Opinião
Amizade e Liderança no Trabalho, é possível?
Opinião
Por: Cynthia Lemos
Um grupo de funcionários conversavam na frente da sala de reuniões. Todos aguardavam a permissão do diretor para que pudessem entrar e participar da reunião geral da semana. Sandra a gerente do RH, chegou e se aproximou da roda formada pelos gerentes operacionais Juliano, Denovan, e da gerente comercial, Lucy.
Antes de revelar qual era o assunto tão comentado no grupinho, preciso lhes contar a história de Sandra. Há cinco anos, ela trabalha na empresa, começou como analista e conquistou seu espaço tornando-se gerente do RH. Nesse período obteve o respeito e admiração de todos, pelos resultados alcançados e principalmente por sua postura.
Ela sempre dizia: “Um líder deve se relacionar com sua equipe, seus pares e superiores sempre com muito profissionalismo, jamais o pessoal deve permear essas relações, a ponto de se perder o controle e prejudicar a condução das tarefas, processos e empresa”.
Mas tanta rigidez a fez sentir-se solitária. “Poxa, têm algumas pessoas aqui que eu gostaria mesmo de ter amizade. Vejo que alguns gerentes conseguem se relacionar fora da empresa com seus pares. Têm algumas pessoas aqui que gosto tanto! Gostaria de conviver mais, de sair, convidar para ir na minha casa. Acho que não preciso ser tão dura assim”, pensava a gerente do RH.
E a partir daquele diálogo interno, permitiu ser mais flexível e neste movimento resolveuaproximar – se de Lucy, uma pessoa fantástica, alto-astral, a gerente comercial da empresa.
Sandra começou compartilhar sua vida pessoal, dificuldades, limitações e ouvir Lucy também nos mesmos aspectos. Em pouco tempo estavam a frequentar uma a casa da outra, a apresentar ambas seus maridos e filhos, a irem aos mesmos lugares.
Sandra estava feliz, pois era bom saber que aquela ideia que tanto pregava, de não ter vínculos de amizade dentro do ambiente de trabalho, ser imparcial, podia ter sua exceção quando se tratava dos pares que estavam no mesmo nível de hierarquia que o seu.
Desta forma, não correria o risco de ser julgada erroneamente,por exemplo de beneficiar algum membro da equipe por amizade ao invés de mérito, algo que via com certa frequência na empresa por parte de algumas equipes em relação à seus líderes.
Quando chegava ao trabalho, Sandra sempre procurava tratar Lucy com muito profissionalismo, de modo que pudesse evitar qualquer interpretação que ferisse os seus valores, pois pra ela o profissional deve saber diferenciar sua postura nos relacionamentos pessoais e profissionais.
Voltamos agora naquela roda de conversa no início da história.
“Olha quem chegou! Ainda bem! Sandra ajuda a gente hoje com o chefe, fala pra ele pegar leve nas metas!”, disse Denovan com uma risadinha.
“Esquece Denovan! Até parece que você não conhece a Sandra, sabe que ela não toma partido de ninguém, ainda é perigoso acontecer o contrário,dela concluir que a meta está baixa e dizer para o chefe que pode aumentar! Fica quieto que você ganha mais!”, retruca Juliano, com outra risadinha.
É neste momento então que Lucy, gargalhando dispara: “Isso vale pra vocês meninos, não para mim que sou amiga dela!”
Sandra sente sua barriga gelar, encara Lucy e prontamente responde:“Aqui não sou amiga de ninguém. Dentro da empresa acima de qualquer coisa, sou uma profissional e amizade não entra”.
Depois deste fato, Sandra optou por romper o relacionamento pós-expediente com Lucy, pois percebeu que não se tratava somente de administrar-se, tinha a parte do outro, o qual ela não tinha como controlar, somente observar. Sandra não podia correr o risco de comprometer a sua credibilidade, de uma equipe a qual ela representava e até de uma empresa, devido a uma atitude segundo ela egoísta e negligenciada. Ali onde não sabia o que fazer, preferiu se afastar.
Mesmo após essa experiência, Sandra preferiu se manter mais flexível do que antes, no entanto entendeu que a liderança naturalmente é um lugar solitário e para que alguns valores permaneçam blindados, assim deve permanecer muitas vezes.
Essa história é apenas o fragmento de uma pequena situação, corriqueira, mas que se não gerenciada, observada e “cuidada”, pode colocar em “xeque” toda a credibilidade de um profissional, de um setor e até de uma empresa.
Existem líderes que conseguem ter relacionamentos de amizade mais profundos e ao mesmo tempo,ambos líder e liderado, diferenciarem os momentos em que feedbacks precisam ser feitos, tarefas precisam ser cobradas, decisões precisam ser tomadas e seguem tranquilamente. Estes que conseguem encontrar esse ponto são poucos. E o caminho só é encontrado testando, afastando, administrando conflito, estando bem atento e principalmente com muita maturidade e inteligência emocional.
Essas preocupações que ocupam a cabeça de Sandra e de alguns líderes são comuns. Pois, como costumo dizer que não se deve ser nem “8 nem 80”.
Em meus treinamentos é comum ouvir Líderes, alguns com alguns questionamentos:”Eu não sei como lidar, eu era amigo deles. Agora sou o coordenador. Eu não quero que eles digam o que o cargo subiu na cabeça, mas eu preciso que eles cumpram as metas. Porque o sucesso do nosso setor depende disso, depende deles entenderem que as cobranças não são pessoais.”
Muitas vezes, por medo de perder a liderança, alguns profissionais atuam no extremo de não terem qualquer tipo de relação e assim acabam por nãoconhecer a equipe, saber quem é cada membro, seus sonhos, objetivos, estrutura, suas limitações, suas maiores qualidades, pois para que se tenha essas informações é preciso ter a confiança da equipe, e confiança só se conquista através de relacionamento. Assim a opção de não se relacionar não é a saída para que a liderança seja blindada, muito pelo contrário, essa atitude fria, distante faz com que muitas vezes a equipe também se torne séria demais, fria, talvez até insegura, desmotivada e desconectada.
É necessário ter um equilíbrio, o gestor deve se relacionar, criar conexão e conviver com seu time, mas de forma que a convivência pessoal, não interfira no relacionamento profissional.
“Nem 8 ou 80”.
O ponto ideal?
Só percorrendo o caminho, e nesse muitas vezes o líder se sentirá solitário e isso é natural, faz parte do processo onde alcançar o ponto somente com muitaobservação de si, do outro e do meio para que sejam realizados os ajustes.
E você? Conte aí? Já passou por isso? Quais têm sido suas atitudes de ajuste?
Cynthia Lemos é Psicóloga Empresarial e Coach na Grandy Desenvolvimento Humano. Especialista no Desenvolvimento de Líderes e Empresas tem a missão de: Expandir a Consciência e Gerar Ações Transformadoras – para pessoas e empresas que desejam evoluir em seus projetos e objetivos. Email: cynthia@grandy.com.br
Opinião
Saúde mental é inegociável
O que aprendi em 10 anos liderando a pauta de saúde mental? Durante a última edição do Vittude Summit, subi ao palco diante de cerca de 1.800 pessoas e lembrei do primeiro evento que realizamos, em janeiro de 2020. Na época, a expectativa era reunir 200 participantes para discutir saúde mental no ambiente corporativo. Muitos acreditavam que ninguém apareceria: o evento recebeu 280 pessoas.
Poucos meses depois, a pandemia transformou definitivamente a forma como as empresas passaram a enxergar o tema. O que antes era tratado como assunto secundário passou a ocupar espaço nas agendas das lideranças. Em poucos anos, vimos crescer rapidamente o interesse das organizações por estratégias estruturadas de promoção da saúde mental.
Os números que não podem mais ser ignorados
Em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos por transtornos mentais, o maior número da série histórica e o terceiro ano consecutivo de crescimento. O dado, porém, mostra apenas parte do problema. Ele considera apenas afastamentos superiores a 15 dias, deixando de fora atestados mais curtos e um fenômeno igualmente preocupante: o presenteísmo, quando o colaborador está presente, mas não consegue desempenhar plenamente suas atividades.
No Censo de Saúde Mental da Vittude, realizado com 175 mil trabalhadores de 35 grandes corporações, identificamos uma perda média de produtividade de 32%. Em outras palavras, de cada R$ 100 investidos em folha de pagamento, cerca de R$ 32 deixam de se converter em trabalho efetivo em função do adoecimento emocional. Ou seja, são perdas financeiras e humanas.
O papel da segurança psicológica
Um dos principais achados do estudo foi a relação direta entre segurança psicológica e saúde mental. Entre os colaboradores que relataram baixos níveis de segurança psicológica, todos os indicadores analisados pioraram significativamente. A ideação suicida passou de 14,75% para 19%, enquanto a propensão ao burnout saltou de 5,94% para 21%. Já entre aqueles que percebiam altos níveis de segurança psicológica, a propensão ao burnout foi praticamente nula.
Esses dados mostram que boa parte do adoecimento está concentrada em ambientes onde as pessoas não se sentem seguras para pedir ajuda ou expressar opiniões. Por isso, saúde mental não depende apenas da oferta de benefícios. Depende, principalmente, da cultura organizacional.
A prevalência de ideação suicida entre os trabalhadores avaliados no Censo (14,75%) foi inferior à observada na população brasileira em geral (18%, segundo estudo do Instituto Cactus). Isso mostra que o trabalho pode funcionar como fator de proteção quando oferece pertencimento, reconhecimento e relações saudáveis.
O problema é que muitos ambientes ainda não oferecem essas condições. Com a atualização da NR-1 já em vigor, o gerenciamento dos riscos psicossociais passou a integrar oficialmente as responsabilidades das empresas.
O que aprendemos na prática
Ao longo desses dez anos, ficou claro que os programas de saúde mental mais efetivos compartilham uma característica: método. Não basta contratar fornecedores ou oferecer benefícios. É preciso diagnosticar riscos, definir prioridades, acompanhar indicadores, testar iniciativas e envolver a liderança de forma consistente durante todo o processo.
Foi dessa experiência que surgiu o Método VITAL — Verificar, Idealizar, Testar, Amadurecer e Liderar — desenvolvido a partir do trabalho com organizações de diferentes setores. O aprendizado é simples: iniciativas isoladas dificilmente produzem mudanças duradouras.
Promover saúde mental exige planejamento, acompanhamento contínuo e compromisso da liderança.
Em dez anos, a pauta amadureceu.
Hoje, o cenário é diferente. Líderes, profissionais de RH, médicos do trabalho e executivos passaram a discutir segurança psicológica, riscos psicossociais e saúde mental com uma frequência que parecia improvável poucos anos atrás.
A atualização da NR-1 consolida essa mudança. E depois de uma década acompanhando essa transformação, vejo que chegamos a um ponto de virada. Ainda há muito a fazer, mas, pela primeira vez em muitos anos, há uma combinação de conscientização, evidências e compromisso institucional capaz de acelerar essa mudança. E isso, sem dúvida, é motivo de esperança.
* Tatiana Pimenta CEO da Vittude
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