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O GUARDA DA ESQUINA

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Por: AUREMÁCIO CARVALHO

Pedro Aleixo, Vice-Presidente do Mar. Costa e Silva, na época da Ditadura (que, aliás, foi impedido de assumir a Presidência quando o Marechal sofreu derrame que o impossibilitou de governar, sendo substituído por uma Junta Militar), dizia que “seu maior temor era o guarda da esquina”, querendo, com isso, significar o que representava a ação de um policial despreparado, agressivo e, com certeza, sabedor da impunidade de seus atos, pode causar a cidadãos indefesos; critica sutil à Ditadura.

Neste final de ano, mais um dos inúmeros episódios de morte de cidadãos por ação policial desastrada aconteceu: uma menina de 09 anos, vindo com sua família no carro, ao ser parado o veículo por dois policiais, que como mostram as câmeras já abordaram o veículo atirando, veio a falecer baleada por um dos policiais e seu pai, com um tiro na cabeça, se não morrer, terá sequelas permanentes, talvez, irreversíveis. É o guarda da esquina de Pedro Aleixo.

Pesquisa realizada no Brasil em 2016, acerca da satisfação dos brasileiros com as instituições públicas, mostrou que apenas 5,8% dos entrevistados aprovavam a atuação das forças policiais, com exceção do Corpo de Bombeiros.

Ficou acima apenas da Classe Política (5,1%). As causas da insatisfação foram apontadas: abordagem violenta e desrespeitosa; agressões; abuso de autoridade. Ou, em outras palavras: como manter controle de qualidade do serviço policial; como evitar o arbítrio, os excessos? Estas questões têm atravessado tempos e governos e chegado aos dias atuais.

São os chamados mecanismos de controle interno e externo da atividade policial, tão necessários nos dias atuais. São governamentais ou não, e variam de formas de atuação e abrangência. As unidades policiais tem suas Corregedorias internas, mas, em geral, tem dificuldades para punir os maus e despreparados policiais. 

Daí, a importância do controle externo- institucional ou social, como o MP, ONG´s, as Ouvidorias de Polícia, a mídia, as associações civis de vitimas e parentes da violência, etc. Levantamento feito pela Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas mostrou ainda a percepção que a população tem a respeito das policias brasileiras. Mais de 70% dos entrevistados ouvidos disseram não confiar na polícia.

Nos países desenvolvidos, a percepção mostrou-se diferente: nos Estados Unidos, 88% dos cidadãos confiam na polícia; na Inglaterra o índice de aprovação é 82%. A criação e a sobrevivência do Estado moderno- e por extensão, a legitimidade e legalidade da ação de seus agentes- passa pela utilização e controle dos atos de violência, de que o Estado é legítimo detentor; o Estado de Direito tem por objetivo assegurar três grandes valores: a paz, a liberdade e a Justiça; e assim, nas blitzes, nas batidas, nas barreiras, nas perseguições (fuga de pessoas já presas ou de pessoas que não atendem a ordem policial de parar), nas práticas de investigações violentas, incompatíveis com uma polícia cientifica e profissional; o uso da força (e, sobretudo, da força extrema- uso de arma) só será legalmente admitida com pressupostos e gradação (do menor para o maior ato de força/pressão física).

É preciso que o policial seja preparado, treinado constantemente, para controlar-se nessas situações, concretas e tensas. Não basta estar treinado para atirar com precisão; esta precisão deve pressupor a precisão mental dos controles seletivos das hipóteses legalmente autorizadoras; pois, um dos objetivos maiores do Estado é assegurar a segurança do cidadão e garantir a paz publica; por isso, possui o monopólio da força, e seu exercício legitimo dentro de parâmetros legais.

Ainda, é importante ressaltar que a polícia só é polícia porque é autorizada legalmente a usar a força e que força não se confunde com violência ou arbítrio A definição clássica estabelece que a polícia pode ser definida como um conjunto de pessoas que recebem autorização de um determinado grupo de cidadãos para regular as relações interpessoais dentro deste mesmo grupo por meio do uso da força física. Nessa definição, destacam-se três elementos fundamentais: autorização coletiva, força física e possibilidade de seu uso entre os membros do grupo que delegou a autorização.

O policial é, assim, o Estado em ação, pois é quem o autoriza a agir. O uso da força pela polícia deve ser entendido em sua complexidade que abarca, pelo menos, cinco níveis que vão do mais brando para o mais intenso: presença uniformizada do policial, comunicação, táticas físicas desarmadas, uso de armas menos letais e uso da força letal, como recurso extremo, não inicial nas diversas abordagens.

Entre os níveis de uso da força que estão à disposição dos policiais, a comunicação verbal é aquela que estará presente na quase totalidade dos conflitos em que o policial for chamado a se envolver. Muitas dessas situações podem, inclusive, ser solucionadas apenas com a habilidade de negociação de policiais bem preparados, como temos visto muitas vezes. O uso da força é elemento consentido da atividade policial.

É, pois, fundamental que a questão mereça especial destaque nos seus cursos de formação, principalmente vinculada com direitos humanos, ética e respeito ao cidadão, como pessoa integral. O controle sobre o uso da força passa, necessariamente, pela possibilidade da população fazer críticas, denúncias e mesmo elogios às corporações policiais. As ouvidorias de polícia, por exemplo, (como a experiência que vivenciamos em Mato Grosso (2005/2009), devem se constituir, portanto, em canais autônomos, acessíveis e eficientes para a população expressar suas demandas e opiniões sobre a atividade policial. Visando regulamentar o uso da força pela polícia e estabelecer parâmetros e limites efetivos para a ação policial, a Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas, através da Resolução nº 34/169, de 17/12/1979, adotou o “Código de Conduta para os Policiais” (Code of Conduct for Law Enforcement Officials). 

O seu art. 9º, diz:”Policiais não devem usar armas contra pessoas, exceto para se defender ou defender terceiros contra iminente ameaça de morte ou lesão grave, para evitar a perpetração de um crime envolvendo grave ameaça à vida, para prender pessoa que represente tal perigo e que resista à autoridade, ou para evitar sua fuga, e apenas quando meios menos extremos forem insuficientes para atingir tais objetivos. Nesses casos, o uso intencional e letal de arma só poderá ser feito quando estritamente necessário para proteger a vida.”. É o caminho correto.

 

 

 

(*) Auremácio Carvalho, é advogado e ex-Ouvidor Geral de Polícia de MT.

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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