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Fim do uso da biomassa nativa abre corrida para plantar mais de 400 mil ha de eucalipto

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As agroindústrias de alto consumo energético instaladas em Mato Grosso terão de abandonar o uso de biomassa de floresta nativa até 2035, conforme acordo firmado pelo governo estadual e pelo Ministério Público de Mato Grosso. A mudança pode obrigar o Estado a plantar mais 407 mil hectares de eucalipto até 2028 para garantir madeira suficiente quando o novo limite entrar em vigor.

O prazo foi estabelecido em um acordo firmado em junho pelo governo estadual e pelo Ministério Público de Mato Grosso (MPMT). A medida atinge diretamente as usinas de etanol de milho, que utilizam cavacos de madeira para alimentar as caldeiras responsáveis pela geração de vapor e energia.

O desafio começa pela diferença entre a oferta atual e o consumo projetado. Mato Grosso possuía 165 mil hectares de eucalipto no fim de 2025, segundo o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). No cenário de maior demanda, seriam necessários 572 mil hectares para atender somente às usinas de etanol de milho.

Como o eucalipto demora aproximadamente sete anos para chegar ao primeiro corte, a floresta que abastecerá as indústrias em 2035 precisa começar a ser formada até 2028. O investimento necessário poderá variar de R$ 7,6 bilhões a R$ 14,3 bilhões, conforme a produtividade das árvores e a eficiência energética das fábricas.

As usinas de etanol de milho instaladas no Estado têm capacidade para produzir cerca de 8 bilhões de litros por ano. Se todas utilizassem exclusivamente eucalipto hoje, seriam necessários aproximadamente 383 mil hectares plantados, mais que o dobro da área existente.

A necessidade será maior com a expansão da indústria. Mato Grosso poderá alcançar capacidade de 12 bilhões de litros de etanol de milho em 2030. Em um cenário de eficiência intermediária das caldeiras, o abastecimento exigiria 440 mil hectares de eucalipto e cortes anuais de 63 mil hectares.

Se as unidades consumirem mais madeira para gerar a mesma quantidade de energia, a necessidade anual poderá chegar a 82 mil hectares. Nesse caso, a área total subiria para 572 mil hectares. Usinas mais eficientes reduziriam tanto o consumo de biomassa quanto o volume de investimentos necessários.

As estimativas foram elaboradas pelo Itaú BBA com custo médio de R$ 35 mil por hectare durante um ciclo de 13 anos. A conta inclui a implantação, a manutenção e dois cortes, o primeiro aos sete anos e o segundo seis anos depois.

Para o produtor rural, a nova demanda abre uma possibilidade de diversificação e contratos de longo prazo. Com a madeira negociada perto de R$ 150 por metro cúbico, o retorno estimado do eucalipto pode superar a taxa básica de juros e alcançar valor equivalente a 30 sacas de soja por hectare.

A comparação não significa, porém, que as duas culturas ofereçam o mesmo tipo de renda. A soja gera receita a cada safra. O eucalipto exige investimento prolongado e deixa o capital imobilizado até o corte, além de envolver riscos de incêndio, produtividade abaixo do esperado e dependência de compradores próximos.

A distância das usinas também será decisiva. Como a madeira é pesada e ocupa grande volume, o frete pode consumir parcela importante da remuneração. As áreas localizadas próximas às fábricas tendem a ser mais competitivas e a receber propostas melhores.

O acordo ainda enfrenta uma tentativa de alteração. O governo estadual propôs permitir que até 5% da biomassa utilizada depois de 2035 continue vindo de áreas com supressão vegetal legalmente autorizada. A proposta está em discussão e pode influenciar a decisão de produtores e investidores sobre os novos plantios.

Mesmo que a exceção seja aceita, a substituição da madeira nativa exigirá uma expansão sem precedentes das florestas plantadas. E a conta considera apenas as usinas de etanol de milho. A inclusão das demais agroindústrias de alto consumo energético poderá elevar ainda mais a procura por eucalipto no Estado.

Fonte: Pensar Agro



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Brasil projeta 367 milhões de toneladas de grãos, mas El Niño ameaça R$ 33 bilhões da soja

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O Brasil caminha para uma nova safra recorde de grãos, mas a possibilidade de um El Niño intenso coloca em risco parte desse crescimento. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 366,6 milhões de toneladas em 2026/27, enquanto um estudo da Serasa Experian calcula que condições climáticas semelhantes às registradas durante o forte El Niño de 2023/24 poderiam reduzir a produção nacional de soja em 17,6 milhões de toneladas, com impacto potencial de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP).

As duas projeções mostram os diferentes cenários enfrentados pelo produtor rural. A estimativa da Conab representa crescimento de 1,4% sobre a safra anterior, sustentado principalmente pela ampliação da área plantada. Já o levantamento da Serasa Experian considera uma situação hipotética de adversidade climática, na qual a expansão das lavouras não seria suficiente para compensar as perdas de produtividade.

Segundo a 14ª edição das Perspectivas para a Agropecuária, elaborada pela Conab em parceria com o Banco do Brasil, a área nacional de grãos deverá alcançar 85,3 milhões de hectares. A produtividade média, entretanto, tende a recuar de 4.335 para 4.296 quilos por hectare. Isso significa que o crescimento previsto dependerá mais da incorporação de áreas cultivadas do que de ganhos no rendimento das lavouras.

O milho aparece como um dos principais responsáveis pela expansão. A produção total é estimada em 148 milhões de toneladas, aumento de 2,8%. A primeira safra deverá ocupar 4,54 milhões de hectares, crescimento de 10,7%, com colheita prevista de 32,1 milhões de toneladas, a maior em 13 anos. Na segunda safra, a projeção é de 113,2 milhões de toneladas, enquanto a terceira deverá acrescentar 2,6 milhões.

O interesse pelo cereal acompanha o crescimento da demanda para alimentação animal e a expansão das indústrias de etanol de milho. A Conab trabalha com exportações de 46 milhões de toneladas, volume que reforça a importância do mercado externo para o equilíbrio entre oferta e consumo.

Na soja, a estatal estima 49,3 milhões de hectares plantados e produção de 181,64 milhões de toneladas. O avanço da área, calculado em 1,4%, confirma a continuidade da expansão da oleaginosa, embora o resultado final permaneça condicionado à regularidade das chuvas durante o desenvolvimento das lavouras.

É justamente nessa dependência do clima que se concentra o alerta da Serasa Experian. O levantamento divulgado nesta quarta-feira (28) compara duas situações de produtividade: uma semelhante à safra 2023/24, marcada por um El Niño forte, e outra baseada nas condições consideradas neutras de 2024/25.

Na simulação, a produção brasileira de soja chegaria a 181,2 milhões de toneladas em condições neutras, mas cairia para 163,6 milhões sob um cenário semelhante ao El Niño anterior. A diferença de 17,6 milhões de toneladas corresponde a aproximadamente 293 milhões de sacas de 60 quilos.

Para dimensionar o efeito econômico, a empresa utilizou como referência o VBP da soja calculado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), de R$ 340,6 bilhões, e preços constantes. A diferença entre os cenários resultou em R$ 33 bilhões de produção potencialmente afetada. O valor não representa prejuízo já registrado nem previsão de perda efetiva de receita, uma vez que alterações na oferta também influenciam os preços de comercialização.

O risco climático é especialmente relevante em Mato Grosso, maior produtor de soja do País. Na simulação da Serasa Experian, a produção estadual cairia de 51,2 milhões de toneladas, em condições neutras, para 41,5 milhões em um cenário semelhante ao El Niño de 2023/24. A diferença de 9,7 milhões de toneladas equivale a mais da metade da redução estimada para o Brasil.

O levantamento considera que a produtividade mato-grossense passaria de 4.028 para 3.266 quilos por hectare. A irregularidade das chuvas, a ocorrência de veranicos e eventuais atrasos na semeadura estão entre os fatores capazes de comprometer o desenvolvimento das lavouras. Além da soja, um plantio tardio pode estreitar a janela ideal para o milho de segunda safra, ampliando os riscos sobre a produção do cereal.

Em Goiás, o estudo também identifica possibilidade de redução expressiva da colheita, estimada em aproximadamente 4 milhões de toneladas na comparação entre os cenários. Somados, Mato Grosso e Goiás concentrariam perto de 80% da diferença nacional projetada pela empresa.

No Rio Grande do Sul, o comportamento seria inverso. A maior disponibilidade de chuvas associada ao El Niño poderia favorecer as lavouras, historicamente expostas a períodos de estiagem. Na simulação, a produção gaúcha aumentaria de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas, ganho de aproximadamente 5,6 milhões. O benefício, entretanto, dependeria da distribuição das precipitações, já que volumes excessivos também prejudicam o plantio e elevam os riscos de doenças.

O estudo da Serasa Experian não substitui a previsão oficial da Conab. As metodologias e as áreas consideradas são diferentes: a estatal trabalha com 49,3 milhões de hectares de soja, enquanto a empresa projeta 49,9 milhões. Os resultados, portanto, devem ser interpretados como estimativas distintas, e não como confirmação de uma quebra já em andamento.

Além da soja e do milho, a Conab prevê produção de 10,76 milhões de toneladas de arroz, redução de 2,9% em relação ao ciclo anterior, e aproximadamente 2,9 milhões de toneladas de feijão. Para o algodão, a projeção é de 4,2 milhões de toneladas de pluma, em uma área de 2,09 milhões de hectares.

Para o produtor, o principal alerta está na relação entre o calendário agrícola e a produtividade. A definição da época de plantio, a escolha de cultivares adaptadas e o acompanhamento da umidade do solo ganham importância diante da possibilidade de chuvas irregulares. No Centro-Oeste, eventuais atrasos na soja ainda podem comprometer o planejamento da segunda safra de milho e algodão.

O cenário também exige atenção ao financiamento e à comercialização. Uma redução da produtividade diminui o volume disponível para cumprir contratos e pagar os custos da lavoura, enquanto oscilações de oferta podem alterar os preços dos grãos. Por isso, os R$ 33 bilhões calculados pela Serasa Experian representam a dimensão econômica de um risco, não uma perda financeira já determinada.

A safra 2026/27 começa, assim, com duas perspectivas: a possibilidade de o Brasil superar novamente sua produção de grãos e o risco de que o clima limite parte desse avanço. A área plantada está aumentando, mas serão as condições enfrentadas pelas lavouras nos próximos meses que determinarão quanto desse potencial chegará efetivamente aos armazéns.

Fonte: Pensar Agro



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