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A constipação intestinal e a fisioterapia pélvica

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Foto: Assessoria/Divulgação

A constipação ou prisão de ventre é um problema bastante comum e sugere que a pessoa tem dificuldade para evacuar. Nesse caso, é muito indicada a prática da fisioterapia pélvica, já que muitas vezes essa disfunção ocorre justamente devido a alguma alteração muscular ou tecidual na região anorretal.

É comum, nesta situação, a pessoa precisar realizar grande esforço para conseguir defecar, tendo a sensação de que há um bloqueio no canal anorretal e, muitas vezes, permanecendo com a vontade de evacuar, como se ela tivesse sido incompleta.

A fisioterapia pélvica, por meio de técnicas específicas, oferece benefícios que vão além da musculatura da pelvis. O treinamento físico e orientações para que os hábitos sejam, aos poucos, melhorados.

De forma geral, a atuação da fisioterapia pélvica para constipação intestinal envolve treinar e melhorar a coordenação da musculatura perineal, permitindo que a pessoa consiga contrair, relaxar e realizar os movimentos adequados para que a evacuação seja realizada no momento e do jeito correto.

Também auxilia no relaxamento da região perineal a fim de evitar que a tensão durante a evacuação cause dor, desconfortos ou mesmo bloqueie a saída das fezes e a corrigir a respiração, visto que até o movimento do diafragma pode influenciar na utilização da força adequada.

A fisioterapia pélvica ainda busca modificar comportamentos que atrapalham a evacuação, como a falta da rotina de ir ao banheiro após determinadas refeições, a posição inadequada junto à privada, não ter paciência ou então segurar quando se tem vontade, e também orienta quanto à importância de uma maior ingestão de fibras e de líquido. 

Os exercícios são eficazes quando a causa da prisão de ventre está associada a fatores comportamentais, como, por exemplo, a postura errada para defecar.

Técnicas que ajudam a reduzir a constipação

O fisioterapeuta utiliza diversas técnicas que podem ajudar para que a constipação intestinal deixe de fazer parte do dia a dia das pessoas como:

– Massagem abdominal: Com movimentos circulares, aumenta a motilidade intestinal e, consequentemente, a frequência das defecações;

– Treinamento para fortalecer o assoalho pélvico: Com exercícios específicos, o paciente passa a ter consciência corporal, ganhando capacidade de identificar e ter maior controle sobre a musculatura;

– Biofeedback eletromiográfico: Através de sinais auditivos ou visuais, essa técnica permite identificar a atividade das fibras musculares do assoalho pélvico. Com isso, o paciente se conscientiza sobre funcionamento da musculatura na prática, restabelece a coordenação e aprende a realizar corretamente a contração e o relaxamento do músculo;

– Treinamento postural: Trata-se da orientação sobre a postura adequada para que a evacuação ocorra de forma mais natural. No caso, sabe-se que ao se sentar, o cólon fica dobrado, impedindo o fluxo de resíduos. Assim, para quem sofre de prisão de ventre, o ideal é tentar evacuar agachado, ou seja, com os joelhos dobrados na altura do peito.

Importante lembrar que para um tratamento adequado para constipação intestinal, além da fisioterapia pélvica, é fundamental contar com o apoio de um médico gastroenterologista e um nutricionista.

Juliana Miranda é fisioterapeuta pélvica, especialista em disfunções  urinárias, proctológicas e  sexualidade  feminina e integra a equipe multidisciplinar do IGPA.

 

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ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO

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Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.

Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.

Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.

O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.

Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.

O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.

Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.

Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.

Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.

* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário



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