Opinião
JÚLIO, Visionários políticos são campos promissores
Opinião
Por: João Carlos de Queiroz
O nome é bem comum, porém conhecidíssimo e respeitado em Mato Grosso e fronteiras além: Júlio José de Campos. Ou simplesmente “Julinho”; denominação carinhosa, de inesgotável carisma, oriunda desde os tempos áureos de juventude. Mas, além da incrível militância em distintos cargos públicos, com votações surpreendentes, a marca impressa por Júlio Campos pode ser resumida numa única palavra: visionário
Júlio José de Campos representa lenda viva na política nacional e na forma dinâmica de administrar. Em Mato Grosso, seu nome é citado com orgulho pelos filhos natos e “paus rodados” da terra. Reconhecem, em Julinho, não apenas o homem político, mas uma referência desbravadora, idealista. Alguém sempre focado em conceber o melhor para o imenso território e seus habitantes.
A graduação política de Júlio é outro fenômeno: poucos conseguiram a proeza de ocupar praticamente todos os cargos públicos eletivos, à exceção da Presidência da República. O leque de vitórias que obteve pode ser resumido na forte credibilidade do seu nome.
Júlio Campos sempre fez por merecer o ápice dos postos eleitorais que galgou em meio a acirradas disputas: ele foi vereador e prefeito de Várzea Grande, deputado estadual/federal, senador e conselheiro do TCE – Tribunal de Contas do Estado. Para pasmo geral, ele pediu exoneração desse último cargo para retomar a vida parlamentar.
Quando governador (entre 1982/86), Júlio abriu searas intrínsecas em lugares inexplorados, tidos até então como improdutivos e mesmo impróprios à ocupação humana. A realidade atual mostrou que essa ousadia visionária estava no caminho certo: Mato Grosso iniciava então sua própria descoberta, emancipando-se rumo a progressos ininterruptos e avanços econômicos.
No dia a dia governamental, Júlio expressou inédito ritmo de trabalho intensivo, determinado a moldar Mato Grosso numa espécie de novo eldorado brasileiro. Ao lado do irmão, Jayme Veríssimo de Campos – que também governou o Estado -, o território mato-grossense baniu incertezas e pôde suprir as expectativas de seus habitantes.
Júlio jamais escondeu o grande amor que tem por sua terra natal, Várzea Grande. Ali nasceu no dia 11.12.1946, filho do empreendedor e também político Júlio Domingos de Campos e Amália Curvo de Campos. O exemplo do genitor, que governou Várzea Grande e ocupou cadeira na Casa de Leis local pelo PSD (1947 A 1966), incentivou o menino Julinho e seu irmão Jayme a se enveredarem pelo mundo político.
“A política faz parte dos nossos traços familiares, está no sangue. Associa-se naturalmente à vontade de utilizá-la sempre como instrumento preciso de benefícios à população. Um político sem esse compromisso não é político pronto. Ou melhor: sequer pode ser chamado de “representante popular”, a verdadeira missão política. O povo de Várzea Grande e de Mato Grosso inteiro nos conhece e jamais duvidou do nosso esforço de trabalhar por melhorias coletivas” – diz Júlio, emocionado.
O ex-governador Jayme Campos endossa as palavras do irmão. Jayme sempre disse que ‘governar é desafio diário de superações’. E explica pausadamente: “Acomodar é uma palavra que deve ser banida pra quem tem proposta vitoriosa frente a qualquer governo. Eu e Júlio sempre primamos pela seriedade no trato com a coisa pública. Você administra fácil se tiver essa premissa de trabalho diário. E os bons resultados não tardam a surgir. A maior recompensa é saber que Mato Grosso evoluiu em algo graças à perseverança das administrações que assumimos”. Jayme administrou Mato Grosso entre 1991/1995.
Júlio gosta de rememorar seus tempos de estudante inquieto, menino provocativo de várias discussões de interesse comum dos colegas e mesmo dos professores. O espírito político já vitalizava na personalidade em formação. “Na realidade, eu via parte do cotidiano de maneira insatisfeita. Tinha convicção de ser possível mudar algumas situações, ou seja: impor célere modernidade para expurgar práticas de visível atraso. Aquilo realmente me incomodava”.
Julinho realizou seus estudos primários no Grupo Escolar PEDRO GARDÉS (VG) e os secundários no Colégio Estadual de Mato Grosso, em Cuiabá. Posteriormente, deslocou-se para estudar em Goiás, onde fundou e presidiu a Associação do Estudante Mato-Grossense em Goiás. “Não posso dizer se essa entidade teve papel real de arrancada política, pois nem estava ainda filiado a nenhum partido. É que nunca me conformei em aceitar imposições. E o ambiente acadêmico propicia implosões do tipo”.
Em seguida, ele passou a integrar a turma de Agronomia da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho. Ali exercer o cargo de vice-presidente do Diretório Central dos Estudantes de Agronomia do Brasil (1967/1968). “Formei-me em 1969, feliz da vida. Conseguira, era engenheiro!” – comemorou. No retorno a Várzea Grande, no ano seguinte, Júlio assumiu a Secretaria de Viação e Obras Públicas da Prefeitura Municipal. Ainda foi engenheiro-chefe do Setor de Colonização e Operações da Companhia de Desenvolvimento de Mato Grosso (1971). Em 1972 ele se elegeu prefeito de Várzea Grande.
“Mas eu queria ser também professor, acredita? Lá fui eu, entre 1977 e 1978, lecionar Cooperativismo na Universidade Federal de Mato Grosso”, comenta divertido.
Conforme Júlio, o restante de sua trajetória política já aconteceu de modo automatizado, tentador: em 1988, ele concorreu a uma vaga na Câmara dos Deputados pela Arena, tendo VG como base eleitoral. “Fui eleito com 39.814 votos, maior votação do Estado. Logo após assumir o mandato, integrei a Comissão de Agricultura e Política Rural e a de Trabalho e Legislação Social da Câmara dos Deputados”.
Já nas funções de governador, ele destrinchou barreiras que impediam Mato Grosso de expandir seu potencial, inaugurando – em parceria com o governo federal – a rodovia entre Cuiabá/Porto Velho, além de várias vicinais. Também auxiliou na colonização no Norte de Mato Grosso articular a variação de programas de peso, a exemplo do POLONOROESTE.
“Em 1990, concorri a uma das vagas no Senado da República, sendo eleito com 331.212 votos. Novamente a maior votação do Estado. No Senado, presidi a Comissão de Infraestrutura e integrei a de Educação, como titular, igualmente militando nas comissões de Assuntos Econômicos e de Constituição, Justiça e Cidadania, na condição de suplente”.
Júlio Campos se notabilizou ao anunciar um programa de governo com os seguintes dizeres: “Quatro anos de Governo e 40 anos de Progresso e realizações, com pleno respeito às instituições democráticas”. O Plano Estadual de Desenvolvimento (conhecido como metas) abrangia diversos campos estratégicos do Estado, setores responsáveis pela manutenção do equilíbrio. A implantação de indústrias – e incentivos à industrialização – são responsáveis por grande parte dessa arrancada triunfante do Estado rumo às hastes progressistas, diversificando a economia estadual.
Explica-se assim, em parte, o sucesso dos governos dos irmãos Campos, com enfoque no governador precursor de célere desenvolvimento do Estado, Júlio Campos. Ambos cultuam mentalidade inovadora que se tornou prática no exercício administrativo.
Também o setor aeronáutico estadual, de instrução primária, teve apoio dos ex-governadores Júlio e Jayme Campos: o primeiro, quando senador, viabilizou a doação de aeronave argentina, via DAC (Departamento de Aviação Civil – atual ANAC), para o Aeroclube de Várzea Grande. Jayme, então governador de Mato Grosso, concedeu importante apoio logístico para a vinda da aeronave do Rio de Janeiro, além da instalação da estrutura inicial da escola formadora de aviadores civis, que teve a professora Isabel Campos na condição de presidente de Honra.
A conclamação do setor privado para participar desse evolutivo estágio desenvolvimentista foi outro fator decisivo na reviravolta promissora que o território registra na sua história embrionária com destaque pontuado na passagem dos irmãos Campos.

João Carlos de Queiroz, é jornalista
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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