Opinião
Desigualdade e corrupção
Opinião
Por Hugo Fernandes*
Você acha mesmo que o grande problema do Brasil é a corrupção? Acha que o sistema político italiano, grego, inglês, francês ou norte-americano é menos corrupto que o brasileiro? Acha que existe menos corrupção em Wall Street do que na Avenida Paulista? Acha que a guerra e a reconstrução da cidade de Bagdá, no Iraque, privilegiou um grupo empresarial menor do que as construções dos estádios erguidos para o Mundial de futebol de 2014 no Brasil?
Se a resposta a todas essas questões foi sim, alerta. Cuidado! Pois junto da tese de “sociedade corrupta” se introduz uma outra tese sórdida, de um racismo científico propalado repetida vezes pela teoria social de Max Weber, em sua obra máxima – ‘Ética Protestante e o Espirito do Capitalismo’. Para ele, haveria a existência de povos moralmente melhores e, por consequência, mais merecedores dos privilégios só acessados pelo capital financeiro. Uma tese muito bem aplicada por Goebbels, Mussolini e Hitler, da dominação social pelas superclasses sociais ou raças superiores.
E se você ainda realmente acredita no conceito de meritocracia, outro alerta. A premissa é excludente e permeia todo o extrato social, segundo a qual não teríamos, então, iniciado passos atrás nesta corrida pelo progresso do capital social e moderno desenvolvimento econômico. Contra a maré, a máxima famosa do “jeitinho brasileiro”, de alcunha de Roberto da Matta, que naturaliza o pejo do complexo de inferioridade. Este sentimento bastardo e inglório que está incrustrado no mais profundo âmago de muitos brasileiros, em crise de identidade, fantasiado de patriotismo e patrimonialismo.
Os defensores da nação, do “pseudo-patriotismo”, usam símbolos da nação como pano de fundo para a formação do cenário ideal para a introjeção dos conceitos neoliberais do autoproclamado filósofo, Olavo de Carvalho. Aquele que trocou o Brasil, em 2005, por Richmon, Estados Unidos. E diga-se que são bravos brasileiros, corajosos em assumirem-se inferiores, pertencentes a uma sociedade exótica, latino-americana, portanto, moralmente inferior. Defendem que para prosperar, é preciso banhar-se nas águas das fontes do culturalismo simbólico norte-americano.
Mas onde ficam os inúmeros casos de corrupção que também assolam àquela nação? De Edward Snowden (Barack Obama) a Mark Zuckerberg (Donaldo Trump). Sejam eles democratas ou republicanos. Mas a corrupção, no caso brasileiro, recebe do sociólogo Jessé Souza o rótulo de “ouro de tolo”. Para um bom pantaneiro, “boi de piranha”. Acredite: existe um vilão ainda mais cruel, pior do que a corrupção que grassa no Estado, em parceria com a elite de empresários, lobistas e agentes públicos e suas pautas de interesse. Seu nome é desigualdade social.
A demonização do estado e a divinização do mercado, visto que os empresários são os que saem mais rápido da cena do crime em todos os escândalos em casos de crime de lesa-pátria. E ai, ao meu ver, usam da força de dominação social, para aplicar os protocolos do discurso do neoliberalismo econômico e do conservadorismo social como a panaceia gloriosa que irá nos livrar de todo o mal, de todos nossos pecados. Solução cara! A custo de suor do trabalhador, especialmente do braçal, que habita na base da pirâmide.
Aqui me incluo, como jornalista. Acontece que a imprensa brasileira tem por hábito cobrir massivamente a corrupção estatal. São raríssimos os escândalos de corrupção dentro de empresas privadas que ganham os noticiários. E quando acontece, é comum que estejamos falando daquelas empreiteiras que prestam serviços aos governos, recebem dinheiro público e, de brinde, ganham os flashes e holofotes do controle social.
No Big Brother da vida real, há que se compreender que não somos menos ou mais corruptos do que outros povos ou nações. Somos únicos, singulares, sui generis, diversos, miscigenados. Aqui, 1% da população possui mais riquezas do que a outra metade, a dita “ralé”. São 58 bilionários no Brasil, conforme o último levantamento da revista Forbes. Ao passo que milhões de brasileiros sobrevivem com R$ 1.045,00 de salário mínimo, dos quais R$ 517,51 são destinados à compra de alimentos, revela pesquisa do DIEESE.
Nessa disputa, ainda nota-se que parte considerável da “ralé” ainda insiste em defender a simbiose do discurso pró-manutenção do status quo. Tudo lindo nessa relação de domínio social. Assim, perdeu direitos trabalhistas e previdenciários. Passou a responder por CNPJ. Só que agora, estranhamente, corre para regularizar o CPF, para ter acesso aos programas sociais de um governo que, assim como ele, também tombou na curva da estrada neoliberal. Eis o famigerado Estado lançando mão de um socorro presente na angústia. Populismo de direita?
Te convido a olhar um pouco mais além, para cima e para baixo, neste “Poço” (assista na Netflix). Num mundo de muitos patamares de desigualdades, com grave crise sanitária global, surge o momento ideal para Jair Bolsonaro eternizar seu nome na história do Brasil, como grande estadista. Haverá culhão para enfrentar os interesses dos magnatas? Terá coragem de defender a regulamentação do dispositivo constitucional que estabelece, desde 1988, a taxação às grandes fortunas? Se não, precisará explicar com quem vai dividir a conta. Será que mais uma vez com os trabalhadores?
*Hugo Fernandes é jornalista, especialista em Comunicação Estratégica, Assessoria de Imprensa e Marketing Político.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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