Opinião

Clóvis Matos: este Papai Noel mereceu uma Nissan Frontier de presente!

Publicado em

Opinião

Numa iniciativa aplaudida por todos os brasileiros, o apresentador Luciano Hulck (Globo) veio a Cuiabá especialmente para entrevistar e presentear o historiador Clóvis Matos com uma Nissan Frontier repleta de livros. Matos é o Papai Noel tradicional da capital mato-grossense. Mas também realiza, por puro idealismo, belíssimo projeto de inclusão literária, distribuindo livros em todo o Estado…

 

Assisti ontem (23), em Cuiabá, uma das mais belas reportagens feitas pelo apresentador Luciano Hulck, da Rede Globo de Televisão. Justamente a cidade escolhida por Luciano para entrevistar o lendário Papai Noel da capital mato-grossense, o historiador Clóvis Matos, ainda hoje membro do quadro funcional da Universidade Federal de Mato Grosso.

Apesar de morar em MT há tempos, Clóvis é procedente das terras mineiras. Mas, sem hesitação, deixa entrever na sua fisionomia serena o ilimitado amor que cultua pelo Estado e seus habitantes.

No geral, a história do humilde professor Clóvis Matos é simples, lindíssima. Teve uma infância normal, de convívio amoroso com pais e irmãos. Na juventude, esforçou-se para concluir os estudos universitários; depois, formou família, concebeu filhos, hoje já adultos.

No quintal da casa, Clóvis exibiu várias coleções de livros. Muitas, ainda no espaço dos bancos traseiros de sua velha Kombi. Veículo que, durante anos, utilizou para levar o hábito da leitura às comunidades mais carentes de Mato Grosso

Atualmente, “nosso” Papai Noel reside numa casa cedida por amigo; imóvel espaçoso, porém sem luxo. Uma vida solitária, preenchida com contínuos deslocamentos a comunidades carentes; nesses lugares, ele distribui milhares e milhares de livros gratuitamente no decorrer do ano, faça sol, chuva, frio, calor…

Clóvis tem feito isso ao longo dos últimos 12 anos, sem deixar de lado as atividades cineclubísticas na Universidade, pelas quais tem paixão idêntica. Já foi roteirista, diretor e produtor de várias películas Estado afora, produções centradas mais no dia a dia das comunidades de estrutura social frágil e temas geralmente ligados à cultura. As mesmas comunidades que recebem seus livros há anos, muitos adquiridos com recursos próprios, provenientes dos proventos limitados na UF. 

Lágrimas nos olhos, Clóvis disse ao apresentador Luciano Hulk que seu maior desejo é ir mais longe, a fim de intensificar essa distribuição de livros. O simpático Papai Noel, que conheço pessoalmente e admiro, nem fez menção às dificuldades de transportar a carga de livros na velha Kombi, companheira de labutas estradeiras. Luciano indagou e ele confirmou, sem-graça, que algumas vezes a heroína veicular não teve forças para vencer  todos os obstáculos das estradas pantaneiras, prostrando-se a meio caminho. 

Luciano, simpatia peculiar que já conquistou o País, informou a Clóvis Matos que seu problema de deslocamento com livros, para lugares longínquos de MT, estava resolvido a partir daquele instante. Nesse momento, a equipe do programa adentrou com uma Nissan Frontier 2018, novíssima. pelo portão da casa. Mais lágrimas umedeceram e mudaram a tonalidade azul dos olhos desse Papai Noel cuiabano para um tom avermelhado, nítida emoção de agradecimento.

Clóvis é um dos grandes exemplos de cidadão brasileiro, idealismo vigente no sangue. O apresentador Luciano Hulck, sem qualquer sensacionalismo, também captou isso e soube retribuir o generoso esforço idealista de Clóvis, em nome de todos nós!

COMENTE ABAIXO:
Propaganda
Clique para comentar

Você precisa estar logado para postar um comentário Login

Deixe uma resposta

Opinião

O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

Publicados

em


A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTE

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA