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Será o fim da Lava Jato?

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Por Jean Borsatti

A operação lava jato teve um grande golpe no começo desta semana após a divulgação de trechos de mensagens trocadas entre o procurador Deltan Dallagnol e o ex-juiz Sérgio Moro que condenou Luiz Inácio Lula da Silva no caso do tríplex do Guarujá.

Se antes da revelação destas conversas pelo site The Intercept Brasil a operação já era alvo de críticas por parte da defesa do ex-presidente, agora fica mais claro o direcionamento dos procuradores e do atual Ministro da Justiça, Sérgio Moro.

A questão, é que em nenhum lugar do mundo essa atitude ficaria impune, já que se trata de uma atitude no mínimo imoral dos envolvidos. Desde de o começo da operação em 2009 o objetivo central era chegar em lideranças petistas, evitando assim que o partido continuasse no poder. Anos mais tarde, em 2016, grampos telefônicos com conversas da então presidente Dilma Rousseff com o ex-presidente Lula foram liberados de forma arbitrária para prejudicar os mesmos, na ocasião, Dilma havia indicado o ex-presidente ao cargo de Ministro da Casa Civil, os grampos foram fundamentais para a decisão do Superior Tribunal Federal (STF) em intervir na indicação.

Absolutamente tudo foi feito de caso pensado, como revela os vazamentos divulgados pelo site The Intercept Brasil. Não é de hoje que a Lava Jato usa de excessos e arbitrariedades para prejudicar seus rivais, no caso em questão, o ex-presidente Lula. Ainda em 2016 foi realizada uma condução coercitiva contra Lula, o fato é que a condução foi realizada antes mesmo de uma intimação para o ex-presidente prestar esclarecimentos, ou seja, foi feito de forma arbitrária unicamente para transformar o momento em um show midiático e assim denegrir a imagem de Lula.

Os momentos citados anteriormente foram fundamentais para que a opinião pública se voltasse ainda mais contra o Partido dos Trabalhadores, já que nesta altura o antipetismo estava a flor da pele no sentimento dos brasileiros, não deu outra, milhões de pessoas foram as ruas vestidos de verde e amarelo para pedir o impeachment de Dilma e a prisão de Lula, mesmo que naquele momento não havia absolutamente nada de cabal para justificar uma prisão.

Se não bastasse tais atos, Sérgio Moro decidiu aceitar o convite do presidente eleito Jair Bolsonaro para assumir o cargo de ministro, mais uma vez, Sérgio Moro deu margem para os críticos, já que ficaria claro seus interesses pessoais com a condenação de Lula.

Com tudo isso, seria fundamental que o ex-juiz renunciasse ao cargo que ocupa, assim como a imediata liberdade de Lula, já que as acusações tornam o processo nulo, afinal, não podemos aceitar que haja uma mistura tão descarada dos poderes, imaginem só, o julgador tramando com os acusadores, inclusive dando dicas de como os procuradores deveriam trabalhar, sem contar ainda o fato de que Moro teria antecipado decisões, isso é um verdadeiro crime contra a constituição, que pelo menos nos últimos cinco anos vem sendo rasgada por aqueles que deveriam preserva-la.

O que nos resta é aguardar as futuras divulgações de outros trechos das conversas que estão em posse do site, também não resta dúvidas de que vem coisa muito mais cabeluda por aí, talvez a casa do Sérgio Moro e dos procuradores da Lava Jato esteja a ponto de desabar.

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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