Esporte
Coração em alerta: cardiologistas analisam casos recentes e explicam prevenção
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Em menos de três meses, quatro jogadores tiveram problemas cardíacos; sindicato dos atletas investiga casos
Da Redação
Recentemente, quatro jogadores de futebol apresentaram problemas cardíacos. O Estado conversou com médicos especialistas para descobrir o motivo de tantos registros em um intervalo de menos de três meses. A conclusão é de que há uma conjunção de fatores para explicar os problemas. Segundo os cardiologistas, não houve fator de ligação entre as ocorrências.
A evolução tecnológica da medicina, o desenvolvimento das máquinas para realização de exames, a obrigatoriedade de clubes profissionais realizarem check-ups periódicos e também o fato de os atletas terem uma vida profissional mais longeva são as principais causas.
O especialista em cardiologia e medicina do esporte, Nabil Ghorayeb, lembrou também que os casos não estão ligados entre si porque são doenças diferentes. “São coincidências que aconteceram em um curto espaço de tempo”, comentou.
O mais recente caso que ganhou destaque foi o do volante Biro-Biro, do Botafogo. Há cerca de um ano, quando atuava pelo Shanghai Shenxin, da China, o jogador corrigiu uma arritmia cardíaca. Pelo histórico, foi informado inicialmente que o desmaio ocorrido durante o treino na última terça-feira aconteceu por problema no coração. “Não foi. Ele teve uma síncope vaso vagal por provável queda de pressão”, informou Nabil.
No último dia 12, o volante Adílson, do Atlético-MG, concedeu entrevista para informar que iria se aposentar por ter descoberto uma cardiomiopatia hipertrófica. “Cerca de 15% a 25% dos atletas profissionais podem desenvolver em algum grau o aumento do músculo do coração”, diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, que coordena o núcleo de pesquisa da Unicamp para investigar problemas cardíacos em atletas.
Nesse caso, ele informa que é necessário analisar que só o aumento (hipertrofia) não impede que um jogador continue a atuar. Mas tem de ser investigado se há a formação de fibrose. “Quanto mais fibrose, maior o risco de arritmia (distúrbio do ritmo cardíaco)”, explica.
Antes de Adílson, no dia 24 de junho, o atacante Joel, que pertence ao Cruzeiro, foi cortado da seleção de Camarões após ser diagnosticado com uma anomalia na artéria coronária. Segundo Nabil, trata-se de um problema que pode ser corrigido. “Ele nasceu com o coração diferente. As duas artérias saem de um lado só. Tem de operar para poder jogar depois”, afirmou.
Ainda em maio, o goleiro espanhol Iker Cassillas sofreu enfarte agudo no miocárdio. “Parece um contrassenso, mas o excesso de atividade física pode ser prejudicial. O atleta treina mais do que o organismo está preparado e pode contribuir para a doença nas artérias do coração”, ensina o doutor Otávio.
O Sindicato de Atletas Profissionais do Estado de São Paulo está atento aos problemas do coração dos jogadores. Os casos serão investigados para saber se houve alguma negligência dos clubes. De acordo com o presidente do Sapesp, Rinaldo Martorelli, os últimos acontecimentos acenderam “uma luz amarela” sobre o tema. O sindicato conta com médicos parceiros que analisarão os problemas recentes. Além de apurar possível negligência, o objetivo é descobrir se os exames atuais são suficientes para os jogadores. “Quando aparece algum caso, começamos a prestar mais atenção. Até então, sabemos que os clubes não têm problemas, os atletas passam por exames regularmente”, afirmou Martorelli.
Para os médicos do São Paulo e do Corinthians os problemas recentes não ligam o sinal de alerta nos clubes. “Esse alerta já existe desde que comecei na base do São Paulo, sempre levamos os jogadores para avaliações. Sempre dei importância e me preocupei com isso”, diz José Sanchez, do time do Morumbi. Joaquim Grava, do Corinthians, tem o mesmo discurso. “É uma incidência muito pequena se olharmos para o número de atletas profissionais. Realizamos exames periódicos e monitoramos nossos atletas”, avisa.
Otávio não acredita que a realização de mais exames sirvam para diminuir as ocorrências. “O que é feito no Brasil vem na mesma ideia das recomendações internacionais. É necessário ter um acompanhamento diário. O jogador tem de manter sempre conversas com os médicos. Dor no peito, falta de ar, tontura, desmaio, sensação de aceleração do coração são sintomas que sempre precisam ser investigados”, comentou.
Doni relembra aposentadoria após problema cardíaco
O ex-goleiro Doni sofreu uma parada cardíaca quando atuava pelo Liverpool, em 2012. O problema aconteceu durante testes físicos logo depois do período de férias. O jogador, que teve passagens pela seleção brasileira, ficou desacordado por 25 segundos e depois disso tomou a decisão de pendurar as chuteiras. Ao Estado, ele relembrou do ocorrido e destacou a evolução da medicina nos dias de hoje.
Como foi a sua decisão de parar com o futebol?
Foi muito difícil, pois estava em um grande clube da Europa e com muitos anos ainda pela frente. Foi mentalmente muito difícil, principalmente no começo. Depois do exame no Liverpool, procurei médicos de confiança na Itália e no Brasil. Me pediram para fazer novos exames em seis meses. Mas decidi não arriscar mais.
Que conselhos daria para esses atletas que descobriram problemas cardíacos?
Diria que não tem só a vida de atleta, fora dela dá para ser feliz também, bem sucedido e realizar sonhos. Hoje sou feliz. Realizei meus sonhos como atleta e hoje estou realizando outros como empresário.
Acha que aumentou o controle nos clubes em relação a isso?
Sem dúvidas o controle é mais frequente. Lembro bem que foram detectar algo em mim quando estava no Santos. Mas antes passei pelo Botafogo e Corinthians por anos e nada se encontrou. Antigamente havia pouco controle.
Você ainda precisa ficar monitorando o seu coração?
Desde quando parei, tenho vida normal. Mesmo tendo uma parada cardíaca, nunca me disseram que deveria ter algum cuidado específico, porque não encontraram nada que necessitasse de cuidado especial. Jogo minha bola. E virei artilheiro (risos). Não bato nem lateral para não pegar a bola com a mão. Vou à academia, corro, faço de tudo.
Técnicos têm problemas após carreira de jogador
O cardiologista Nabil Ghorayeb faz um alerta: ex-jogadores que, após aposentadoria dos gramados, viram treinadores têm mais chances de sofrer com arritmia cardíaca. Em março, por exemplo, Abel Braga passou mal durante um jogo do Flamengo contra o Fluminense.
“Essa arritmia se chama fibrilação atrial. Detectamos nos últimos cinco anos um aumento desses casos em técnicos ex-atletas, aqueles que já foram jogadores no passado. Estudos apontam que até 20% dos ex-atletas têm esse tipo fibrilação atrial. É muito comum em idosos acima de 75 anos, mas começou a aparecer também em ex-atletas na faixa dos 55 anos que, na juventude, praticavam atividades físicas em alta intensidade. O coração cresce de tamanho acima da média e acaba formando pequenas cicatrizes”, explicou o cardiologista. São exatamente esses os casos de Abel Braga, Renato Gaúcho, Muricy Ramalho, Cuca e Levir Culpi – todos vítimas de problemas de saúde à beira do gramado.
Como os treinadores de futebol têm um alto nível de estresse e muitos são sedentários e obesos, lembra Ghorayeb, isso favorece o aparecimento da fibrilação atrial. “Exercícios físicos intensos na juventude podem causar problemas, dependendo dos hábitos de vida do ex-atleta. Não é mortal, mas causa mal-estar. Se não for tratado a tempo, pode provocar até um derrame cerebral”, diz.
A Federação Brasileira dos Treinadores de Futebol (FBTF) pretende lançar uma campanha alertando sobre a necessidade de os técnicos cuidarem mais da saúde. O presidente da entidade, Zé Mário, afirma que a ideia é conscientizar os treinadores de que eles precisam passar regularmente por exames médicos, sem depender da CBF ou dos clubes.
“Vamos pedir e colocar isso para os treinadores, porque é uma coisa muito perigosa. Tem de estar atento. É muita pressão, muito nervosismo na hora do jogo. O atleta, normalmente, faz exames médicos uma vez por ano. Um ex-atleta que vira treinador tem de manter esse costume. É uma coisa da vida do próprio técnico, não adianta a CBF ou o clube exigir”, explica Zé Mário.
Fonte: O Estado de S.Paulo / https://esportes.estadao.com.br/noticias/futebol,coracao-em-alerta-cardiologistas-analisam-casos-recentes-e-explicam-prevencao,70002930333
Foto: Botafogo
Esporte
Quando perder músculo também ameaça o cérebro
Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.
Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.
Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.
O que a ciência mostra :
Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.
Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.
Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.
Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.
Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?
Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.
Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.
O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.
Por que o músculo influencia a saúde cerebral?
A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.
A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.
Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.
Como enfrentar cientificamente esse problema ?
O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.
O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.
A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.
Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.
Envelhecer bem ,exige preservar força
A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.
Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.
Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.
Saúde não é sorte. É rotina.
Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308 Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.
Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.
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