"Opinião"
O que acontece se a mulher decidir suspender a menstruação?
Opinião
Ou seja, a menstruação nada mais é do que um sinal fisiológico de que a mulher concluiu um ciclo preparatório para uma gravidez que simplesmente não ocorreu. Todos os meses, o útero se prepara para receber um embrião. Quando isso não ocorre, o endométrio, tecido que reveste o órgão, se desprende e é expelido com o sangue da menstruação.
Esse ciclo menstrual é um período que costuma causar desconforto para as mulheres, como cólicas, dor de cabeça, irritabilidade, inchaço e dor nas mamas e mudanças de humor.
Há quem a considere algo natural e fisiológico que não deve ser visto como um problema, e há também aquelas que, se pudessem, não menstruariam nunca mais por conta dos sintomas.
É possível, sim, suspender o ciclo menstrual por tempo indeterminado, principalmente quando representa uma opção para mulheres que sofrem com endometriose, anemia falciforme, cistos no ovário, miomas e TPM .
No entanto, é importante discutir as implicações da escolha de parar de menstruar, até como forma de conhecer melhor o próprio organismo. Antes de tomar uma pílula, é preciso conversar com um especialista.
Como todo medicamento, as pílulas anticoncepcionais podem ter efeitos adversos, afinal contêm hormônios artificiais cuja função é alterar o período ovulatório e menstrual. O tempo de adaptação aos medicamentos pode durar de três a seis meses e algumas mulheres podem ter dores de cabeça, irritabilidade, ansiedade e enjoos, além de pequenos sangramentos conhecidos como escape.
Se administrados a longo prazo, os anticoncepcionais que contêm estrogênio elevam o risco de trombose. Costuma ser um evento raro, mas é recomendado que o ginecologista investigue o histórico de cada paciente antes de receitar a medicação.
Além dos contraceptivos orais, há outros meios de interromper a menstruação, como por exemplo o DIU, que tem duração de cinco anos, os anticoncepcionais injetáveis trimestrais e os implantes contraceptivos subcutâneos, com duração de três anos.
Quem pode parar de menstruar?
Se uma mulher é saudável, não apresenta disfunções menstruais, nem sangramento anormal, mas quer suspender a menstruação mesmo assim, ela pode fazer isso. É uma decisão pessoal e que deve ser tomada em conjunto com o ginecologista, de preferência em uma conversa aprofundada.
É preciso saber se a paciente tem alguma doença, se faz uso de outras medicações, se já realizou cirurgias, se tem vícios, histórico de câncer, trombose, infarto ou AVC na família, quando foi sua primeira menstruação, como são os seus ciclos, seus hábitos de vida e sexuais
Infertilidade?
Ao parar de utilizar o anticoncepcional, o retorno à fertilidade deve ser rápido — teoricamente, o próximo ciclo menstrual após a suspensão do método deve ocorrer normalmente. Nas pacientes que usam anticoncepcionais injetáveis, esse retorno aos ciclos ovulatórios pode levar mais tempo, pois uma parte da medicação pode demorar mais para ser metabolizada no organismo.
Portanto, embora possa levar um período até que a menstruação seja regularizada em alguns casos, não há risco de perda da fertilidade em decorrência do uso do método. Pelo contrário, a pílula anticoncepcional é, inclusive, utilizada em alguns casos de reprodução assistida, para programar o ciclo antes da estimulação ovariana.
O mais importante é que as mulheres sejam orientadas pelo médico a respeito do funcionamento do próprio corpo e das formas de lidar com seu ciclo menstrual, que podem incluir ou não medicamentos, para poderem escolher o que é melhor para si.
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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