Mato Grosso
Ex-governador revela ‘mensalinho’ na Assembleia durante governo Blairo
Mato Grosso
Em delação premiada, Silval Barbosa (PMDB) relatou detalhes do relacionamento do Palácio Paiaguás com os deputados estaduais
Da Redação
Um dos anexos que o ex-governador de Mato Grosso Silval Barbosa (PMDB) entregou dentro do acordo de delação premiada que assinou com a Procuradoria-Geral da República revela como funcionou um ‘mensalinho’ na Assembleia Legislativa do Estado durante o governo Blairo Maggi, atual ministro da Agricultura.
Silval afirma que o ‘mensalinho’ foi inaugurado em 2003, quando trabalhava na Mesa Diretora da Assembleia. “Esse ‘mensalinho’ era uma vantagem indevida que era paga para cada deputado estadual do Estado de Mato Grosso, tendo começado no ano de 2003 em torno de R$ 30 mil por deputado”
Para efetuar esse pagamento, segundo o delator, houve um acordo entre a Mesa Diretora da Assembleia e o governador do Estado para que o governo ‘aumentasse os repasses para a Assembleia’. Silval disse acreditar que em 2003 houve um acréscimo de R$ 12 a 15 milhões no orçamento do Legislativo ‘para que pudessem retirar desse valor as vantagens indevidas’.
“Tais tratativas foram realizadas pelo secretário de Infraestrutura Luiz Antonio Pagot, pelo secretário de Fazenda Valdir (que no dia de hoje é conselheiro do Tribunal de Contas do Estado) e o governador da época Blairo Maggi, hoje Ministro da Agricultura”, relata Silval.
“Todas essas pessoas citadas sabiam que o aumento do repasse para a Assembleia seria para os deputados receberem suas vantagens indevidas, as quais ocorriam através de serviços não prestados”, segue o delator.
Segundo o ex-governador, em contrapartida a Assembleia apoiaria o governo nos projetos de seus interesses.
A rotina do ‘mensalinho’ seguiu até 2010, afirma Silval. Ele esclareceu que entre 2008 e 2010 ‘a pessoa do governo responsável pelas negociações com os deputados passou a ser Eder Moraes (então secretário da Fazenda), sempre com a ciência do governador Blairo Maggi’.
A partir de 2010, Silval, segundo ele próprio, passou a conduzir ‘essas conversas’ com a Mesa Diretora. Ele assumiu o governo do Estado, sucedendo Blairo, de quem foi vice. Seu contato no Legislativo era ‘sempre na pessoa de José Riva (ex-presidente da Assembleia)’.
“O então deputado Sergio Ricardo, de 2007 até 2012, hoje conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso, também participava dessas negociações sobre o mensalinho dos deputados, mas após 2012 ficaram responsáveis por essa negociação os deputados estaduais José Riva, Romoaldo Junior e Mauro Savi.”
Silval contou que em 2012 ou 2013 os deputados estaduais fizeram uma reunião entre eles, tendo participado a maioria dos parlamentares. O encontro, na Assembleia, foi ‘para discutir como eles iriam conseguir mais vantagens indevidas do governo’.
“Tal reunião foi gravada pelo deputado Adauto de Freitas, vulgo ‘Daltinho’, que passou a chantagear os deputados estaduais da época, usando tal gravação para manter-se no mandato, pois ele era suplente”, declarou Silval delator. “Ele (‘Daltinho’) entregou para o deputado Romoaldo tal gravação e usava isso para se manter no efetivo exercício.”
Silval diz que soube da gravação por meio dos deputados Romoaldo Junior, Riva e Mauro Savi.
“Que após tal reunião na Assembleia, os deputados estaduais José Riva, Mauro Savi, Romoaldo Junior, Gilmar Fabris, Baiano Filho, Wagner Ramos e Dilmar Dalbosco foram até o Palácio Paiaguás e passaram a exigir uma participação nas obras da Copa do Mundo, pois do contrário não aprovariam as contas e criariam dificuldades na aprovação de leis”, segue o ex-governador.
Na reunião na sede do Paiaguás, Silval ofereceu passar para a gestão de alguns deputados obras no montante de R$ 400 milhões do MT Integrado, para que os deputados conseguissem receber propina de cerca de 3% a 4% dos empresários.
“No entanto, eles (deputados) não aceitaram tratar diretamente com os empresários, ficando decidido com os deputados estaduais que o colaborador iria ficar responsável por nomear alguém para receber esse montante de 3% a 4% dos empresários e repassar para os deputados estaduais, ficando para Valdisio Viriato (secretário-adjunto) da Secretaria de Infraestrutura o encargo de receber tais montantes dos empresários e repassar ora para o colaborador, ora para Silvio (chefe de gabinete) para repassar para os deputados estaduais.”
Silval revelou, ainda, que ficou estipulado o valor de R$ 600 mil por deputado, ‘sendo que Silvio tem uma lista contendo os valores repassados a cada deputado, pois era a pessoa responsável em repassar tais valores aos deputados a pedido do colaborador’.
Silvio gravou encontros com cerca de 8 a 10 deputados estaduais recebendo propinas, afirma o delator.
O ex-governador destacou que os pagamentos ‘ocorriam concomitantemente com os valores pagos pelo mensalinho através de orçamento suplementar’.
Ele cita ainda que, quando era governador, ‘no final de todos os anos a maioria dos deputados exigia uma outra vantagem indevida em torno de R$ 70 a 100 mil para cada um, o que gerava um valor de R$ 1 milhão a R$ 1,5 milhão, sendo que tais valores eram pedidos pelo presidente e primeiro-secretário da Mesa’.
“O colaborador tem ciência que a Mesa Diretora, juntamente com Gilmar Fabris, coordenou com o governo atual (Pedro Taques, do PSDB) regulamentar através de lei o ‘mensalinho’. Em troca, o governo atual teria o apoio dos deputados. Tal fato foi narrado ao colaborador por alguns deputados.”
COM A PALAVRA, BLAIRO
NOTA À IMPRENSA
‘Deixo claro, desde já, que causa estranheza e indignação que acordos de colaboração unilaterais coloquem em dúvida a credibilidade e a imagem de figuras públicas que tenham exercido com retidão, cargos na administração pública. Mesmo assim, diante dos questionamentos, vimos a público prestar os seguintes esclarecimentos:
- Nunca houve ação, minha ou por mim autorizada, para agir de forma ilícita dentro das ações de Governo ou para obstruir a justiça. Jamais vou aceitar qualquer ação para que haja “mudanças de versões” em depoimentos de investigados. Tenho total interesse na apuração da verdade. Qualquer afirmação contrária a isso é mentirosa, leviana e criminosa.
- Também não houve pagamentos feitos ou autorizados por mim, ao então secretário Eder Moraes, para acobertar qualquer ato. Por não ter ocorrido isto, Silva Barbosa mentiu ao afirmar que fiz tais pagamentos em dinheiro ao Eder Moraes.
- Repudio ainda a afirmação de que comandei ou organizei esquemas criminosos em Mato Grosso. Jamais utilizei de meios ilícitos na minha vida pública ou nas minhas empresas.
- Sempre respeitei o papel constitucional das Instituições e como governador, pautei a relação harmônica entre os poderes sobre os pilares do respeito à coisa pública e à ética institucional.
- Por fim, entendo ser lamentável os ataques à minha reputação, mas recebo com tranquilidade a notícia da abertura de inquérito, pois será o momento oportuno para apresentação de defesa e, assim, restabelecer a verdade, pois definitivamente acredito na Justiça.’
Blairo Maggi
Fonte: O Estado de S. Paulo
Mato Grosso
Encontro de almas: diligência abriu as portas da paternidade para agente da Infância e Juventude

Das histórias de tantas crianças e adolescentes que ajudou a reescrever, enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido Donizete da Silva, atualmente lotado na Comarca de Várzea Grande, encontrou em uma de suas diligências, em 1990, a primeira página de sua própria jornada enquanto pai.
Uma bebê foi abandonada pela mãe na casa da parteira, uma senhora muito pobre e sem condições de cuidar da criança, em Barra do Bugres. Nomeado guardião legal da criança, Aparecido levou a bebê com apenas quatro dias de nascida para casa. Ele e a então esposa cuidaram da recém-nascida até que ela restabelecesse a saúde, ao longo de três meses. O cuidado foi tamanho que o servidor, que também trabalhava como professor no período noturno, deixou este emprego para se dedicar ao cuidado com a menina.
Aparecido revela que não tinha interesse em adotar, mas, após três meses de acolhimento daquela bebezinha, decidiu que queria ficar com ela para sempre e pediu para entrar na fila da adoção. O processo levou tempo, pois investigações foram feitas e a mãe biológica foi identificada. Ela teve que registrar a criança, mas acabou perdendo o pátrio poder e, então a menina pôde participar do processo de adoção. “Ela veio como um presente de Deus”, afirma Aparecido.
Já estava escrito
“Eu acho que tudo já estava escrito pra ser dessa forma. Ele já era meu pai, só foi me buscar”, afirma Érica Taiane Buzato da Silva, 36 anos, filha mais velha de Aparecido, que sente o mesmo. “Pra mim, já existia uma paternidade de verdade, o vínculo, o cuidado e o amor vieram antes da ‘chegada’. Quando ela diz isso, eu sinto que a nossa história confirmou o que a gente viveu todos os dias”, diz o servidor.
Érica conta que seus “pais do coração” sempre foram transparentes em relação à sua origem e que, mesmo passando anos questionando o porquê do abandono, o amor que recebeu da família a levou a superar todas as dores.
“Eu sempre soube que eu era adotada. Fui a primeira filha deles. Depois, eu tive mais dois irmãos e a gente cresceu muito feliz. O meu pai é uma pessoa maravilhosa na minha vida! Não sei nem como agradecer porque, se não fosse ele, eu não sei o que poderia ter acontecido comigo. Sou muito grata ao meu pai e à minha mãe porque cuidaram de mim com todo amor, sem nenhuma diferença de mim e os meus irmãos”, diz.
A gratidão relatada por Érica é sentida também por parte do pai dela. “Me sinto profundamente grato e em paz. Olhando pra trás, vejo que o acolhimento que demos à Érica foi mais do que cuidados: foi amor que sustentou a ela e a mim”, afirma. Em relação à paternidade, que começou com a chegada de Érica em sua vida, Aparecido conta que sempre viu como algo muito simples a educação dada a ela e aos demais filhos, Evili e Lucas. “Nunca vi a Érica diferente, mas sim como filha, igual aos outros”, conta.
Legado construído com exemplo
Aparecido destaca que sempre priorizou transmitir aos filhos valores como honestidade, caráter e determinação para batalhar pelos objetivos. “Eu sempre busquei passar esses valores no comportamento e nas escolhas do dia a dia, sendo honesto, firme e batalhador, para que eles aprendessem com a nossa convivência, não só com palavras”, pontua.
Para Érica, ficaram desses ensinamentos a admiração e o desejo de seguir os mesmos passos do pai. “Meu pai é uma pessoa de muito caráter, muito esforçado, inteligente, batalhador. Eu sei que a vida dele também foi muito difícil. Eu não sou igual a ele, mas tento ser e me espelho nele porque é uma pessoa maravilhosa. Ele me ensinou a ser uma pessoa honesta e a lutar pelos meus objetivos, pela minha felicidade. Eu conto tudo pra ele, então, a gente tem realmente uma ligação muito forte”, afirma Érica.
Ela destaca que se considera parecida até fisicamente com Aparecido. “É estranho, mas eu acho que a convivência faz a gente ficar parecido. Dizem que pai é quem cria, mas, pra mim, é mais do que isso: meu pai é meu porto seguro, minha referência”.
Por sua vez, Aparecido diz ser muito gratificante e emocionante ver os frutos do seu amor de pai. “Saber que a minha presença ajudou a formar o caráter dela e que hoje existe essa conexão me dá orgulho, e também me faz querer continuar fazendo o certo todos os dias”.
Apoio incondicional
Encontrar nos pais um porto seguro fez com que Érica tivesse coragem para encarar de frente seu passado e, depois de adulta, buscar suas origens. “Eu não perguntava por que achava que era algo que machucava eles, de certa forma. Mas, quando eu perguntei, ele foi atrás, conseguiu o contato de outro pai que também tinha adotado a minha outra irmã. Meu pai me ajudou e eu conheci ela e outro irmão, filho dessa minha mãe biológica. E foi muito legal conhecê-los porque faz parte da minha história, de certa forma, porque têm o meu sangue”, relata Érica. Ao reencontrar os irmãos biológicos, sua genitora havia falecido um ano antes.
Da parte de Aparecido, ele conta que ajudar Érica nesse processo de resgatar o contato com a família biológica foi um misto de carinho e responsabilidade. “Eu entendia o desejo dela de conhecer as origens e apoiei esse caminho. Ao mesmo tempo, eu precisava respeitar o tempo dela e garantir que essa busca não virasse dor ou culpa. Ver que ela conseguiu se aproximar com segurança me deixa muito satisfeito”, avalia.

Há oito anos morando na Europa, Érica afirma ser difícil estar longe da família, especialmente em datas comemorativas, como o Dia dos Pais, mas que a única palavra que vem à sua mente nessas horas é gratidão. “Quero que ele saiba que é o melhor pai do mundo, que eu sou muito grata a ele por cada gesto, por cada abraço. Minha maior certeza na vida é que eu amo muito ele. Mesmo distantes fisicamente, graças a Deus somos muito próximos, pois, de certa forma ele me deu a vida”, assevera Érica.
Pai e apoiador, Aparecido confirma que a distância aperta o coração, mas que, ao mesmo tempo, sente orgulho ao ver que Érica está correndo atrás dos próprios objetivos com coragem. “A gente procura estar presente do jeito que dá, com diálogo, apoio e carinho. E isso ajuda a transformar a saudade em motivação”.
Adoção
Enquanto agente da Infância e Juventude, Aparecido ressalta que a Justiça tem um papel fundamental em garantir que toda criança tenha o direito de crescer em um ambiente seguro, com afeto, dignidade e oportunidades. “A adoção não é apenas um ato jurídico; é a construção de uma família baseada no amor e na responsabilidade”, avalia.
Ele lembra que, desde quando adotou Érica até os dias atuais, a legislação evoluiu muito. “Hoje, o processo de adoção é mais estruturado, transparente e voltado, acima de tudo, ao melhor interesse da criança e do adolescente. Há uma preparação maior das famílias, acompanhamento técnico e mecanismos que buscam reduzir o tempo de permanência de crianças em acolhimento institucional, sempre preservando seus direitos”, explica.
Aparecido aproveita este Dia dos Pais para deixar uma mensagem a todos os pais: “Aos pais biológicos, que valorizem o privilégio de acompanhar o crescimento dos seus filhos com amor, presença e responsabilidade. E aos pais de coração, que nunca duvidem da força do amor que escolheram oferecer. A verdadeira paternidade não é definida pelo sangue, mas pela presença, pelo cuidado, pelo exemplo e pelo compromisso de estar ao lado do filho em todos os momentos da vida. É esse amor que transforma histórias, fortalece famílias e constrói seres humanos melhores”, declara.
Érica, por sua vez, afirma: “Adoção não é sobre preencher um vazio, mas sobre transbordar o amor, porque é isso que eu sinto”.
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