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Brasil projeta 367 milhões de toneladas de grãos, mas El Niño ameaça R$ 33 bilhões da soja

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O Brasil caminha para uma nova safra recorde de grãos, mas a possibilidade de um El Niño intenso coloca em risco parte desse crescimento. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) projeta uma colheita de 366,6 milhões de toneladas em 2026/27, enquanto um estudo da Serasa Experian calcula que condições climáticas semelhantes às registradas durante o forte El Niño de 2023/24 poderiam reduzir a produção nacional de soja em 17,6 milhões de toneladas, com impacto potencial de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP).

As duas projeções mostram os diferentes cenários enfrentados pelo produtor rural. A estimativa da Conab representa crescimento de 1,4% sobre a safra anterior, sustentado principalmente pela ampliação da área plantada. Já o levantamento da Serasa Experian considera uma situação hipotética de adversidade climática, na qual a expansão das lavouras não seria suficiente para compensar as perdas de produtividade.

Segundo a 14ª edição das Perspectivas para a Agropecuária, elaborada pela Conab em parceria com o Banco do Brasil, a área nacional de grãos deverá alcançar 85,3 milhões de hectares. A produtividade média, entretanto, tende a recuar de 4.335 para 4.296 quilos por hectare. Isso significa que o crescimento previsto dependerá mais da incorporação de áreas cultivadas do que de ganhos no rendimento das lavouras.

O milho aparece como um dos principais responsáveis pela expansão. A produção total é estimada em 148 milhões de toneladas, aumento de 2,8%. A primeira safra deverá ocupar 4,54 milhões de hectares, crescimento de 10,7%, com colheita prevista de 32,1 milhões de toneladas, a maior em 13 anos. Na segunda safra, a projeção é de 113,2 milhões de toneladas, enquanto a terceira deverá acrescentar 2,6 milhões.

O interesse pelo cereal acompanha o crescimento da demanda para alimentação animal e a expansão das indústrias de etanol de milho. A Conab trabalha com exportações de 46 milhões de toneladas, volume que reforça a importância do mercado externo para o equilíbrio entre oferta e consumo.

Na soja, a estatal estima 49,3 milhões de hectares plantados e produção de 181,64 milhões de toneladas. O avanço da área, calculado em 1,4%, confirma a continuidade da expansão da oleaginosa, embora o resultado final permaneça condicionado à regularidade das chuvas durante o desenvolvimento das lavouras.

É justamente nessa dependência do clima que se concentra o alerta da Serasa Experian. O levantamento divulgado nesta quarta-feira (28) compara duas situações de produtividade: uma semelhante à safra 2023/24, marcada por um El Niño forte, e outra baseada nas condições consideradas neutras de 2024/25.

Na simulação, a produção brasileira de soja chegaria a 181,2 milhões de toneladas em condições neutras, mas cairia para 163,6 milhões sob um cenário semelhante ao El Niño anterior. A diferença de 17,6 milhões de toneladas corresponde a aproximadamente 293 milhões de sacas de 60 quilos.

Para dimensionar o efeito econômico, a empresa utilizou como referência o VBP da soja calculado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), de R$ 340,6 bilhões, e preços constantes. A diferença entre os cenários resultou em R$ 33 bilhões de produção potencialmente afetada. O valor não representa prejuízo já registrado nem previsão de perda efetiva de receita, uma vez que alterações na oferta também influenciam os preços de comercialização.

O risco climático é especialmente relevante em Mato Grosso, maior produtor de soja do País. Na simulação da Serasa Experian, a produção estadual cairia de 51,2 milhões de toneladas, em condições neutras, para 41,5 milhões em um cenário semelhante ao El Niño de 2023/24. A diferença de 9,7 milhões de toneladas equivale a mais da metade da redução estimada para o Brasil.

O levantamento considera que a produtividade mato-grossense passaria de 4.028 para 3.266 quilos por hectare. A irregularidade das chuvas, a ocorrência de veranicos e eventuais atrasos na semeadura estão entre os fatores capazes de comprometer o desenvolvimento das lavouras. Além da soja, um plantio tardio pode estreitar a janela ideal para o milho de segunda safra, ampliando os riscos sobre a produção do cereal.

Em Goiás, o estudo também identifica possibilidade de redução expressiva da colheita, estimada em aproximadamente 4 milhões de toneladas na comparação entre os cenários. Somados, Mato Grosso e Goiás concentrariam perto de 80% da diferença nacional projetada pela empresa.

No Rio Grande do Sul, o comportamento seria inverso. A maior disponibilidade de chuvas associada ao El Niño poderia favorecer as lavouras, historicamente expostas a períodos de estiagem. Na simulação, a produção gaúcha aumentaria de 16,7 milhões para 22,3 milhões de toneladas, ganho de aproximadamente 5,6 milhões. O benefício, entretanto, dependeria da distribuição das precipitações, já que volumes excessivos também prejudicam o plantio e elevam os riscos de doenças.

O estudo da Serasa Experian não substitui a previsão oficial da Conab. As metodologias e as áreas consideradas são diferentes: a estatal trabalha com 49,3 milhões de hectares de soja, enquanto a empresa projeta 49,9 milhões. Os resultados, portanto, devem ser interpretados como estimativas distintas, e não como confirmação de uma quebra já em andamento.

Além da soja e do milho, a Conab prevê produção de 10,76 milhões de toneladas de arroz, redução de 2,9% em relação ao ciclo anterior, e aproximadamente 2,9 milhões de toneladas de feijão. Para o algodão, a projeção é de 4,2 milhões de toneladas de pluma, em uma área de 2,09 milhões de hectares.

Para o produtor, o principal alerta está na relação entre o calendário agrícola e a produtividade. A definição da época de plantio, a escolha de cultivares adaptadas e o acompanhamento da umidade do solo ganham importância diante da possibilidade de chuvas irregulares. No Centro-Oeste, eventuais atrasos na soja ainda podem comprometer o planejamento da segunda safra de milho e algodão.

O cenário também exige atenção ao financiamento e à comercialização. Uma redução da produtividade diminui o volume disponível para cumprir contratos e pagar os custos da lavoura, enquanto oscilações de oferta podem alterar os preços dos grãos. Por isso, os R$ 33 bilhões calculados pela Serasa Experian representam a dimensão econômica de um risco, não uma perda financeira já determinada.

A safra 2026/27 começa, assim, com duas perspectivas: a possibilidade de o Brasil superar novamente sua produção de grãos e o risco de que o clima limite parte desse avanço. A área plantada está aumentando, mas serão as condições enfrentadas pelas lavouras nos próximos meses que determinarão quanto desse potencial chegará efetivamente aos armazéns.

Fonte: Pensar Agro



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Bicheira ameaça bezerros e causa R$ 1,8 bilhão de prejuízo

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Uma ferida aparentemente pequena no umbigo de um bezerro recém-nascido pode se transformar em uma perda irreversível para o pecuarista. A mosca-da-bicheira, responsável por infestações que destroem tecidos vivos, está associada a prejuízos potenciais estimados em aproximadamente R$ 1,8 bilhão na bovinocultura brasileira.

O problema, frequentemente tratado como uma ocorrência rotineira nas fazendas, ganhou atenção em uma revisão científica publicada em 2026, que reúne pesquisas sobre o controle de parasitas na América Latina e destaca a mortalidade de bezerros entre os principais impactos econômicos.

O trabalho, publicado na revista científica Pathogens, produzido por um grupo internacional de pesquisadores, com participação da Embrapa Gado de Corte, de Campo Grande (MS), recupera uma estimativa de US$ 340 milhões em perdas atribuídas à Cochliomyia hominivorax, nome científico da mosca-da-bicheira.

O valor corresponde a R$ 1,7 bilhão. A estimativa original, entretanto, foi produzida a partir de dados anteriores e não representa um levantamento das perdas efetivamente registradas em 2026. Também não inclui integralmente despesas com mão de obra, medicamentos e tratamento dos animais.

A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) estuda o problema há décadas. Uma das contribuições mais diretamente relacionadas à realidade do produtor está na Embrapa Pantanal, que publicou orientações específicas para a prevenção e o tratamento das bicheiras em bezerros. O material chama atenção para um ponto decisivo: a proteção dos animais começa nos primeiros dias de vida, quando o umbigo ainda representa uma porta de entrada para a infestação.

A doença, conhecida tecnicamente como miíase, ocorre quando a fêmea deposita ovos nas bordas de ferimentos. Após a eclosão, as larvas passam a consumir tecidos vivos, aprofundando as lesões. Diferentemente de parasitas que se alimentam apenas de matéria orgânica em decomposição, a mosca-da-bicheira ataca o animal vivo e pode provocar infecções graves, sofrimento intenso e morte quando não há tratamento.

O risco é particularmente elevado nos recém-nascidos porque a região umbilical exige cicatrização e cuidados sanitários. Ferimentos provocados por castração, descorna, acidentes e outras práticas de manejo também favorecem a infestação. Em sistemas extensivos, nos quais os animais permanecem distribuídos por grandes áreas, a demora para identificar uma lesão pode agravar o problema.

O diferencial da pesquisa da Embrapa está em demonstrar que o controle não depende apenas de aplicar medicamentos depois que a bicheira aparece. Em estudos realizados com bezerros no Pantanal, pesquisadores avaliaram a eficácia de endectocidas utilizados na prevenção de miíases umbilicais. Os resultados, posteriormente incorporados à análise econômica nacional, registraram falhas de controle mesmo entre animais tratados, reforçando a necessidade de acompanhar a cicatrização do umbigo e verificar a resposta aos produtos empregados.

Um estudo publicado em 2014 na Revista Brasileira de Parasitologia Veterinária, com participação de pesquisadores da Embrapa Gado de Corte e da Embrapa Pantanal, reuniu resultados de diferentes investigações para dimensionar o impacto dos parasitas sobre a bovinocultura. No caso da mosca-da-bicheira, o cálculo considerou principalmente o risco de mortalidade de bezerros por infestações umbilicais.

A pesquisa recuperou um levantamento realizado no Centro-Oeste que identificou ocorrência de miíase umbilical em 40,7% dos bezerros acompanhados. Esse percentual se refere à população estudada e não deve ser interpretado como a incidência atual da doença em todo o rebanho brasileiro. Os pesquisadores também observaram que o uso de medicamentos preventivos não elimina completamente a possibilidade de infestação.

Essa constatação ajuda a explicar por que a bicheira continua representando um problema econômico mesmo em propriedades que mantêm programas sanitários. Além do custo dos tratamentos, a perda de um bezerro compromete o resultado da estação de nascimento, reduz o número de animais disponíveis para recria e representa a perda de um investimento feito ao longo da gestação.

Na pecuária leiteira, os efeitos também podem alcançar a produção. A morte de bezerros interfere no manejo das matrizes e pode gerar consequências adicionais sobre o aproveitamento produtivo das vacas, dependendo do sistema adotado. Em bovinos adultos, lesões graves podem comprometer o ganho de peso, a reprodução e o valor comercial dos animais.

A revisão científica de 2026 chama atenção para outra dificuldade: os custos indiretos da infestação ainda não estão completamente dimensionados. O tempo empregado na inspeção dos animais, a necessidade de separar bovinos para tratamento, as despesas veterinárias e o atraso no desenvolvimento de animais afetados aumentam o impacto econômico sobre as fazendas.

As condições climáticas também influenciam a presença do inseto. Temperaturas elevadas e ambientes favoráveis à reprodução das moscas ampliam a necessidade de vigilância, especialmente durante períodos de maior ocorrência de ferimentos e nascimento de bezerros. O risco, entretanto, varia conforme a região, a época do ano e o sistema de criação.

Para reduzir as perdas, as orientações técnicas da Embrapa destacam a importância dos cuidados com o umbigo dos recém-nascidos, da identificação rápida de feridas e do acompanhamento dos animais submetidos a procedimentos como castração e descorna. O tratamento de uma infestação instalada exige avaliação veterinária, eliminação adequada das larvas e proteção da lesão contra novas infestações.

O uso de medicamentos deve considerar produtos registrados para a indicação específica, dosagens corretas e períodos de carência para carne e leite. A aplicação indiscriminada de parasiticidas, além de aumentar os custos, pode favorecer problemas de resistência e comprometer a eficiência dos programas sanitários.

O principal alerta das pesquisas é que o prejuízo provocado pela mosca-da-bicheira não começa quando o produtor precisa comprar medicamentos. Ele começa quando uma lesão deixa de ser identificada a tempo e compromete a sobrevivência ou o desempenho de um animal. Na pecuária de cria, em que cada bezerro representa parte importante da receita futura, prevenir essas ocorrências é também uma medida de proteção do patrimônio da fazenda.

A estimativa bilionária recuperada pela literatura científica evidencia a dimensão potencial do problema, mas também revela a necessidade de atualizar os levantamentos econômicos brasileiros. Enquanto isso, a orientação mais consistente para o produtor permanece baseada em medidas conhecidas e comprovadas: vigilância do rebanho, cuidados sanitários nos primeiros dias de vida e tratamento imediato das lesões.

SAIBA MAIS
O artigo Management Practices for the Control of Haematobia irritans, Dermatobia hominis, and Cochliomyia hominivorax in Cattle Across Latin America: A Sustainable, Collective Approach,  foi publicado em 5 de fevereiro de 2026, na revista científica Pathogens, e tem como primeiro autor Roger Iván Rodríguez-Vivas, da Universidade Autônoma de Yucatán, no México. Entre os coautores estão Antonio Thadeu Medeiros de Barros, da Embrapa Gado de Corte, Marcelo Beltrão Molento, da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e André Antonio Cutolo, vinculado à Boehringer Ingelheim Animal Health, nos Estados Unidos. A pesquisa também contou com especialistas da Argentina, Colômbia, Uruguai e Alemanha.

Fonte: Pensar Agro



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