Esporte
Um ano após tragédia, torcedores veem ‘distanciamento’ da Chapecoense
Esporte
Torcida vê o clube mais fechado do que era antes da tragédia no fim do ano passado
Da Redação
Diante de tantas homenagens, um único vaso de flores brancas, bem no centro do campo na Arena Condá, representava bem o sentimento de alguns torcedores que aproveitavam o intervalo do almoço para prestar homenagens nesta quarta-feira. Um ano após a tragédia da Chapecoense, pouca coisa parece clara aos olhos de quem acompanha os jogos de um time que sempre foi “da comunidade” e que em pouco mais de quatro décadas deixou de ser “apenas” uma equipe de Chapecó ou da região oeste de Santa Catarina para conquistar o carinho de todo o mundo.
E os números comprovam isso. A Chapecoense tem hoje cerca de 17 mil sócios contribuintes. Antes da tragédia, o número não passava de 9 mil. Estima-se que a arrecadação do clube, embora não confirmada, possa chegar a R$ 100 milhões em 2017, um aumento de 40% em relação à 2016.
Desde de o acidente, o clube passou por várias mudanças administrativas, pagou seguros, salários e premiações às famílias das vitimas e também recebeu ajuda, como o pagamento de 50% dos salários de jogadores emprestados. Mas aos olhos do torcedor, seja por estratégia administrativa ou foco no resultado que garantiu continuar na Série A, a Chapecoense parece mais fechada do que costumava ser antes da tragédia.
Nesta quarta, durante todo o dia, não houve expediente na sede do clube. A prefeitura decidiu não realizar atos oficiais ou declarar feriado municipal na cidade como esperavam alguns torcedores. Mas a Arena Condá permaneceu aberta para que todos pudessem fazer suas homenagens. Entre os mais apaixonados, um sentimento em comum: falta alguma coisa na relação entre a Chapecoense e o torcedor.
Para a enfermeira Daiane Andreia Dhiel, de 24 anos, que se emociona ao falar da “Chape”, o crescimento do clube e os esforços da atual diretoria são inegáveis, mas hoje a saudade sugere outra reflexão.
“Acho que aprendemos muito com tudo o que aconteceu e ainda estamos aprendendo. Vejo maturidade no comportamento do torcedor, que sabe ponderar até mesmo na critica. Mas também vejo um certo distanciamento do clube. É algo que a gente sente, mas não consegue explicar. Não vejo como nostalgia, mas sem desmerecer o trabalho de quem aceitou esse desafio imenso, parece que falta um pouco de amor. Nos sentimos sozinhos”, explica.
As lembranças dos mortos na tragédia estão espalhadas pela cidade. Nas paredes do clube, um painel está sendo desenhado por artistas para eternizar a imagem daqueles reconhecidos como heróis. Nas ruas, onde a roupa oficial nesta quarta foi a camisa da Chapecoense, o sentimento é de saudade não só dos mortos na tragédia, mas também de uma época que o torcedor faz questão de que não seja esquecida.
“Sou do tempo em que a Chapecoense não era o que é hoje. A gente sentava no chão de terra para acompanhar os jogos. Todos se conheciam, a gente conversava com os jogadores, todos eram amigos da gente. Não havia qualquer tipo de ‘estrelismo’ e a maioria de quem estava lá era voluntário. Acho que essa essência de doação e empenho precisa ser mantida. É claro que os tempos mudaram e a Chape também mudou, mas os valores precisam ser mantidos e acho que o torcedor tem feito a sua parte”, diz o aposentado Vilson Vanzin, de 68 anos, que viajou de Santiago do Sul (SC) até Chapecó para prestar sua homenagem.
No acidente com o voo da Lamia em 2016, morreram além dos jogadores e jornalistas, 25 integrantes da comissão técnica e convidados, a maioria empresários que apoiavam o clube desde sua formação, totalizando 71 mortos.
Para o cinegrafista Paulo Zezak, de 55 anos, que acompanha a trajetória do clube desde 1988, o sentimento dos torcedores tem justificativa. “Ficou uma lacuna. As pessoas que morreram no acidente tinham a capacidade de entender o ‘DNA’ do torcedor. Com a ausência dessas pessoas, o torcedor se sentiu e se sente ainda um pouco órfão. Isso é perfeitamente compreensível quando a gente fala de pessoas que administravam com muita experiência, mas principalmente com o espírito comunitário que é uma característica da nossa gente e que está presente em todas as iniciativas que deram certo em Chapecó.”
O ano de 2017 está chegando ao fim com motivos de sobra para comemorar. A permanência na Série A coroa o resultado de um trabalho intenso que exigiu muito. Por outro lado, a Chapecoense ainda não teve suas contas aprovadas pelo conselho fiscal. Há rumores de que não há consenso entre os 240 conselheiros. Ações na Justiça questionam o auxílio às vitimas e há duvidas sobre investimentos e aplicação de recursos.
Sobre o acidente, a luta das famílias em busca da indenização continua. Pelo menos duas associações foram criadas. Uma que busca auxilio para despesas do dia a dia e outra que busca na Justiça uma indenização de R$ 25 milhões que deveria ser paga pela seguradora do voo.
Nesta quarta, as homenagens terminaram com uma missa que reuniu milhares de pessoas, mas também houve homenagens anônimas, de torcedores, cada um ao seu modo buscando conforto para amenizar a saudade.
Fonte: O Estado de S. Paulo
Foto: Nelson Almeida/AFP
Esporte
Quando perder músculo também ameaça o cérebro
Durante muito tempo, falar em obesidade significava olhar apenas para o peso e para o IMC. Hoje sabemos que isso é insuficiente.
Duas pessoas com o mesmo peso podem ter condições completamente diferentes. Uma pode apresentar boa massa muscular e força preservada. A outra pode acumular gordura, especialmente abdominal, enquanto perde músculo e capacidade funcional.
Essa combinação é chamada de obesidade sarcopênica.
Ela reúne dois problemas importantes: excesso de gordura corporal e redução da massa ou da força muscular. Além de aumentar o risco de fragilidade, quedas, diabetes e doenças cardiovasculares, novas evidências mostram que essa condição também pode estar associada a maior risco de demência.
O que a ciência mostra :
Um grande estudo publicado na revista Clinical Nutrition avaliou dados de centenas de milhares de pessoas e analisou a relação entre composição corporal, força muscular e desenvolvimento de demência.
Os resultados mostraram que tanto a sarcopenia isolada quanto a obesidade sarcopênica estavam associadas a um risco maior de declínio cognitivo. Um dos achados mais relevantes foi a importância da força de preensão manual, medida por dinamometria.
Quanto menor a força e quanto maior sua redução ao longo dos anos ,maior foi o risco observado.
Isso reforça uma mudança importante na forma de avaliar a saúde: Não basta saber quanto peso uma pessoa perdeu. Precisamos saber quanto músculo e quanta força ela conseguiu preservar.
Emagrecer , nem sempre significa melhorar a saúde ?
Uma perda de peso mal conduzida pode incluir perda significativa de massa muscular, principalmente em pessoas mais velhas, sedentárias, submetidas a dietas muito restritivas ou a tratamentos sem acompanhamento adequado.
Mesmo com o avanço dos medicamentos para obesidade, o objetivo não deve ser apenas reduzir o número na balança. O tratamento precisa preservar músculo, reduzir gordura visceral, melhorar o metabolismo e manter a autonomia.
O paciente não deve apenas ficar mais leve. Deve ficar mais saudável, mais forte e funcionalmente mais capaz.
Por que o músculo influencia a saúde cerebral?
A relação entre músculo e cérebro é complexa, mas alguns mecanismos ajudam a explicá-la.
A perda muscular pode piorar a resistência à insulina, reduzir o gasto energético, aumentar o sedentarismo e favorecer inflamação crônica. Ao mesmo tempo, fatores como hipertensão, diabetes, apneia do sono e colesterol elevado afetam os vasos sanguíneos que irrigam tanto o coração quanto o cérebro.
Por isso, preservar músculo é muito mais do que uma questão estética. É uma estratégia de proteção metabólica, cardiovascular, funcional e possivelmente cognitiva.
Como enfrentar cientificamente esse problema ?
O primeiro passo é avaliar mais do que o peso. Circunferência abdominal, composição corporal, força de preensão, velocidade da marcha, capacidade funcional e exames cardiometabólicos ajudam a identificar riscos que o IMC isolado não mostra.
O treinamento de força deve ocupar posição central. Caminhar é importante, mas pode não ser suficiente para preservar ou recuperar massa muscular. Exercícios resistidos, progressivos e individualizados são fundamentais.
A alimentação também precisa garantir quantidade adequada de proteínas e energia, distribuídas ao longo do dia e ajustadas à idade, função renal, rotina e condição clínica.
Além disso, é essencial tratar fatores que aceleram a perda muscular e o envelhecimento vascular, como sedentarismo, diabetes, hipertensão, alterações do sono, tabagismo e obesidade visceral.
Envelhecer bem ,exige preservar força
A obesidade sarcopênica mostra por que o cuidado não pode ser fragmentado. Peso, metabolismo, coração, músculo e cérebro fazem parte do mesmo sistema.
Entendemos que o acompanhamento precisa ir além da balança. Avaliamos composição corporal, força, risco cardiovascular, alimentação, sono, rotina e capacidade funcional para construir estratégias verdadeiramente individualizadas.
Porque o objetivo não é apenas perder peso. É preservar autonomia, proteger o cérebro, fortalecer o corpo e construir saúde antes que a doença se manifeste.
Saúde não é sorte. É rotina.
Dr. Max Wagner de LimaCardiologista — CRM 6194 | RQE 2308 Prevenção cardiovascular, cardiometabolismo e medicina de antecipação.
Maristela Luft — CRN -16431Nutricionista e Mestre em nutrição clínica, composição corporal e cuidado cardiometabólico.
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