Opinião
Herois da Covid
Opinião
Florence Nightingale (1820-1910) deu amplo sentido à vida. Aos 14 anos, filha de rica família, visitava aldeias inglesas e tratava pessoas pobres e doentes. A jovem e irrequieta inglesa foi escritora, estatística e, principalmente, enfermeira.
Fundou a primeira Escola de Enfermagem, em Londres, ainda hoje em funcionamento e dona de imenso prestigio internacional. Foi uma mulher excepcional, à frente de seu tempo! O dia de seu nascimento, 12 de maio, foi adotado como sendo o “Dia do Enfermeiro”.
Ana Néri (1814-1880) não veio ao mundo a passeio. Foi uma baiana guerreira e invulgar. Casada aos 23 anos e viúva aos 29, criou sozinha os três filhos. Quando eles foram convocados para lutar na cruenta Guerra da Paraguay (1864-1870), junto com eles, seu irmão e um sobrinho, Ana foi ao governador da Província da Bahia e pediu-lhe que a mandasse para o ´front´de batalha, onde serviria como Enfermeira.
Quando Cuiabá e Várzea Grande eram dois pontos perdidos na geografia continental do Brasil, povoados por uma gente boa e ainda carente de cuidados de saúde, uma jovem impetuosa, dona de férrea determinação, assombrou alguns e ganhou o coração de muitos. Recém-casada com um próspero comerciante, com quem viria a ter e educar nove filhos, ela se formou em enfermagem e, com recursos do marido e de sua família, construiu o primeiro posto de saúde de Várzea Grande.
Não era incomum vê-la montada na boléia de um caminhão indo e vindo nos bairros poeirentos das duas cidades, ou com um filho pequeno no colo enquanto atendia doentes e os encaminhava conforme suas necessidades, ou, muitas vezes, abrindo a caixa registradora do bolicho para comprar remédios e ajudar pessoas carentes, diante do olhar carinhoso do marido, um homem sabidamente bom e generoso. Seu nome tornou-se uma legenda entre os carentes, sendo querida e admirada. Dois de seus filhos foram prefeitos de Várzea Grande e governadores de Mato Grosso. Ela, com doçura e autoridade, nunca deixou de se informar sobre suas políticas de saúde e cobrar de Júlio e de Jaime resultados, como Mãe e como Cidadã. Uma mulher invulgar!
Ao mirá-la em sua cadeira de rodas, na plenitude de seus 95 anos, sabendo que semeou o bem e viveu em função dos demais, tenho imenso orgulho de ser neta de Amália Curvo de Campos, uma enfermeira.
Os hospitais de Mato Grosso e de todo Brasil são trincheiras de uma grande guerra. Precisamos vencê-la. Há em cada UTI, em cada ambulatório, em cada pronto-socorro o mesmo espírito que norteou as vidas das três combatentes: Florence, Ana e Amália. Benditos sejam os nossos médicos e médicas, todos os profissionais da saúde, especialmente, as enfermeiras e enfermeiros. Anjos de jaleco numa guerra sem trincheiras.
Laura Campos é diretora geral Grupo Futurista de Comunicação e presidente Fundação Julio Campos
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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