"CAUSOS DA ROÇA"
Encontro com lobisomens e visita fantasmagórica de compadre; na roça acontece de tudo..
Pires e Albuquerque continua sendo Pires. A maioria dos moradores antigos se recusa a aceitar o novo nome {Alto Belo}. São eles que também contam “causos” arrepiantes que aconteceram no passado. Distrito norte-mineiro sediou base assombrada…
Opinião
Meu finado tio Ambrósio, sitiante em Pires e Albuquerque, distrito acanhado do Norte de Minas Gerais (atual Alto Belo), tornou-se conhecido por ser detentor de simpática prosa sobre ‘causos’ interessantes. Muitos o tinham como caçador implacável de lobisomens; fanfarrão, Ambrósio jamais desmentiu…
Por conseguinte, temas relacionados à ala sobrenatural tinham primazia em suas narrativas.
“Conto porque aconteceu comigo; agora, acreditem se quiserem…” – fustigava irônico, ao perceber ceticismo nos ouvintes.

Foto – Alberto de Oliveira Bouchardet
Pois foi lá, em ‘Alto Belo’ [atual nome de Pires, para contrariedade dos moradores mais antigos], que Ambrósio narrou ter enfrentado lobisomens, mulas sem cabeça e outros seres estranhos.
“Estão por aí o tempo todo, saracoteando nos caminhos da mata. Alguns, de forma encantada, tipo um pedaço de pau ou um animalzinho qualquer. Outros, já ficam invisíveis: aí você passa e nem vê…”, dizia.
Os adultos o ouviam respeitosamente, enquanto os mais jovens, apesar dos olhares atenciosos, continham gargalhadas.
Na cabeça da juventude, a roça é um mundo fantasioso, à parte da realidade. Divertiam-se, contudo.
Já as crianças, corriam esbaforidas ao ouvir a simples palavra “assombração”. Aquela seria mais uma noite de pavor, prenunciavam.
O tom de voz pausado e as sequenciais expressões sérias do sitiante Ambrósio reforçavam o clima macabro de suas narrativas…
Com público cativo na sala de estar do sítio, apesar de evidenciar cansaço físico pela dura labuta na roça, o carismático parente desandava a contar “causos”. Percebia-se franca euforia em sua voz acanhada, à medida que os relatos ganhavam formato apavorante.
Tais narrativas tinham lugar no início da noite, após o jantar. Todos se reuniam na pequena sala de estar do sítio, mobiliada por apenas um surrado banco e mesinha encardida, com duas cadeiras.
Havia quadros de santos nas paredes, como se protegessem a quantos estivessem naquela sala. Os parentes mais religiosos faziam o sinal da cruz ao olhá-los.
Havia gibis espalhados na mesinha [Tio Patinhas, Donald, Fantasma, Buck Jones e outras revistas]. Tentar ler à luz de trêmula lamparina (a querosene) se constituía em esforço cansativo. Melhor ouvir os relatos do tio Ambrósio…
Muitas horas avançadas se esvaeceram assim em deleite prazeroso, na sala de piso irregular, de chão batido. Dava gastura ver os pés descalços dos primos esfregando naquele barro duro. Nem lavavam depois…
Depois de casos e “causos”, o sono entremeava peso nas pálpebras, sinais prontamente percebidos pela zelosa tia Nina.
“Os meninos querem dormir, Ambrósio. Amanhã você conta mais…”
Poucas tias, devo frisar, foram tão amorosas conosco. Relembrar do convívio com tia Nina traz imediata associação aos cuidados que nossa mãe tinha conosco. Ela estampava bondade no sorriso, nos olhos verdes.
Não invariavelmente, a cada noite de ‘escuta-causos’ nossas roupas ficavam impregnadas de manchas causadas pela fumaça da lamparina.
“Amanhã, crianças, lavo pra vocês”, dizia tia Nina ao notar as manchas. ]
Como ela encontrava tempo para cuidar da meninada em meio a tantos afazeres no sítio?!
E antes que conciliássemos no sono, ela checava se estava tudo bem. Nunca reclamei dos pinicões do cobertor de lã. Jurava que tinha pulga me alfinetando o tempo todo…
Encontro com o lobisomem…
Certa vez, tio Ambrósio contou ter passado sufoco angustiante ao atravessar o Rio Verde, perto da sede de Pires, onde todos se movimentavam na estação ferroviária para aguardar a passagem do Trem Azul /Marrom [composições gêmeas siamesas].
Mal ele adentrou no rio, driblando a parte mais funda, eis que um homem-lobo graúdo veio em sua direção.
O sitiante tinha convicção de que um lobisomem andava pelas matas próximas. O principal suspeito era um alfaiate local, sujeito esquelético, de rosto variolado.
Sozinho no trecho, ele se lembrou de uma mandiga certeira pra afugentar lobisomens: arma branca.
Institivamente, desembainhou o facão médio que carregava e prendeu a lâmina entre os dentes, continuando a travessia pelas águas turvas do rio.
Conforme esperava, o lobisomem desconfiou dessa mutreta defensiva, rosnando de forma ensurdecedora. Valente, meu tio não se acovardou, e o olhou de frente, com ambas as mãos seguras no facãozinho.
Foi um momento em que tudo de ruim poderia ter acontecido, mas o bichão entendeu que, naquele instante, tinha diante de si um guerreiro da noite. E, precavido, não se aproximou do tio.
– Cheguei a pensar que fosse me atacar. Enquanto andava, a água fervia ao seu redor, precisava ver. Se viesse pra cima de mim, iria levar alguns golpes de facão. Eu estava preparado para o pior… – relembrava o tio ao contar esse episódio.
Na verdade, ele contava e recontava os mesmos “causos” várias vezes. Observei não fugir da linha original. Devia ser verdade…
Então…
Com um imenso lobisomem prestes a atacá-lo, tio Ambrósio demonstrou coragem excepcional. O bicho se intimidou e preferiu escalar o barranco do rio às pressas, em fuga providencial. Saiu uivando zangado ao rasgar as matas próximas…
Deu certo, a mandinga da arma branca…
Ambrósio enfrentou mais aparições aterradoras na região do capão, túnel de mata que utilizava no trajeto caseiro.
– Ali, sabe quem mora em Pires, é ponto de visagens de todo tipo. Parece até reunião do além. O sujeito só não pode é recuar: visagens não acuam corajosos…
Ele afirmou jamais ter se incomodado com isso, levando a vida de forma tranquila no vai e vem entre o sítio e a sede do distrito.
Dizia também que muitas coisas sinistras jamais terão sentido. Até que um dia perdeu um sitiante vizinho, seu amigo, vítima de infarto.
– Senti muito a morte dele, pois vinha sempre almoçar comigo, tomar café… Proseávamos por horas e horas! Então, de repente, o coração do sujeito parou. Parece que ainda o vejo sentado sorridente bem ali, no banco da sala…
No velório do amigo, Ambrósio bebericou um licor de jenipapo em sua homenagem, lembrando que aquela era sua bebida preferida nas conversas de almoço dominical.

Benonina Queiroz [tia Nina] Arquivo Pessoal
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Dias após o enterro do vizinho, lá pela meia-noite, após se revolver inutilmente na cama, à procura de sono, Ambrósio ouviu a cancela do sítio ranger fortemente ao ser aberta.
O estalo da trava metálica de fechamento também chegou aos seus ouvidos atentos…
– Pensei que fosse algum dos meninos (Ronaldo/Paulo) que tivesse ido olhar algo no curral, e nem liguei…
Tia Nina dormia placidamente o sono dos justos, e Ambrósio não quis acordá-la. Ficou sentado na cama, “assuntando” a estranha movimentação externa.
Um novo rangido indicou que a porta da sala fora aberta. Pior: passos se aproximavam lentamente do seu quarto…
– Nesse instante, pressenti que poderia ser ‘ele’, meu finado vizinho. Foi um pensamento instantâneo, mas fiquei quieto, de olho na entrada do quarto, que nem tinha porta. Pressenti que veria algo…
Mais passos pesados evoluíram pelo corredor da casa de taboca/barro, tilintando esporas…
“É ELE MESMO!”, pensou Ambrósio.
Olhar crivado na porta, não tardou para o tio ver uma figura embaçada assomar no espaço retangular, postando-se com jeito de querer avisar alguma coisa.
– O problema foi ouvir a sua voz, que reconheci no ato. Não pude ver direito o rosto da aparição, tudo muito confuso. Mas, a voz, não tive dúvidas: meu vizinho saiu da cova!
O defunto perambulante permaneceu estático na porta, passando a fornecer instruções para tio Ambrósio ir desenterrar um pote de ouro na árvore barriguda, perto das margens do rio.
– Só que exigiu que fosse sozinho, e à meia-noite. Complicado essas exigências…
“Não leve ninguém, Ambrósio, ou irá se arrepender!”, avisou a alma penada. Novo tilintar de esporas indicou que retornou ao sepulcro…
Cabreiro, Ambrósio nem contou nada à sua companheira Nina, preferindo aguardar.
A oportunidade de resgatar o pote de ouro, revolvendo as raízes da barriguda, surgiu com a chegada do parente mascate, tio Domingos.
Mascate veterano, tio Domingos ostentava fartos cabelos brancos, alvíssimos. Mesmo sem dentes, conseguia ser simpático ao sorrir banguela. Assim filava sucessivas hospedagens com os parentes roceiros e em outros locais (Bocaiúva, Belo Horizonte, São Paulo).
Esperto, o idoso mascate chegava sempre sem avisar, trajando impecável terno branco e chapéu, no autêntico estilo dos mafiosos italianos.
Muita elegância para quem vai ao miolo da roça…
Ambrósio inteirou Domingos sobre o pote de ouro, prometendo-lhe parte do tesouro se ele o ajudasse. Ambicioso, o mascate topou na hora. “Nem pie com ninguém”, pediu.
Combinaram então ir resgatar o pote no dia seguinte, à meia-noite, conforme a alma penada do vizinho recomendara.
Segundo o tio, seu amigo dissera estar no limbo, sem paz para descansar na eternidade, se acaso o pote não fosse desenterrado.
– Falei pra Domingos: vamos levar toda a tralha necessária: pá, enxada, carrinho de mão. O pote deve ser pesado. Minha patroa até desconfiou dessa movimentação, vi pelo seu olhar aos nossos preparativos.
– Não sei o que vocês estão armando: só recomendo para terem cuidado – alertou.
Medroso, tio Domingos ficou matutando uma das frases que ela disse:
– Não é bom cutucar o além. A cobrança é dura…
Medo é coisa de gente boba, tentou se convencer o mascate. Se a assombração do sitiante não mentiu, eles ficariam ricos. Pote de ouro é tentação irresistível…
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Devia ser perto da meia-noite quando os dois deixaram a humilde casa, carregando a tralha resgata-pote. Em face da noite enluarada, dava para ver parte da árvore barriguda, cuja galhada parecia ter sede de avançar, rumo ao céu…
O carrinho de mão foi rangendo impaciência pelo caminho de mato seco, e assim desceram ao mandiocal dispostos a voltar com o pote de ouro.
Tio Domingos comentou estar frio, mas Ambrósio entendeu ser fruto medroso do compadre. Zombeteiro, recomendou:
– Não vá se borrar todo, hein, Domingos? Com essas roupas brancas de festa, ficaria horrível…
Aliás, também nunca entendi o porquê de tio Domingos andar sempre de branco, calças rigidamente engomada; o chapéu [de abas curtas] complementava seu visual elegante…
NO PALCO DO POTE DE OURO…
A barriguda se manteve indiferente no plácido sono madrugador; as ferramentas levadas pela dupla de escavadores fizeram barulho metálico ao eclodir ferozmente contra as raízes da árvore.
Segundo o falecido informara, o pote de ouro estava bem ali…
Sempre precavido, tio Domingos deixou o serviço mais pesado a cargo do compadre Ambrósio, limitando-se a averiguar se tudo estava calmo nas imediações.
– Pelo visto, você veio apenas pra ficar aí, de braços cruzados, né, Ambrósio? Nunca vi alguém tão preguiçoso em minha vida! – reclames do sitiante enquanto alternava picaretadas nas raízes.
Domingos preveniu que a árvore poderia sucumbir, se as raízes fossem muito afetadas. Ao que o compadre explicou ser impossível.
– Estou abrindo buraco apenas de um lado; as laterais – e também o outro lado – intactos. Essa árvore é resistente, não cai fácil, não!. Viu a grossura das raízes?
Mais picaretadas e duas raízes grossas foram podadas, facilitando a escavação.
Animado, Ambrósio golpeou mais firme o lugar, para logo exclamar triunfante ao ver algo dourado cintilando abaixo.
– O vizinho [assombração] disse que eu avistaria o ouro brilhando. Lá está ele, estou vendo moedas cintilarem feito estrelas. Só pode ser isso! – comemorou.
Cobiçando o tesouro, Domingos ousou deixar sua vigília medrosa à parte da barriguda e se aproximou para ver se aquela informação procedia. Também visualizou brilhos cintilantes sendo irradiados do seio das raízes…
– Amigo Ambrósio: nós vamos é ficar ricos! – gritou eufórico.
Ambrósio concordou, novamente se preparando para desferir mais picaretadas e abrir confortável buraco para resgatar o tesouro.
Não é todo dia que alguém é presenteado com pote de ouro…
Eis que uma ventania súbita sacudiu os galhos encorpados da barriguda, estendendo-se às demais árvores próximas, a ponto de arrancar algumas.
Esse açoite ventoso assustou os escavadores da propriedade do além.
– Agora, Domingos, a coisa complicou, Domingos! – gritou Ambrósio ao sentir que alguma força estranha travava o manuseio da picareta, a ponto de sacudir seu braço.
Para complicar, os dois viram porcos correndo ao encontro da barriguda, e, sem esforço, subiram pela árvore, seguidos por tatus peba.
Era a primeira vez que assistiam suínos escalando árvores…
Também marimbondos torpedearam os escavadores com ferroadas implacáveis, seguindo-se gargalhadas tenebrosas, oriundas de todos os lados.
Um gemido angustiante brotou das raízes cortadas, protesto inequívoco. Isso foi o bastante para os dois saírem correndo, largando tudo pra trás…
Feito turbilhão, a dupla adentrou pela casa silenciosa do sítio, acordando tia Nina.
Somente então tio Ambrósio abriu o jogo, contando sobre o pote de ouro e a tentativa feita minutos antes.
– Você quebrou as regras ditadas pelo falecido. Não devia ter levado Domingos. Deu no que deu…
AINDA por várias noites, a assombração voltou a visitar Ambrósio, deixando claro que, para ter o pote de ouro em mãos, ele teria que ir sozinho.
Impacientado, Ambrósio respondeu que ele procurasse outro para doar aquele tesouro assombrado.
“Vou rezar para você descansar em paz. Mas, vou pedir: não venha mais aqui” – suplicou. O fantasma do vizinho nunca mais voltou ao sítio de Pires.
Próximo ao local onde a barriguda existia, ainda aparece uma estranha luz noturna, semprenafirma meu primo Sebastião Pimenta, Nem, morador próximo.

Sebastião Pimenta {Nem} construiu casa próximo à antiga barriguda. “Pote de ouro ainda está lá; brilha todas as noites”, diz. A seu lado, a esposa Zezé Queiroz
A árvore foi decapitada meses após, mas durante o dia. A partir daí, as assombrações deram trégua…
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– Acho que o pote de ouro se encontra lá, até hoje. Porém, só vai conseguir retirá-lo quem for autorizado pela alma – disse recentemente o primo Nem.
Ele salientou que o tesouro tinha destinação certa: seu falecido pai Ambrósio.
– Como já partiu, o pote vai continuar lá, de forma encantada. A luz azulada que sempre aparece simboliza isso.
EM TEMPO: também presenciei, na fase adolescente, uma estranhíssima luz brilhando no lugar em que essa fantasmagórica barriguda existiu. Olhava-a sempre fascinado, da janela da cozinha de tia Nina. Nem todos conseguiam vê-la quando apontei…
Por João Carlos de Queiroz, jornalista
Direitos Autorais Reservados
Opinião
ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO
Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.
Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.
Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.
O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.
Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.
O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.
Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.
Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.
* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário
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