Opinião
O quanto a classe farmacêutica evoluiu!
Opinião
Falar da profissão farmacêutica significa ir além de diversas culturas, costumes e lendas. É voltar ao passado e reviver a nossa colonização, nossas lutas, batalhas, dores e alegrias. É lembrar do surgimento da Farmácia com os primeiros aventureiros e colonos deixados por Martim Afonso, governador das Índias Ocidentais do Brasil, que tiveram de valer-se de recursos da natureza para combater as doenças, curar ferimentos e neutralizar picadas de insetos.
Para quem não conhece a história da farmácia no Brasil começou no período colonial, após 1530, quando medicamentos e outros produtos com fins terapêuticos podiam ser comprados nas boticas (primeiras farmácias da história).
Por meio das boticas, pessoas foram curadas e vidas foram salvas. Além disso, o profissional boticário é o grande responsável pelo surgimento da indústria farmacêutica. Através de seus estudos, substâncias com propriedades de cura foram descobertas, dando origem aos medicamentos que conhecemos hoje e que são utilizados nos tratamentos atualmente.
O primeiro boticário (farmacêutico) no Brasil foi Diogo de Castro, trazido de Portugal pelo governador geral, Thomé de Souza. Desde o princípio, as farmácias têm uma importância incalculável para a sociedade, o bem-estar, a saúde e a economia em todo o mundo.
Porém, a formação farmacêutica era ministrada dentro do curso de Medicina. Somente em 1240, o imperador romano do oriente Frederico II, escreveu a carta magna criando a Farmácia como profissão independente.
Após essa data a profissão farmacêutica evoluiu muito e hoje esses profissionais que estão na linha de frente desta categoria são os grandes responsáveis por isso. Reconhecer a importância de ser um profissional qualificado, é valorizar os anos de estudos e a evolução, a luta pela independência da profissão e o empenho depositado dia a dia destes profissionais.
Falar da profissão farmacêutica é lembrar de poetas como Monteiro Lobato que nos homenageou com o seguinte poema: “O papel do Farmacêutico no mundo é tão nobre quão vital. O Farmacêutico representa o órgão de ligação entre a medicina e a humanidade sofredora. É o atento guardião do arsenal de armas com que o Médico dá combate às doenças. É quem atende às requisições a qualquer hora do dia ou da noite. O lema do Farmacêutico é o mesmo do soldado: servir. Um serve à pátria o outro à humanidade, sem nenhuma discriminação de cor ou raça”, destaca o escritor.
A evolução é tamanha que a profissão conta atualmente com dez áreas de atuação que englobam a produção industrial e análise de alimentos; as análises clínico-laboratoriais; a educação; a farmácia; a farmácia hospitalar e clínica; a indústria de medicamentos; a gestão; as práticas integrativas e complementares; a saúde pública; e a toxicologia; áreas que abarcam mais de 130 especialidades profissionais regulamentadas por meio de resoluções do Conselho Federal de Farmácia (CFF).
No último ano vimos a importância do farmacêutico e a evolução da profissão, pois em nenhum momento esse profissional deixou de atender a sociedade. Porque devido ao último ano, os brasileiros deixaram de frequentar muitos estabelecimentos devido à pandemia da Covid-19. Porém, as farmácias foram a primeira escolha da população que precisa acessar os serviços e orientações relacionadas à saúde. Elas continuam atendendo um fluxo grande de pessoas in loco, afinal, é justamente o segmento da saúde que acabou ganhando foco neste novo cenário mundial.
*Luís Köhler é farmacêutico, especialista em Farmacologia e Farmácia Clínica, pós-graduado em MBA Inovação e Empreendedorismo, presidente da Sociedade Brasileira de Farmacêuticos e Farmácias Comunitárias (SBFFC/MT), membro da Comissão de Fiscalização do Exercício Profissional Farmacêutico -COFISC/CFF e Conselheiro Regional do CRF-MT.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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