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Por um meio ambiente mais protegido

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Em pleno ano de 2020, são de uma atualidade visceral as afirmações da Declaração de Estocolmo sobre o Meio Ambiente (1972).

“Chegamos a um ponto na História em que devemos moldar nossas ações em todo o mundo, com maior atenção para as consequências ambientais. Através da ignorância ou da indiferença podemos causar danos maciços e irreversíveis ao meio ambiente, do qual nossa vida e bem-estar dependem. Por outro lado, através do maior conhecimento e de ações mais sábias, podemos conquistar uma vida melhor para nós e para a posteridade. Defender e melhorar o meio ambiente para as atuais e futuras gerações se tornou uma meta fundamental para a humanidade”.

Apesar de alguns inegáveis esforços na agenda ambiental brasileira nas últimas décadas, nosso país vem sendo veementemente cobrado por investidores estrangeiros em relação aos resultados da política nacional de proteção ao meio ambiente.

Investimentos estrangeiros na área foram suspensos, até que o Governo Federal comprove resultado no efetivo controle de desmatamentos e queimadas que devastaram em escala alarmante a Amazônia Legal, o cerrado e o pantanal em 2019 e no primeiro semestre de 2020. 

Diante da situação adversa, o Supremo Tribunal Federal convocou, nos autos da ADO 60, audiência pública para os dias 21 e 22/9, para que o governo, entidades de proteção ambiental, especialistas e outros interessados contribuam para um “relato oficial objetivo” sobre o quadro ambiental no Brasil. “São graves as consequências econômicas e sociais advindas de políticas ambientais que descumprem compromissos internacionais assumidos pelo Brasil”, destacou o ministro Barroso.

A situação agravou-se em 2019, com o avanço das queimadas e das invasões de terras indígenas e de unidades de conservação. “Os danos causados ao meio ambiente comprometem a biodiversidade, a fauna e a flora, que representam enorme potencial econômico e um diferencial para o país. Minam a credibilidade do país internacionalmente, prejudicando a captação de recursos para combater o desmatamento e reduzir a emissão de gases do  efeito estufa”, ressaltou o ministro.

O Sistema Nacional de Tribunais de Contas não está alheio à questão ambiental. Desde 2013 o Tribunal de Contas da União realiza auditorias conjuntas com os tribunais estaduais nas Unidades de Conservação Ambiental.Vários tribunais tem investido em auditorias ambientais e criado comitês interistitucionais de combate às queimadas e desmatamento.

No Tribunal de Contas de MT, expedimos em 9/7/2020 aos gestores estaduais e municipais, um estudo técnico como contribuição para a boa gestão ambiental. O estudo alerta sobre as responsabilidades impostas pela legislação atual à SEMA, no cumprimento da política pública de prevenção e combate de queimadas, oferecendo também segurança jurídica aos servidores da secretaria. 

Esse estudo mostrou também que sete cidades mato-grossenses estão entre os 10 municípios brasileiros com mais focos de incêndio entre 1º de janeiro e 1º de julho. Poconé é a 2ª colocada, com 350 focos, seguida por Nova Maringá, Feliz Natal, Paranatinga, Brasnorte, Nova Ubiratã e Gaúcha do Norte.

Nesse período, Mato Grosso apresentou um total de 6.775 focos de queimadas, ultrapassando a média mensal histórica nos meses de janeiro, fevereiro, março e abril. Além disso, em 1º de julho, quando se iniciou o período proibitivo de queimadas no estado, ocorreram focos em quatro áreas  indígenas. As queimadas urbanas também já incomodam os moradores de Cuiabá e Várzea Grande. O período de estiagem mal começou e a Defesa Civil já registrou quase mil focos de calor nas duas cidades, dos quais 600 só em Cuiabá.

Sem dúvidas, o atual quadro de queimadas em Mato Grosso exige, sobretudo neste momento de pandemia de uma síndrome respiratória, a Covid-19, uma atitude firme dos gestores para reduzir a poluição do ar e o agravamento da saúde humana já muito ameaçada.

O estudo do TCE recomenda que a SEMA efetive um sistema de gerenciamento  capaz de assegurar o permanente controle, preventivo e combativo, sobre queimadas no estado. A repressão aos incêndios ilícitos deve ser realizada com organização, método, eficiência, governança e, principalmente, gestão tempestiva de riscos, dada a limitação de recursos e a multiplicidade de focos de queimadas que se alastram pelo estado, ano a ano.

O TCE MT encaminhou o estudo à Sema, ao governador, aos prefeitos e vereadores das cidades mais afetadas pelas queimadas, à Assembleia Legislativa, MPE e Ministério Público de Contas, e seguirá firme em sua missão de proteger o patrimônio ambiental, a bem das gerações futuras e do desenvolvimento sustentável do estado. 
Proteger o meio ambiente não é uma opção, mas um dever  constitucional a todos nós imposto (art. 23, VI, da Constituição Federal).

Guilherme Antonio Maluf é presidente do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT). 

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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