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“Doutor, minha bexiga está baixa.”

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Foto: Assessoria/Divulgação

Diferente do que popularmente conhecemos, a Bexiga baixa não é a mesma coisa que a Incontinência Urinária. São doenças diferentes que possuem, em grande parte, os mesmos fatores de riscos, e, portanto, muitas vezes elas estão associadas.

A bexiga baixa é uma condição que surge pelo enfraquecimento ou pela perda de elasticidade dos músculos e ligamentos do assoalho pélvico, que dão sustentação a bexiga, não conseguindo mantê-la exatamente em seu lugar, e, por isso, ela ‘desce’ da sua posição normal, podendo ser tocada facilmente através da vagina.

Também chamada de cistocele, prolapso da bexiga ou bexiga caída, é mais frequente nas mulheres com mais de 40 anos de idade, que já tenham engravidado. A mulher pode apresentar somente a bexiga caída, mas também pode acontecer a queda do útero ou do intestino ao mesmo tempo.

Os principais sintomas de bexiga baixa são caroço na vagina, que pode ser vista à olho nu ou sentida com os dedos durante o toque vaginal; sensação de peso na bexiga; sensação de bola na vagina; dor ou desconforto na região pélvica; fraqueza ou flacidez dos músculos e ligamentos do períneo; dificuldade na passagem da urina, durante os primeiros segundos de micção; urgência e aumento da frequência urinária; sensação de que a bexiga está cheia mesmo após ter urinado; dor ou irritação na vagina durante o contato sexual; ressecamento vaginal.

O diagnóstico da bexiga baixa é feito pelo ginecologista através da avaliação do sintomas, histórico de saúde e do exame pélvico, sendo possível visualizar a bexiga e o grau da queda, classificando-a de acordo com o estádio do Prolapso: de 1 (leve) a 4 (avançado). Além disso, o médico pode solicitar exames, como ultrassom transvaginal, ressonância magnética para complementar o diagnóstico.

Possíveis causas

Alguns fatores podem contribuir para o desenvolvimento da bexiga baixa, como: idade, sendo mais comum após os 50 anos, histórico familiar de cistocele, parto vaginal; múltiplas gestações; obesidade ou sobrepeso; prisão de ventre crônica; esforço excessivo para evacuar; menopausa; tosse crônica; cirurgia para retirada do útero; síndrome de Marfan; Síndrome de Ehlers-Danlos.

Tratamento

O tratamento da bexiga baixa deve ser orientado pelo ginecologista e varia de acordo com o estadiamento da cistocele. Deve ser sempre associado às mudanças no estilo de vida, como: perda de peso, deixar de fumar e combater a prisão de ventre.

Os principais tratamentos para bexiga baixa são: exercícios de Treinamento Muscular do Assoalho Pélvico, orientados por um fisioterapeuta especializado; inserção do Pessário Vaginal, dispositivo de silicone que fornece suporte para a bexiga; e alguns remédios à base de estrogênio os quais podem ser indicados pelo ginecologista durante a menopausa para ajudar a controlar os sintomas da cistocele.

Cirurgia

A cirurgia para bexiga baixa pode ser indicada pelo ginecologista para os casos mais graves e/ou sintomáticos de cistocele, e consiste em reforçar as estruturas da região pélvica para restaurar a posição correta da bexiga, útero e de todas as estruturas que estejam ‘caídas’.

A via cirúrgica mais utilizada é a vaginal, sem cortes e incisões na pele ou parte externa do corpo, sendo toda correção realizada através do canal vaginal. O médico pode colocar uma ‘rede’ para servir de apoio para os órgãos pélvicos, o que é bastante eficaz.

É importante consultar o ginecologista sempre que surgem sintomas da bexiga baixa, para que seja feito o diagnóstico correto e iniciado o tratamento mais adequado, a fim de que ela resgate sua qualidade de vida.

Dr. Flávio Fortunato é ginecologista e obstetra, especialista em uroginecologia, e integra as equipes das clínicas Vida e Eladium.

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O jogo acaba. O “nós contra eles”, não

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A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.

Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.

O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.

A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.

É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.

Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.

Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.

A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.

No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.

Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar



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