uma dádiva do Estado e não como uma conquista pessoal: o Estado distribui benesses diversas- cargos, bolsas para tudo, funções, clientelismo, e até abre as portas para grandes empresas atuarem no exterior, financiadas pelo dinheiro público (Cuba, Angola, Venezuela etc). Como protestar se eu estou sendo beneficiado? Ou, se não estou, eu também quero? Essa visão patrimonialista do Estado, que vem de longe- desde Pero Vaz de Caminha, pedindo ao Rei emprego para o genro- dificulta o combate e a própria visão da corrupção.
O controle social, o combate ao patrimonialismo, fazem parte de uma longa educação cívica e política, de uma mudança cultural. A cultura, entendida como ações, identidade, práticas pertinentes a uma dada sociedade, construída historicamente, difere de país para país ou, mesmo, dentro de um mesmo país, de região para região. Do mesmo modo, a visão da corrupção, que do ponto de vista estritamente legal, é a prática de atos ilegais, trocas irregulares, geralmente monetárias e ocultas. A fronteira entre o jeitinho e a corrupção se dá com a criminalização desta última.
Nem sempre, “a ocasião faz o ladrão”; às vezes, ”ele já nasce feito”, dizem alguns. Para Max Weber, a cultura é determinante na formatação das instituições- políticas, religiosas, sociais- (A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo). A dificuldade de combate à corrupção se deve, em grande parte, ao fato- histórico e sociológico- de que o brasileiro depende de um Estado paternalista, amplo, regulador, esbanjador dos recursos públicos, mas grandemente ineficiente- educação, saúde, infra-estrutura etc.
Não é o caso de se querer um Estado mínimo, mas um Estado de melhor qualidade de suas políticas públicas e efetiva governabilidade. Nesse sentido, combater a corrupção é defender o Estado brasileiro. A corrupção é um fenômeno complexo, influenciada por diversas variáveis- história, política, religião, instabilidade, grau de desenvolvimento, mercado, leis, escolaridade, dentre outras. A cultura é apenas uma fonte de influência da sua ocorrência.
A série de notícias relacionadas á corrupção no Brasil- mensalão, Petrobrás, operações policiais sem conta, lavagens de dinheiro, superfaturamento de obras públicas, nos levam a ter esperança de que o Estado e também a sociedade brasileiros, possam agir com maior eficácia no seu combate, erradicando essa nova “saúva” brasileira. Não se pode afirmar, em termos definitivos, que a cultura brasileira induz diretamente a prática da corrupção, mas, a formatação política/cultural do Estado brasileiro como hoje se apresenta, sem dúvida, é um fator preponderante para sua ocorrência e impunidade.
Corruptos quando pegos e processados se tornam “vítimas e heróis”. Afinal, “delataram”, com que propósito não sabemos. Isso precisa acabar para o bem do Brasil. A Lei de Acesso à Informação Pública (Lei 12.527/2011), determina que qualquer cidadão tem o direito de examinar documentos produzidos ou custodiados pelo Estado, desde que não estejam protegidos por sigilo ou se referirem a informações de caráter pessoal, também serve para acompanhar os gastos dos governos. Mas, além da lei, ainda temos que desenvolver o hábito de investigar e acompanhar as atividades dos ocupantes de cargos públicos e demais autoridades.
No entanto, no Brasil ainda denunciamos mais do que punimos os envolvidos em escândalos de corrupção. Mas, nos acomodarmos e fingir que não temos nada a ver com isso tudo, não é o caminho mais correto. “O que mata um jardim não é o abandono. O que mata um jardim é esse olhar vazio de quem por ele passa indiferente“. Mário Quintana. (poeta). (Auremácio Carvalho é advogado).
Opinião
ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO
Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.
Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.
Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.
O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.
Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.
O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.
Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.
Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.
* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário
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