"Opinião"

Educação: o início da minha história com Cuiabá

Publicado em

Opinião

Foto: Gustavo Duarte - Secom/Cuiabá

Quando cheguei em Cuiabá, no dia 8 de agosto de 1983, não imaginava quão linda era a história que começava a escrever nessa cidade. Uma história, de 39 anos, que ainda não chegou ao fim, mas que, na época, sabia perfeitamente por onde seria o começo: pela educação. Formado em geografia, com especialização em metodologia do ensino, vi no dom de lecionar a oportunidade certa para construir uma carreira profissional.

O ponto de partida foi a E.E. Alcebiades Calhao, no bairro Quilombo, passando por várias outras unidades municipais e estaduais, até chegar na EMEB Profª Pedrosa Morais e Silva, no bairro Novo Paraíso. Foram quase 20 anos dando aulas nos turnos da manhã, tarde e noite, sendo seis como diretor escolar. Um período desafiador da minha vida, com muitas barreiras enfrentadas, e um orgulho imenso que guardo no coração.

Me lembro até hoje da primeira vez que pisei em uma sala de aula. Ainda muito jovem, com 18 anos de idade, comecei em uma turma com alguns alunos idosos, no antigo ginásio. Uma experiência completamente nova, em que foi impossível esconder o nervosismo. Confesso que foi um pouco assustador, pois tinha que dominar os assuntos, falar em público, convencer as pessoas e, principalmente, entender e respeitar o processo de aprendizado de cada uma.

Com o passar do tempo, adquiri mais segurança e o respeito dos alunos. Fui me conhecendo, conhecendo cada estudante e, aos poucos, o que era assustador transformou-se em um prazer diário inexplicável e gratificante. Melhor que essa sensação, somente a alegria que toma conta do meu coração quando encontro um ex-aluno e vejo que, de alguma forma, pude contribuir para seu crescimento pessoal e profissional.

A vida pública me dá a chance de, frequentemente, provar esse sentimento. Andando pelas ruas, vistoriando ou entregando obras, sempre encontro com alguns ex-alunos que hoje são policiais, delegado, médicos. É muito gratificante quando estou com cada um deles e me dizem “Professor eu consegui estudar mesmo morando num bairro periférico. Consegui superar todas as barreiras. Consegui ter uma formação”.

Isso me faz pensar que, mesmo com toda dificuldade, é impossível não dizer que valeu muito a pena ter escolhido ser professor. Encaro cada etapa desse período como aprendizado, rodagem, conhecimento e experiência de vida. Foi a educação que me deu a possibilidade de ocupar meu primeiro cargo de liderança e isso me fez amadurecer. Foi uma preparação para o meu futuro e, talvez, o momento da vida que eu mais aprendi.

Me sinto muito honrado de ser professor, de ter lecionado, de ter sido diretor de escola, de ter trabalhado na área da educação por pelo menos 20 anos. É uma das profissões mais nobres que existem, embora nem sempre seja devidamente valorizada e reconhecida. Por isso, meus amigos professores, saibam que valorizo e respeito muito cada um de vocês, pois sei o quanto é difícil trabalhar na área da educação, especialmente no Brasil.

Sei também que, na condição de vice-prefeito, devo e vou continuar contribuindo para a valorização que o prefeito Emanuel Pinheiro dá para a educação. Estamos em uma gestão que respeita as questões salariais e todos os direitos adquiridos pelos servidores. E é exatamente esse o tratamento que merecem. Vocês merecem toda a gratidão do nosso município, pois são heróis que, com talento e muita força de vontade, geram diariamente uma série de impactos positivos na vida de todo ser humano. 

José Roberto Stopa – Prefeito em exercício de Cuiabá 

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Opinião

ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

Publicados

em


Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário



COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTE

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA