Agricultura
Reino Unido mantém portas abertas à carne brasileira em meio a tempestade comercial
Agricultura
O ponto central da divergência com a União Europeia não é a existência de contaminação, mas a capacidade do Brasil de comprovar fiscalização, rastreabilidade e conformidade sanitária. Em abril deste ano, o Ministério da Agricultura (Mapa) publicou portarias proibindo parte dos medicamentos questionados, mas abriu uma janela de 180 dias para que empresas esgotem estoques, extrapolando a data-limite de setembro imposta pela UE.
Um parecer técnico do próprio Mapa, datado de março, afirmou que os controles brasileiros eram “insuficientes” para atender à legislação europeia, uma vez que o sistema depende de autodeclaração dos produtores. Para voltar à lista de países autorizados, o Brasil precisará comprovar que cumpre integralmente as regras europeias durante todo o ciclo de vida dos animais exportados, o que exige rastreabilidade detalhada da cadeia produtiva e custos adicionais para produtores e frigoríficos.
Isan Rezende, presidente do IA
O alívio britânico, porém, não pode mascarar a dimensão da crise que se abate sobre as exportações de carne bovina brasileira, lembrou o presidente do Instituto do Agronegócio (IA), Isan Rezende. Ele considerou a decisão britânica positiva, mas advertiu que ela não pode ser lida como uma solução estrutural.
“O Reino Unido deixou claro que vai fazer o dever de casa dele, avaliar nossos controles e só então decidir. Isso é bom, porque mostra que o diálogo técnico ainda funciona, mas não podemos confundir uma trégua com uma vitória. O Brasil está há meses sabendo que a UE questionava o uso de antimicrobianos, e o que a gente viu foi um governo publicando portarias em cima da hora, com prazos de transição que não respeitam o calendário comercial do bloco. O produtor rural não pode ficar refém de decisões externas e pontuais, de um governo britânico que hoje decide uma coisa e amanhã pode mudar de ideia, ou de uma União Europeia que já bateu o martelo. Precisamos de regras claras, estáveis e que sejam cumpridas de verdade, não apenas no papel”, comentou Isan.
Rezende ressaltou que o agronegócio brasileiro tem condições de atender às exigências dos mercados mais exigentes, mas falta coordenação entre os órgãos públicos e o setor produtivo. “Ninguém aqui está pedindo para abrir a porteira e deixar o produtor fazer o que quiser. O que a gente cobra é pragmatismo. O Mapa tem bons técnicos, o setor privado investe em rastreabilidade, mas falta uma política sanitária que olhe para o mercado e não apenas para o curto prazo. A gente não pode depender de uma avaliação favorável do Reino Unido para manter as exportações. O Brasil precisa ter um sistema tão robusto que, seja lá quem for que sentar para negociar, a resposta seja a mesma: o produto está dentro da norma, comprovação em mãos, sem autodeclaração, sem gambiarra”, disse.
O dirigente do IA concluiu cobrando do governo federal uma postura mais proativa e menos reativa. “O que a gente viu nos últimos meses foi o governo correndo atrás do prejuízo. Tarifa dos americanos, bloqueio da europeia, agora uma avaliação britânica. A cada crise, uma portaria de emergência, uma reunião, um acordo de última hora. Isso não é gestão. O produtor rural precisa de previsibilidade para investir, para fazer o manejo correto, para escolher os insumos que o mercado aceita. O governo precisa sentar com o setor, definir um cronograma realista de adequação sanitária e colocar recursos onde a conta chega: na fiscalização, na rastreabilidade, na capacitação do produtor. Não adianta exportar para 170 países se a gente está sempre a um passo de perder os que pagam melhor”, completou.
Agricultura
Brasil importa 73% das vacinas contra doença fatal no gado
O Brasil colocou no mercado 9,98 milhões de doses de vacinas contra clostridioses em agosto, mas quase três em cada quatro vieram do exterior. Os dados mostram que a oferta mensal se manteve próxima de 10 milhões de doses, enquanto a produção nacional perdeu participação e aumentou a dependência das importações para proteger os rebanhos.
Segundo o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), 7,30 milhões de doses disponibilizadas no mês passado foram importadas, o equivalente a 73,16% do total. As fábricas brasileiras forneceram 2,68 milhões de doses, ou 26,84%.
Em julho, haviam sido colocadas no mercado 10,16 milhões de doses, das quais 60,31% eram importadas. Na passagem de um mês para o outro, a oferta total diminuiu 1,7%, mas a produção nacional caiu aproximadamente 34%. As importações cresceram 19% e sustentaram o abastecimento.
O balanço não significa necessariamente que as vacinas chegaram de forma regular a todas as regiões. O número divulgado pelo governo corresponde às doses liberadas para comercialização, e não à quantidade efetivamente vendida, distribuída em cada Estado ou aplicada nos animais.
O acompanhamento mensal começou depois de uma escassez registrada no início do ano. Fabricantes interromperam a produção e a comercialização de imunizantes entre o fim de 2025 e janeiro de 2026, reduzindo a oferta em um mercado já concentrado. Desde então, o governo passou a acelerar a análise de lotes importados e a negociar com as empresas a ampliação da produção.
As clostridioses não são uma única doença. O nome reúne diferentes enfermidades provocadas por bactérias do gênero Clostridium e, principalmente, pelas toxinas produzidas por esses microrganismos. Entre as mais conhecidas estão o botulismo, o carbúnculo sintomático, chamado no campo de manqueira, a gangrena gasosa, a enterotoxemia e o tétano.
Essas bactérias conseguem formar esporos resistentes, que permanecem por longos períodos no solo, na água, em restos de animais e no ambiente das propriedades. Em determinadas condições, os microrganismos se multiplicam ou produzem toxinas que atingem o sistema nervoso, os músculos ou o aparelho digestivo dos animais.
No botulismo, a toxina provoca paralisia progressiva, dificuldade para caminhar e engolir e, nos casos graves, parada respiratória. A contaminação pode ocorrer pelo consumo de água ou alimento impróprio e pelo contato com restos de animais em pastagens, silagens ou suplementos.
O carbúnculo sintomático atinge principalmente bovinos jovens e bem alimentados. A doença provoca febre, dificuldade de locomoção e inchaço dos músculos. A evolução é muito rápida e a mortalidade pode se aproximar de 100%. Em muitas ocorrências, o animal é encontrado morto antes que o produtor perceba sinais claros.
A enterotoxemia está associada à produção de toxinas no intestino e pode surgir após mudanças bruscas na alimentação, especialmente em sistemas intensivos. O tétano e a gangrena gasosa estão relacionados à contaminação de ferimentos, inclusive aqueles provocados por procedimentos de manejo.
As clostridioses geralmente não se espalham entre os animais da mesma forma que uma virose altamente contagiosa. O risco está na presença dos agentes no ambiente e na dificuldade de tratamento. Como a evolução costuma ser rápida, a vacinação preventiva é considerada a principal forma de controle.
O prejuízo começa com a morte do animal, mas não termina nela. O produtor perde o valor investido em genética, alimentação, medicamentos, mão de obra e tempo de criação. Também pode ter gastos com diagnóstico, descarte da carcaça, atendimento veterinário e revisão do manejo sanitário e nutricional.
Pelos preços atuais, um bezerro vale cerca de R$ 3,4 mil. Um bovino terminado com 18 arrobas pode superar R$ 6,2 mil, considerando a cotação do boi gordo próxima de R$ 347 por arroba. Em confinamentos, a perda inclui ainda toda a alimentação consumida até o momento da morte, o que torna o prejuízo maior conforme o animal se aproxima do abate.
Levantamentos realizados em confinamentos colocam as clostridioses entre as principais causas sanitárias de mortalidade. Em propriedades sem vacinação adequada, surtos de botulismo ou manqueira podem atingir vários animais em poucos dias e comprometer o resultado de um lote inteiro.
Não existe uma estimativa oficial consolidada do prejuízo anual provocado por essas doenças em todo o País. O impacto nacional ocorre pela soma das mortes nas propriedades, da menor produção de carne e leite e do aumento das despesas sanitárias. Diferentemente da febre aftosa, as clostridioses não costumam provocar o fechamento generalizado de mercados internacionais, mas reduzem a eficiência econômica da pecuária.
Com um rebanho de aproximadamente 238 milhões de bovinos, além de milhões de ovinos e caprinos que também podem ser imunizados, o Brasil precisa de oferta contínua. Uma única aplicação nem sempre completa a proteção. Animais vacinados pela primeira vez geralmente precisam de dose inicial e reforço, conforme a idade, o produto utilizado e a orientação do médico-veterinário.
Por isso, não é possível comparar diretamente as quase 10 milhões de doses liberadas em agosto com o tamanho total do rebanho e concluir que o volume é suficiente ou insuficiente. A necessidade varia ao longo do ano e depende do histórico de vacinação, da categoria animal e dos riscos presentes em cada propriedade.
A retomada das importações reduziu o risco imediato de falta, mas a queda da produção nacional mantém o setor exposto a atrasos logísticos, oscilações cambiais e problemas nos países fornecedores. O desafio agora é garantir que a oferta permaneça regular e chegue às regiões pecuárias antes de ocorrerem falhas nos calendários de imunização.
O Mapa informou que trabalha com a indústria para ampliar a fabricação no País, viabilizar as importações e acelerar a fiscalização e a liberação dos produtos. Para o produtor, a orientação é não substituir ou adiar o protocolo por conta própria e procurar o médico-veterinário responsável para definir a vacina e o calendário adequados ao rebanho.
Fonte: Pensar Agro
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