Opinião
Eu não sou feliz com meu trabalho, e agora?
Opinião
Por: Stephanie Romero
Todas as semanas, para não dizer quase todos os dias, aquele candidato passava na sala do Rh da empresa com seu currículo na mão. Tanto passava, que o pessoal do setor já dizia:
– Não precisa Senhor Robson (sabíamos o nome dele), já temos alguns currículos do senhor aqui. Como já lhe dissemos, não contratamos para a área da mecânica se não tiver experiência!
Mas ele insistia:
– Minha filha me dê uma chance e vocês terão o melhor mecânico que está empresa pode ter!
– Não dá senhor Robson, são as regras…
E passavam-se cerca de 5 dias e lá estava Sr. Robson mais uma vez com o currículo na mão…
– Mas minha filha…- argumentava ele mais uma vez.
Até que um dia, a Gerente de Rh, na recepção, atenta, e já ciente dos constantes aparecimentos do candidato insistente, ao reconhecer o mesmo através do argumento de sempre…
– Mas minha filha, me dê uma chance, é meu sonho! – E antes que a recepcionista pudesse mais uma vez dispensá-lo, foi surpreendida e interrompida pela gerente:
– Bom dia, seu Robson! O famoso seu Robson! Mas infelizmente como já lhe foi dito várias vezes, ter experiência técnica na área é pré-requisito para a vaga! Infelizmente aqui o senhor não vai realizar seu sonho. Talvez em um futuro, quando o senhor tiver essa preparação. Minha dica é: busque se qualificar e volte a nos procurar, quem sabe na próxima!
-Mas dona, pode ser em qualquer vaga, eu só preciso de uma oportunidade pra um dia poder ser um mecânico aqui!
A gerente e a recepcionista suspiram e se entreolham
– Ok, disse a gerente. – O que você sabe fazer?
Senhor Robson olha nos olhos dela. Impera o silêncio por alguns minutos, infla o peito de coragem e diz:
-Eu acompanho vocês há muito tempo, e vi que estão com uma vaga de faxineiro. EU SEI VARRER! Se você me der uma chance, vocês terão o melhor faxineiro que um dia já tiveram. Finaliza com um tom motivado e os olhos brilhando!
Pela sua insistência Robson foi contratado.
Adivinha o que aconteceu?
Robson varreu, varreu e varreu por muitos meses. Poderia realmente se dizer que cumpriu sua promessa. Alguns chegavam a brincar: “Cuidado Robson! Vai furar o chão!”
E a cada oportunidade, a cada limpeza que tinha nos setores da empresa ele se esforçava e aplicava sua agilidade para que na oficina ele pudesse se demorar um pouco mais, observando aqueles mecânicos vestidos de branco, alguns poucos com identificações especiais em seus uniformes, reconhecidos pela fábrica que os apresentavam ao grupo e clientes como os melhores, os mais preparados.
E no setor da mecânica, Robson estava sempre atento a cada movimento. Observador e sonhador.
Após quase completar 2 anos na empresa, Robson foi promovido. Havia surgido a tal vaga de auxiliar de mecânico. O primeiro passo para o seu sonho, mas para sua surpresa, após se candidatar para a vaga e receber como resposta do Rh que ele teria que aguardar um treinamento, pois a vaga exigia experiência, o encarregado do setor da mecânica fez sua intervenção, dizendo que poderia, sim, contratá-lo.
E ali, Robson deu mais um passo na sua carreira, mostrando o seu melhor! E em 5 anos, após muito esforço, foco, observação e atitude, ele se tornou o Encarregado do Setor!
Foi reconhecido e premiado pela empresa e pela fábrica, várias vezes. Chegou a ser aplaudido e notado nacionalmente pelos seus serviços. Se tornou uma autoridade no assunto!
A história de Robson é uma inspiração, principalmente para você, que ao olhar sua carreira, sente-se um pouco insatisfeito, um tanto decepcionado, talvez tenha um sonho e acha que ele está muito longe de você. Por isso, sempre digo: dê o primeiro passo, tenha foco e seja persistente!
Outro dia, estive com um colaborador de uma empresa, que ocupava um cargo tendo um desempenho muito abaixo do esperado. Ele estava naquela faixa crítica dos funcionários irrecuperáveis e na lista dos que serão demitidos.
Após solicitação da diretoria para ouvi-lo, fomos surpreendidos, pois o colaborador tinha um currículo incrível. Duas faculdades concluídas em instituição federal renomada, nas quais passou em primeiro lugar em ambas, e uma insatisfação imensa de não estar atuando na área que se formou.
Com o discurso desolador e desmotivador:
– Eu não tinha o que fazer. Foi o que apareceu e eu precisava trabalhar!
Praticamente irrecuperável, se não ampliar seu campo de visão!
Se não assumir a responsabilidade pela sua carreira!
É claro que há momentos na vida, nos quais realmente não temos o que fazer, pois as circunstâncias nos obrigam a nos ajustar ao que se apresenta, a adiar um sonho.
Comece de onde você estiver, ali é o primeiro degrau e você terá que passar por ele.
Mas não seja medíocre! Não seja passivo! Por favor, não se perca ou se acomode neste caminho, não seja um coitado vítima da vida cruel!
A vida é maravilhosa e está esperando você assumir a responsabilidade sobre ela! A vida é maravilhosa, mas “domá-la” não será possível sem entrega, sem sacrifício, sem dedicação!
Cuide do seu caminhar, meu amigo! Cuide dos seus sonhos!
Se você não fizer isso, dificilmente a “sorte” poderá ajudar você!
Como já dizia Chico Science: “Dê o primeiro passo e não estará mais no mesmo lugar!” E como dizia a peixinha Dory, daquele desenho super fofo – Procurando Nemo:
“Continue a nadar! Continue a nadar! Continue a nadar!”
Pare para respirar, para se orientar e analisar: no mais, não pare!
Cynthia Lemos é Psicóloga Empresarial e Coach na Grandy Desenvolvimento Humano. Especialista no Desenvolvimento de Líderes e Empresas tem a missão de: Expandir a Consciência e Gerar Ações Transformadoras – para pessoas e empresas que desejam evoluir em seus projetos e objetivos. Email: cynthia@grandy.com.br
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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