Opinião
RUMO À GERRILHA URBANA?
Opinião
Por: Auremácio Carvalho
Estamos assistindo hoje no Brasil a um espetáculo, que seria ridículo se não fosse trágico, que é o caso de um simples recurso de Apelação- o que é normal e corriqueiro nas lides forenses, pois qualquer pessoa inconformada com uma decisão judicial que lhe é desfavorável, tem a seu dispor o mecanismo legal do recurso à uma instância superior, buscando rever a decisão, mas, no caso do ex-presidente Lula, a coisa está tomando ares de problema nacional, crise institucional; como se dessa decisão, a ser proferida na próxima quarta-feira (24/01), dependesse o futuro do Poder Judiciário, ou da democracia brasileira.
Lula se coloca e é visto por seus fanáticos seguidores, como imune ao alcance da lei; intocável. (falta-lhe aplicar a Constituição de 1824: “o Imperador é irresponsável”, dizia um de seus artigos). A Constituição e as leis não podem alcança-lo. Está acima do bem e do mal. Nunca reconheceu nenhum erro. É puro; o mais “honesto dos homens”, igual- (na verdade, superior), a Jesus Cristo. A Senadora Gleisi Hoffman- Presidente do PT- afirmou que o Partido não vai aceitar a decisão do TRF-4 (já espera a condenação?) e que, “para prender o Lula, vai ter de prender muita gente, mas, mais do que isso, vai ter de matar gente”, caso o idolatrado Lula seja condenado.
Quem vai morrer? Os desembargadores do Tribunal- aliás, um deles, segundo a mídia, já retirou a família do Estado, e todos os três vem sofrendo ameaças de morte, como é fartamente noticiado? O MPF, os delegados? Ou, o que é mais lógico, morrerá o Poder Judiciário, coagido, subjugado e humilhado pela força, impossibilitado em seu poder de julgar? O ministro Marco Aurélio Mello, do Supremo Tribunal Federal, afirmou ao “Estadão” que as instituições estão funcionando no País e que a “lei vale para todos” “Todos nós devemos contas à Justiça”, disse Marco Aurélio.
“A importância é a atuação da ordem jurídica e as cobranças quanto a eventuais desvios de conduta. Espero que a Constituição Federal prevaleça.” Vamos assistir em Porto Alegre, a tropa de choque do MST quebrando, agredindo, destruindo o patrimônio público ou privado, como é o seu modo de agir? Parece ser esse o caminho escolhido pelo PT e seus apoiadores; só aceitar o que lhe for favorável e repudiar, desmoralizar o “inimigo”: o Judiciário.
Os advogados de Lula, nos processos, tem usado a tática de desmoralizar os juízes, o MP, com falas agressivas e desrespeitosas, protelação, e outras chicanas jurídicas. Lula ainda responde a outros cinco processos.
Vai ocorrer a mesma “crise” institucional, em caso de outras condenações? É este o clima político-eleitoral que queremos para 2018? Ano tão importante para um recomeço do Brasil, com o afastamento- esperamos- da cena nacional de inúmeros personagens corruptos, que tem denegrido o país, com corrupção, crimes e imunidades que não se justificam? Será que vamos voltar ao passado?
Ditadura Bolsonariana ou Lulismo demagógico? A tática político-eleitoral de transformar o juiz do processo em réu, e o réu em juiz, não poderia resultar algo de bom, a não ser o acirramento de ânimos que assistimos no país. Lula e o seu exército de apoiadores nunca levaram a sério a ação penal movida contra ele, achando que jamais “este país” se atreveria a condená-lo. Desprezaram, desde o início, o devido processo legal, apesar das provas ajuntadas.
Acharam-se capazes de intimidar o juiz Sérgio Moro e o MPF. Um triste exemplo de um cidadão e líder que deseja voltar a Presidência, desrespeitando uma de suas instituições básicas- o Judiciário. Aliás, parte da mídia, em peso, reproduz o mantra oficial do PT, segundo o qual Lula é vítima de um “processo político”, de perseguição, de injustiça. Como se fosse o único a ser injustiçado na história brasileira.
O temor de todos nós é que esse espetáculo venha causar maior divisão do país, com radicalismos de todos os lados; ocupação de prédios públicos, arruaças, e até, o que se espera não ocorra, o aparecimento de “mártires”, inviabilizando, ainda mais, a vida nacional, a tranquilidade pública, a paz social, tão necessária nesses dias conturbados que vivemos.
Na verdade, o impasse institucional brasileiro, combinado com a crise econômica, a insegurança do Direito, a corrupção sistêmica, a impunidade e a violência urbana sem controle, empurram o Brasil para um estágio de pré-convulsão social. Recessão, estagflação, radicalismo ideológico e fraqueza das instituições costumam levar qualquer país ao caos – o que demandará uma “força autoritária” como pretensa solução…bolivariana, talvez; o que muitos sonham.
O risco de uma convulsão, com ruptura institucional, é um cenário cada vez mais próximo e possível – mesmo no Brasil em que se cultua o falso mito de passividade e pacifismo de seu povo, que vem desde a Colônia. O cenário que se avizinha é perturbador. Pedir para os militantes lulistas e outros interessados em tumultuar um simples procedimento judicial, bom-senso e acatamento das normas processuais, é atitude talvez de ingenuidade; mas, fazer ver os riscos de tais atitudes para a estabilidade da democracia, creio ser dever de qualquer cidadão que espera que as instituições e poderes funcionem livremente e dentro dos devidos marcos legais.
Acatar ou não um recurso é um ato comum da Justiça, que ocorre milhares de vezes ao dia; não é ato político ou de “perseguição” a A ou B. É simplesmente, uma prestação jurisdicional, nada mais.
O ano de 2018 será inegavelmente um divisor de águas. Ou se conseguirá seguir na restituição da democracia pelo voto livre e atitudes de respeito à lei e às instituições, ou se aprofundará o esgarçamento do tecido institucional, com a tentação de se usarem vias alternativas para desalojar do poder quem dele vem se servindo contra os interesses da maioria das brasileiras e dos brasileiros, isso inclui, sem dúvida, os últimos governos do PT e PSDB.
Uma via de forte apelo social e populista, como está ocorrendo, é colocar o “povo” como supremo juiz, inclusive de atos judiciais. O recrudescimento da situação política, a impossibilidade de diálogo e de uma saída democrática e constitucional, terá uma vitima: quem pagará o preço caso ocorra tal cenário político-social- uma convulsão social- será o povo, que perde direitos, possibilidades e oportunidades, e que é sempre o primeiro reprimido, nessas situações.
O que todo o Brasil espera- acreditamos- é que a justiça seja feita, sem pressões populares indevidas, sem ameaças de guerra civil, tumultos e quebra da institucionalidade.
“O tribunal divino é decerto muito respeitável e muito venerável; mas os tribunais da terra também valem alguma coisa: e a gente enquanto vive neste vale de lágrimas, é obrigado a saber que eles existem e têm força.”- Olavo Bilac. Será que o PT vai aprender a lição?
(*) Auremácio Carvalho é Advogado.
Opinião
ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO
Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.
Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.
Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.
O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.
Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.
O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.
Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.
Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.
* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário
-
Política5 dias atrásTRE-MT informa ausência de denúncias de fake news e destaca ações conjuntas com a ALMT
-
Polícia6 dias atrásMárcia Pinheiro passa por cirurgia de seis horas e família atualiza estado de saúde
-
Esporte7 dias atrásBrasil vira sobre a Austrália e vence por 4 a 2 em amistoso
-
Política7 dias atrásAbilio pede desculpas a Erika Hilton após acordo com a PGR por episódio na CPMI
-
Política7 dias atrásEmanuelzinho aparece na frente em pesquisa para deputado federal em Cuiabá
-
Economia5 dias atrásTermina nesta quarta prazo para pedir dinheiro do fundo PIS/Pasep
-
Polícia6 dias atrásTRE suspende propaganda de Natasha até 1º de outubro e eleva multa para R$ 100 mil
-
Política7 dias atrásPrefeita Flávia Moretti pede votos e declara apoio à reeleição de Juca do Guaraná


Você precisa estar logado para postar um comentário Login