Agricultura
Fechada em 2020, fábrica de ureia volta funcionar para reduzir custos do agro
Agricultura
A volta da produção de ureia em uma unidade da Petrobras no Paraná recoloca o País na tentativa de reduzir uma dependência estrutural que pesa diretamente no custo do agro. Hoje, o Brasil importa cerca de 80% a 85% da ureia que consome, insumo básico para culturas como milho, cana-de-açúcar e pastagens, o que expõe o produtor às oscilações do câmbio e do mercado internacional.
A unidade Araucária Nitrogenados (Ansa), reativada após quatro anos parada, tem capacidade de produzir 720 mil toneladas por ano, o equivalente a cerca de 8% da demanda nacional. Na prática, é um volume relevante, mas ainda insuficiente para alterar de forma estrutural o quadro de dependência externa.
A fábrica havia sido fechada em 2020 para priorizar a importação do produto. A decisão de retomar a operação reflete uma mudança de estratégica. Episódios recentes, como a disparada dos preços de fertilizantes durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, evidenciaram o risco de depender quase integralmente do mercado externo para um insumo crítico. O choque elevou custos no campo e pressionou margens, especialmente em culturas de alta demanda por nitrogênio.
Além da ureia, a planta também produz amônia (475 mil toneladas por ano) — base para diversos fertilizantes — e Arla 32, insumo utilizado na redução de emissões de veículos a diesel. A reativação exigiu investimentos de cerca de R$ 870 milhões e mobilizou mais de 2 mil trabalhadores na fase de preparação.
O movimento se soma à retomada de outras unidades de fertilizantes nitrogenados, como as fábricas na Bahia e em Sergipe, ampliando a presença da Petrobras no setor. Com essas operações, a companhia projeta atingir cerca de 20% do mercado nacional de ureia. No médio prazo, a entrada de uma nova unidade em Mato Grosso do Sul pode elevar essa participação para algo próximo de 35%.
Mesmo com esse avanço, o impacto para o produtor tende a ser gradual. A produção interna ajuda a reduzir custos logísticos e melhora a segurança de abastecimento, mas o preço final continua fortemente influenciado pelo valor do gás natural, variável que segue sendo o principal desafio para tornar o fertilizante nacional competitivo.
Hoje, o Brasil consome dezenas de milhões de toneladas de fertilizantes por ano e gasta bilhões de dólares com importações, sendo os nitrogenados uma das principais categorias. Nesse cenário, ampliar a produção doméstica não elimina a dependência externa, mas reduz a vulnerabilidade em momentos de crise e melhora o planejamento do setor.
Para o campo, a mensagem é direta: a reativação da fábrica é um passo importante, mas ainda não muda o jogo no curto prazo. O custo da adubação continuará sensível ao mercado global — com a diferença de que o País passa a ter um pouco mais de margem para reagir.
Fonte: Pensar Agro
Agricultura
Política para remunerar conservação no campo avança, mas não define quem pagará a conta
Produtores rurais que adotam práticas como plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de áreas degradadas e preservação de vegetação nativa poderão ser remunerados por esses serviços, após a regulamentação da Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (PNPSA), publicada pelo governo federal.
A medida detalha a Lei 14.119, de 2021, e reconhece que atividades capazes de conservar o solo, proteger recursos hídricos, preservar a biodiversidade e capturar carbono possuem valor econômico e podem ser objeto de remuneração.
Na prática, a regulamentação abre caminho para transformar em renda adicional ações já adotadas por milhares de produtores brasileiros. O pagamento por serviços ambientais funciona como uma compensação financeira para quem contribui para a conservação dos recursos naturais e para a redução das emissões de gases de efeito estufa.
Apesar do avanço, o decreto não definiu os valores que poderão ser pagos aos produtores nem estabeleceu mecanismos imediatos de adesão. O Cadastro Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais (CNPSA) e os subprogramas federais que irão estabelecer critérios de participação, formas de remuneração e fontes de recursos ainda dependerão de regulamentação complementar.
Os pagamentos poderão ser formalizados por meio de contratos ou termos de adesão e contar com recursos da União, de Estados e municípios, além de fundos ambientais, empresas privadas e iniciativas ligadas ao mercado de carbono.
REGULAMENTAÇÃO – A regulamentação reacende o debate sobre a remuneração dos produtores pela conservação ambiental. Levantamento da Embrapa Territorial mostra que os imóveis rurais brasileiros mantêm cerca de 218 milhões de hectares de vegetação nativa preservada, área equivalente a 25,6% do território nacional. A maior parte dessa conservação ocorre dentro das propriedades privadas, por meio de Reservas Legais, Áreas de Preservação Permanente (APPs) e excedentes de vegetação nativa.
Outro ponto que deverá ser discutido nos próximos anos envolve justamente as áreas de Reserva Legal e APP. O decreto prioriza ações que ultrapassem as exigências previstas na legislação ambiental, enquanto entidades do setor defendem que produtores que mantêm áreas obrigatórias de preservação também deveriam ser remunerados pelos serviços prestados à sociedade.
Para o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende (foto), a regulamentação representa um avanço importante ao reconhecer uma contribuição que os produtores rurais já oferecem ao País há décadas, mas ainda falta explicar melhor como isso será feito e, principalmente, qual a fonte de recursos.
“O produtor rural brasileiro já presta serviços ambientais há muito tempo, muitas vezes sem qualquer compensação financeira. São mais de 218 milhões de hectares de vegetação nativa preservados dentro das propriedades rurais. É uma contribuição gigantesca para a conservação dos recursos naturais e para a segurança climática do País, que precisa ser reconhecida economicamente”, afirma.
Segundo Rezende, a regulamentação cria as bases para uma nova fonte de renda para o setor, mas ainda será necessário avançar na definição dos programas e dos mecanismos de remuneração.
“O decreto representa um avanço institucional, mas o produtor precisa de previsibilidade. Ainda não está claro de onde virá o dinheiro nem qual será a escala desses pagamentos. Se não houver recursos assegurados e programas permanentes, existe o risco de que a política fique restrita ao discurso, sem gerar renda efetiva para quem produz e preserva”, afirma Rezende.
“O reconhecimento das práticas sustentáveis é positivo, especialmente em um país que se consolidou como potência agroambiental. Plantio direto, integração lavoura-pecuária-floresta, recuperação de áreas degradadas e conservação de nascentes já fazem parte da realidade de milhares de produtores brasileiros. O próximo passo é transformar esse reconhecimento em mecanismos efetivos de pagamento”, destaca.
Na avaliação do dirigente, a política de pagamento por serviços ambientais não deve depender exclusivamente dos cofres públicos. Segundo ele, empresas privadas, fundos ambientais e mecanismos ligados ao mercado de carbono podem desempenhar papel importante no financiamento das iniciativas.
“O produtor brasileiro já faz sua parte e preserva muito além do que se vê em outros países. O que precisamos agora é construir um ambiente de segurança jurídica e de incentivos econômicos que permitam transformar conservação em renda, fortalecendo a sustentabilidade e a competitividade do agro brasileiro”, conclui.
Fonte: Pensar Agro
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