Opinião
O PAÍS DO FAZ DE CONTA
Opinião
Por: AUREMÁCIO CARVAHO
De acordo com a ONU, aproximadamente, R$ 200 bilhões por ano são desviados no Brasil pelas vias da corrupção. O SindiReceita informa que o País perde R$ 100 bi com o contrabando, por ano; em 2015 foram R$ 500 bi de sonegação; em 2016, somente no primeiro semestre, a sonegação foi de R$ 258 bi.
Cerca de 1300 contribuintes devem R$ 41 bi, que nunca são cobrados ou pagos, pois os devedores não são “joãos ninguém”, mas pesos pesados e medalhões conhecidos, que podem pagar bons advogados ou tem acesso livre a determinados gabinetes “mágicos”.
Todo esse dinheiro que é roubado e sonegado poderia ser investido no País em saúde, educação, segurança pública, nas estradas para o escoamento da produção, em projetos sociais, na ciência e tecnologia, no aumento do salário-mínimo e dos proventos dos aposentados e pensionistas, para tentar, ao menos, minorar (já que parece impossível estancar essa “sangria jucaniana” de roubos e falcatruas).
O Ministério Público Federal lançou a campanha “10 medidas de combate a corrupção e à impunidade”. Entre elas estão a criminalização do enriquecimento ilícito de agentes públicos; responsabilização dos partidos políticos e criminalização do caixa 2; aumento das penas de crime hediondo para corrupção de altos valores e prisão preventiva para assegurar a devolução do dinheiro desviado.
Se a Lava-Jato sobreviver às pressões e limpar o Brasil dos principais corruptos- inclusive alguns em altos cargos republicanos, talvez o Congresso vote a proposta pra valer.
Roubar e achacar a “viúva” se tornou o “modus operandi” da política; falta aparecer nas propostas da próxima campanha eleitoral, como se fala já do perdão ao caixa 2. Interessante que os acusados, cotidianamente, soltam declarações e notas, num tom já até decorado pelos apresentadores de TV: “as doações foram legais e aprovadas pelo Tribunal Eleitoral”, “são lícitas; o nosso partido sempre agiu de acordo com a lei…..”, e outras baboseiras. Corrupção é o efeito ou ato de corromper alguém ou algo, com a finalidade de obter vantagens em relação aos outros por meios considerados ilegais ou ilícitos. Etimologicamente, o termo “corrupção” surgiu a partir do latim corruptus, que significa o “ato de quebrar aos pedaços“, ou seja, decompor e deteriorar algo. O Brasil que o diga: está quebrado, arrasado, moído.
A corrupção na política está presente em todos os poderes do governo, como o Legislativo, Judiciário e Executivo. No entanto, a corrupção não existe apenas na política, mas também nas relações sociais humanas, como “lavar a mão do guarda” para não multar; “apressar” o andamento de um processo etc.
Daí, a indiferença como o brasileiro aceita a sua prática e, muitas vezes, tem inveja, pois não acontece com ele. Ou seja, ou é corrompido: aquele que aceita a execução da ação ilegal em troca de dinheiro, presentes ou outros serviços que o beneficiem, como trocar voto por camisa de futebol ou material de construção, dentadura ou, o “perdão eterno” por malas de dinheiro; etc. Estes indivíduos sabem que estão infringindo a lei; ou, por sua vez são coniventes: o indivíduo que sabe do ato de corrupção, mas não faz nada para evitá-lo, favorecendo o corruptor e o corrompido sem ganhar nada em troca.
Todo mês a arrecadação tributária bate recordes, o governo encosta os contribuintes na parede e suga a maior parcela dos seus recursos e tudo isso para quê? Para vermos o nosso dinheiro sendo desviado, utilizado para manter um gigantesco cabide de empregos (mais de 48 mil cargos de confiança; os EUA e Inglaterra tem 500, cada); governo propõe o PDV- programa de demissão voluntária, para alcançar 5 mil servidores, entretanto, 197 mil foram admitidos no serviço público ano passado: é piada ou cortina de fumaça para tirar o foco da corrupção “do andar de cima”?; manter o inchaço da máquina pública ou aplicado em obras que não se concluem (há mais de 10 mil paralizadas); enfim, uma grande parcela escoando pelo ralo.
A cada dois reais desviados ou desperdiçados é um litro de leite ou um pão que está sendo tirado dos esfomeados deste país!. Parece que ao longo dos anos fomos vencidos pelo cansaço, nos tornamos um povo apático ou indiferente a tudo isto. Somos pacíficos, mas não precisamos ser omissos ou alienados, que não querem enxergar a realidade, que cultuam mitos de salvadores da pátria ou santos imaculados. Em outros países por questões muito menores o povo sai às ruas protestando e cobrando os seus direitos.
Temos que limpar a administração dos maus políticos e servidores públicos que mancham a imagem da classe de servidores dedicados e íntegros; afinal, carregamos a pecha de sermos uma sociedade corrupta, indolente e não confiável, segundo a própria ONU e a Transparência Internacional, recentemente declararam. Lord Acton (inglês) afirmou que “o poder tende a corromper- e o poder absoluto corrompe absolutamente”: símbolos, distinções, privilégios e imunidades que sinalizam uma hierarquia superior, vem desde a Colônia.
O Brasil é mestre no “sabe com quem está falando”. O principal fator favorável à corrupção é o regime de governo em que não há democracia ou imprensa livre, isto é, o regime ditatorial ou autoritário. Ou democracias fracas e em crise, como o Brasil atual em que se vendem e se compram políticos e consciências.
Nestes regimes, as estruturas governamentais de tomada de decisão concentram o poder de decisão em poucas pessoas ou grupos, alguns com longa atuação, como “Sir” Sarney ou “Sir” Lula ou, os “Lordes menores”- Jucá, Renan, João Cunha, Maia; A nossa esperança é que, desta vez, não acabe em Carnaval ou pizza, mas que a PF e o “São Moro”, possam “atravessar” o samba enredo da impunidade, já que no STF as coisas andam como convém: quase parando; dos mais de 300 inquéritos e processos, mais de 90% já estão completando 10 anos. “Quanto mais corrompida a República, mais leis.”- Rui Barbosa. (*) O Autor é advogado.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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