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Um baile de máscaras em meio à pandemia

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Por Rosário Casalenuovo Júnior é dentista*
 
Estava indo para Brasília e, como os voos estavam restritos, tive que fazer uma conexão em Cumbica, São Paulo. Todos, absolutamente todos, mascarados. Parecia um baile de máscaras do contra.
Cobrindo boca e nariz, nos bailes de máscaras se cobre a testa que não compromete a beleza, pois pouco se elogia uma testa: “nossa, você tem uma testa linda, adoro olhar para a sua testa”, este é um elogio muito bizarro.  Até mesmo os homens que possuem uma testa maior por falta de cabelo, não se orgulha por isso.
Nas festas de máscara, apenas são cobertas a testa e as pálpebras que, conforme a idade com os pés de galinha e papo de galo, ficam até bem quando escondidas. E da mesma forma é a situação do nariz. Tem nariz como o meu que aparece primeiro. Dobrando uma esquina, primeiro surge meu nariz, depois vem o resto do corpo. Aí seria até uma estratégia de marketing pessoal cobrir a testa e o nariz. Mas estas máscaras da pandemia…
Essas peças cobrem as partes que justamente mostram a beleza. O que adianta dentes ok, batom ok, preenchimento facial ok, sendo que ficam à mostra apenas sobrancelha ok e cílios ok e o resto cobre tudo. Você só desconfia que a pessoa seja bonita, imaginando aquele sorriso, dentes, etc. 
Encontrei um amigo mascarado passando pelo aeroporto também e quase não o reconheci. Enquanto ele falava, eu somente olhava para a testa e olhos dele. Reparei que ele tinha envelhecido na testa e pálpebras e sugeri a ele fazer um botox .
Por outro lado, tem uma coisa boa em usar estas máscaras, nem mesmo o celular te reconhece. Automaticamente, tento abrir o smartphone, ponho ele olhando para o meu rosto esquecendo da máscara. Aí, ele me estranha, como se dissesse “não te conheço”. 
Isto dá um sinal de liberdade, você poder andar no mercado, sem precisar cumprimentar. Às vezes, você não está a fim de conversar, pode passar reto. Se souber que é você, irá imaginar que não reconheceu ele de máscara.
Vai haver muita mudança nos hábitos da humanidade, a primeira festa que quero dar quando nos livrarmos disso será com máscaras pois acho que as pessoas vão ficar viciadas em usá-la. Será um acessório que pode ser lançado com grifes, tipo Gucci, Armane, Louis Vuitton.  Aparecerá uma regra social, que será usar máscara quando estiver gripado. Se espirrar então? Esta pessoa será tão indesejada como alguém fumando em um ambiente.
Entretanto, eu, como dentista, agora tenho que pedir para o paciente retirar a máscara para fazer o tratamento e também saber quem é a pessoa. 
Outra vantagem da máscara está relacionada ao pum, um pum no avião ou ônibus, tem dois lados. Para as vítimas, quando vem o cheirinho, todo mundo fica procurando e quem liberou, aquela cara de paisagem. Igual à do Mister Bim quando faz alguma arte saindo impune. Mesmo nunca sabendo quem foi, fica uma situação de desconfiança coletiva. Até mesmo entre os casais. “Foi você”?
Agora, com o uso da máscara, juntando com o barulho das turbinas, não dá para ouvir os tiros e nem sentir o perfume, com isto o voo segue sem turbulência, todos saem em paz. Livre como o Carefree. 
Favor desconsiderar aquele ou aquela que nunca soltou um punzinho.
Depois que o pico da pandemia for identificado, este pico que é tão esperado e nunca chega e a curva ter o seu fim, vão surgir alguns neuróticos por higiene que ficarão como guerrilheiros depois que termina a guerra.  Perdidos e procurando contaminação em todo o lugar. Cumprimentar ele? Você fica com a mão no ar.  Dar um abraço, então? Será como transar sem camisinha. Muita intimidade. Como nos filmes de Hollyood, o pai encontra a filha depois de anos sem vê-la. Você acha que eles irão dar um abraço de horas? Somente um “como vai?”.
Eu particularmente fico sem graça receber alguém e despedir sem dar um abraço. Muito estranho, muito chato. Não vejo a hora de poder abraçar meus amigos, as pessoas que gosto. Chega deste mundo virtual, live dos artistas, vida online.
A vida real é off line. De verdade! Estou muito carente. Preciso urgente de um abraço, sem máscaras. Você me entende, né?

*Rosário Casalenuovo Júnior é dentista, professor de odontologia há 30 anos, músico e articulista dos principais jornais de Mato Grosso. Cristão, atleta, pai de Pedro e Giovanna. Contato: rosario.casalenuovo@hotmail.com

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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