Opinião
Cigarro eletrônico: mocinho ou vilão?
Opinião
*Por Solange de Morais Montanha
Embora seja citado como um facilitador para quem deseja parar de fumar, tenha a fama de não fazer mal como o cigarro convencional, possua design moderno e aromas agradáveis, a realidade do cigarro eletrônico é bem diferente, ele vicia e é extremamente prejudicial à saúde. Tanto que os consultórios médicos estão lotados de usuários de “vape”.
Nos últimos anos, os Dispositivos Eletrônicos para Fumar (DEFs) ganharam muitos adeptos, especialmente entre os jovens, adolescentes e pré-adolescentes, muitos deles acreditam que a fumaça inalada é composta apenas por vapor de água.
Entretanto, nesses cartuchos há nicotina, que é o principal responsável pelo vício associado ao cigarro, e mais de 2.000 componentes químicos altamente tóxicos quando aquecidos e aspirados, conforme o artigo “O potencial tóxico de um cigarro eletrônico de quarta geração em linhas celulares de pulmão humano e explantes de tecidos”, divulgado pela J. Appl. Toxicol., em 2019.
Dentre as substâncias encontradas no e-cigarro estão THC, propilenoglicol, glicerina vegetal, álcool, aldeídos, acetonas, ácido acético, partículas ultrafinas, benzeno, lítio, estanho, alumínio, níquel, chumbo, entre outros elementos extremamente danosos à saúde.
Segundo pesquisas, os cigarros eletrônicos contêm nicotina derivada do tabaco, cuja concentração é muito superior à dos cigarros convencionais, o que significa que consumir um e-cigarro de 5ml com 5% de sal de nicotina, equivale a usar 250mg de nicotina, ou seja, fumar 250 cigarros convencionais.
Esses aparelhos mecânico-eletrônicos são alimentados por bateria e exalam um aerossol contendo elementos potencialmente nocivos que podem causar diversos tipos de câncer, a inflamação aguda no pulmão chamada EVALI (em português significa “injúria pulmonar aguda associada ao cigarro eletrônico ou vape”), asma, pneumonias, rinites, laringites, dermatites, doenças cardiovasculares, doenças neurológicas, entre outras.
E os malefícios em relação ao consumo do tabaco também podem se estender a parte reprodutiva no homem, que além de ter diversas doenças relacionadas, invalidez, ainda tem a diminuição do número e mobilidade dos espermatozoides, pode desenvolver impotência sexual e até se tornar infértil. Na mulher, a junção do tabagismo e o anticoncepcional oral aumenta o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e a chance de ter Infarto Agudo do Miocárdio (IAM).
Vale lembrar que quem respira essa fumaça, mesmo que passivamente, pode desenvolver os mesmos problemas de saúde que um fumante.
O crescente consumo do vape no Brasil é alarmante, apesar de ser proibida a comercialização, importação, propaganda, armazenamento, transporte e fabricação de cigarros eletrônicos, vedação que se aplica a acessórios, peças e refis. O ato proibitivo foi determinado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), em 2009.
Porém, a preocupação em barrar o uso dos dispositivos para fumar é global. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização das Nações Unidas (ONU) alertam que é necessário tomar medidas urgentes para proteger os menores de idade, os não fumantes e a população em geral dos efeitos lesivos dos cigarros eletrônicos na saúde.
Dados da Organização Pan-Americana de Saúde (Opas) mostram que o consumo de vape aumentou 600% nas Américas, nos últimos seis anos. Conforme a OMS, há 1,3 bilhão de tabagistas em todo o mundo.
O consumo de tabaco mata cerca de 8 milhões de pessoas ao ano, no planeta. Sendo que mais de 7 milhões são fumantes ativos e em torno de 1 milhão de fumantes passivos. Desse montante, 1 milhão de óbitos ocorrem nas Américas. No Brasil, o tabaco resulta no óbito de cerca de 162 mil fumantes por ano. A expectativa de vida dos fumantes é, pelo menos, 10 anos mais curta do que a dos não fumantes.
Ressaltando que o tabagismo é a primeira causa isolada, evitável, de mortes precoces em todo o mundo.
Em suma, o importante é ter a consciência de que o vício do cigarro convencional ou eletrônico traz sérias consequências à saúde. O ideal é não experimentar ou deixar de ser dependente de tabaco, fator que reduz o risco de doenças, estabiliza a capacidade pulmonar e melhora a qualidade de vida como um todo. Caso não consiga sozinho, o fumante deve buscar ajuda profissional.
*Solange de Morais Montanha é médica Pneumologista com doutorado em Saúde Pública, atende no Hospital São Mateus, em Cuiabá.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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