Opinião
Contrata-se: Quando o provisório se torna permanente
Opinião
Por: Cynthia Lemos
Cada um tem o seu lugar.
Apesar de ver que algumas pessoas ainda se encontram a questionar se realmente têm dom para alguma coisa, se sabem fazer alguma coisa, eu quero aqui dizer:
Sim! Todos sem exceção temos um caminho.
Por um lado temos a empresa, que muitas vezes faz a contratação sem uma análise mais criteriosa do cargo em aberto, primeiro se deve questionar:
Qual a função do cargo em questão?
Qual a função se deve cumprir para que minha empresa chegue lá?
Assim, qual o perfil que essa pessoa precisa ter?
Quais tipos de conhecimentos mínimos são necessários para exercer as tarefas que o cargo exige?
Quais habilidades precisar dominar? Quais atitudes que esta pessoa precisa ter, para que o setor atinja os resultados.
Com essas perguntas mais esclarecidas, podemos por parte da empresa, facilitar mais a escolha do perfil ideal para a função em aberto.
Por outro lado, o mesmo movimento precisa ser feito pelo candidato que está na busca de colocação ou recolocação no mercado.
Assim como a empresa, é muito importante também, que o candidato tenha claro pra si quais são seus objetivos profissionais, e deve pensar se estes estão alinhados e “conversam” com os objetivos e expectativas pessoais. Dessa forma se define o primeiro passo de forma estratégica, e na sequência o segundo, terceiro e quarto são feitos.
Quem aqui se lembra da história do Robson? Escrevi sobre ele no artigo anterior, o candidato que queria ser mecânico, mas não tinha perfil ainda, e se dispôs a iniciar sua jornada como faxineiro em uma empresa, na qual possuía o setor de mecânica, visando os passos seguintes.
Assim, quando for em busca, é muito importante responder antes alguns questionamentos:
No que gostaria de me ver fazendo/ trabalhando para o resto da minha vida, enquanto tiver força e energia?
Quais são as maiores habilidades que tenho, ou facilidades?
Como é meu perfil?
Sou mais organizado/estruturado, sonhador/ criativo?
Gosto mais de estar no meio de pessoas, conversando, me relacionando? Sou mais introvertido?
Sou de execução, às vezes ansioso, impulsivo até, mas não deixo para amanhã o que precisa ser realizado hoje?
Quem sou eu? A partir das respostas a essa pergunta, o próximo passo importante seria: No cargo que estou me candidatando, meu jeito de ser e expectativas “conversam” com as expectativas desta oportunidade? Vou ter facilidade em desenvolver, desempenhar, ou terei que me esforçar muito mais, pois não está dentro da minha zona de facilidade e controle?
A próxima reflexão a ser feita, crucial e matadora: Se eu for contratado, serei feliz fazendo isso que estou me predispondo? Se não for feliz, pelo que ou por qual conquista estarei me sacrificando temporariamente?
Preste atenção nessas perguntas!
Não vou repeti-las mais uma vez, por isso, verifique o quanto as respostas a elas farão sentido pra você!
Para a empresa:
Se contratar este perfil, dentro do que ele ainda precisa desenvolver, eu tenho predisposição para ensinar e aguardar amadurecer? Quanto tempo eu tenho? É real dentro do perfil do candidato que se apresenta? Essas respostas são tão importantes quanto as primeiras.
Aqui muitas vezes estão os pontos de decisão, se estou fazendo a escolha certa (seja empresa, seja candidato), ou se estou só tampando um buraco, como muitas vezes fazemos em algumas situações na vida, tomando atitudes provisórias, que às vezes são necessárias sim, como no caso do Robson relatado acima, mas que como este mesmo caso, só terão utilidade se usadas de forma estratégica, como uma ponte e realmente provisória. Se usada de forma permanente e insistente, provavelmente farão a empresa e o profissional paralisarem e então regredirem.
Darei um exemplo prático e metafórico para compreensão do que digo acima.
Certa vez fui fazer uma palestra em um lugar e no meio do evento o ar condicionado começou a pingar dentro da sala. Precisava de uma ação provisória. Inicialmente um pano e um rodo, para secar a aguaceira e posteriormente um balde para armazenar o vazamento até que o próximo passo necessário fosse feito, chamar o técnico para limpeza e correção. Ação não realizada nas próximas cinco idas àquele lugar no período de 4 meses. Resultado: o aparelho parou de funcionar. Pifou. Neste momento o técnico foi chamado. Qual o risco? Talvez o de não se reverter mais o problema. Não sei o que houve com aquele ar condicionado, mas o acontecimento me fez pensar sobre as atitudes, que deveriam ser provisórias e estratégicas para o próximo passo certeiro a ser feito, mas que infelizmente pela passividade e acomodação se tornam permanentes.
Às vezes isso acontece na vida profissional de muitos e em muitas empresas por parte de alguns líderes.
Analise a si mesmo! Como estão suas escolhas? Quais arranjos provisórios por acomodação estão perdurando no tempo? O quanto isso tem barrado (sem perceber), paralisado e até lhe puxando para trás nos avanços, que você precisa dar na vida? E quantas vezes você empresa, na busca por resultados e prosperidade, ficou estagnada por falta de coragem de tomar atitudes de impactos mais profundos, das mudanças necessárias? Convido você profissional e empresa a pensarem nisso!
Cynthia Lemos é Psicóloga Empresarial e Coach na Grandy Desenvolvimento Humano. Especialista no Desenvolvimento de Líderes e Empresas tem a missão de: Expandir a Consciência e Gerar Ações Transformadoras – para pessoas e empresas que desejam evoluir em seus projetos e objetivos. Email: cynthia@grandy.com.br
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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