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Março Amarelo: um alerta sobre a endometriose

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No mês mundial de conscientização sobre a endometriose, a campanha Março Amarelo alerta para uma doença que afeta 176 milhões de mulheres em todo o mundo e aproximadamente 7 milhões no Brasil, ou seja, 1 em cada 10. A endometriose é um problema muito frequente entre as mulheres  em período fértil e gera dores, desconforto e  infertilidade.

Trata-se de uma doença inflamatória que ataca o tecido do útero, ovários, bexiga, intestino, reto, nervos e peritônio. Localizado na parte externa do útero e responsável pela menstruação, o endométrio também pode se expandir em outras partes do corpo, como o diafragma, pleura e pulmões.

A doença ocorre quando as células endometriais crescem fora do útero. Porém, as causas da endometriose ainda não estão totalmente esclarecidas. Acredita-se que a menstruação retrógrada, o crescimento de células embrionárias, sistema imunológico deficiente e alguns tipos de cirurgia podem ajudar no desenvolvimento da doença.

No entanto, as chances de uma mulher ser diagnosticada com endometriose é maior quando já existem casos na família. Além dessa tendência genética, há outros fatores de risco associados às mudanças de vida da mulher, como começar a menstruar muito cedo, nunca ter tido filhos, ciclos menstruais frequentes, períodos de menstruação que duram muito tempo, problemas com hímen imperturbado e anormalidades no útero.

A endometriose pode ser classificada em três estágios, que são leve, moderada e grave, e possui 5 tipos: peritônio, ovariana, profunda, parede abdominal e pulmonar.

Um dos principais sintomas são as cólicas menstruais intensas e dor durante a relação sexual, mas também é possível ter dores pélvicas crônicas, sangramento intenso na menstruação, presença de nódulos ou cistos no útero, constipação, dores para urinar ou

A partir da análise do quadro clínico da paciente, o ginecologista faz o diagnóstico. Em conjunto, é feito o exame físico de toque vaginal e também costuma ser necessária a ultrassonografia transvaginal ou ressonância magnética.

Tratamento da endometriose

A terapia medicamentosa costuma ser a indicada para o tratamento da endometriose, o que se dá a partir do uso de analgésicos e anti-inflamatórios para diminuir as dores constantes. Além disso, podem ser sugeridos métodos hormonais, como o uso de anticoncepcional ou a colocação do DIU.

Quando os remédios não são efetivos ou em casos mais graves da doença, pode ser necessária a intervenção cirúrgica. O procedimento pode ser feito de forma minimamente invasiva, a partir de técnicas de vídeo, laparoscopia ou cirurgia robótica.

Ainda vale ressaltar que o tratamento da endometriose é comumente feito por uma equipe multidisciplinar, contando com o auxílio de profissionais como psicólogos. Isso, considerando que se trata de uma doença que afeta diretamente a qualidade de vida da paciente, podendo até mesmo favorecer o desenvolvimento de transtornos psicológicos em virtude dos altos níveis de estresse e situações constantes de desconforto.

Endometriose e infertilidade

É verdade que as mulheres com essa doença têm mais dificuldade de engravidar, mas não significa que são inférteis. Depois de diagnosticadas com a doença, é  importante que sigam as orientações médicas, para que a gravidez seja bem-sucedida.

Se a mulher tem o desejo de ter filhos, ela não deve adiar essa decisão e precisa começar a fazer o tratamento o quanto antes, porque a instalação da doença nos ovários pode provocar o aparecimento de um cisto chamado de endometrioma, podendo atingir grandes proporções e comprometer o seu futuro reprodutivo.

Giovana Fortunato é ginecologista e obstetra, referência em endometriose e coordenadora da residência médica do Hospital Universitário Júlio Muller 

 

Foto: Assessoria

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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