Opinião
Meio ambiente, saúde e qualidade de vida
Opinião
A sustentabilidade geralmente é associada às questões ambientais, na capacidade de produção de bens, auto reparação de recursos naturais e atividades econômicas. Porém, também está relacionada à vida em vários aspectos através de uma visão integrada, que envolve toda a sociedade, seja no âmbito social, cultural, educação e, obviamente, possui total relação com a saúde.
Quando pensamos em não poluir os rios e mares, vias públicas, evitar desmatamentos, praticar alimentação sustentável, fazer coleta de lixo seletiva, cuidar do ecossistema, estamos praticando ações que visam o equilíbrio do meio ambiente, sem prejudicá-lo, para vivermos melhor a longo prazo, proporcionando maior sobrevida ao planeta em que vivemos.
Diante do contexto, é importante a reflexão sobre a relação desta temática com o campo da promoção em saúde, visto que cada vez mais as políticas e ações de sustentabilidade aproximam-se das demandas e ações dos serviços de saúde, diante dos custos elevados que observamos para haver manutenção e recuperação da saúde da população.
A degradação dos ambientes naturais num ritmo acelerado, como por exemplo a emissão de gases poluentes aumentando o efeito estufa, a redução da qualidade e disponibilidade da água, aumentam muito o risco de desenvolvimento de doenças, mortes e resulta em prejuízos à qualidade de vida e saúde das pessoas e gerações futuras. Sem contar com o aparecimento das doenças conhecidas como zoonóticas.
Assim como para promoção e prevenção da saúde, vale ressaltar que a principal forma de contribuir com a sustentabilidade é a mudança de comportamento das pessoas, principalmente adquirindo hábitos saudáveis de vida, reduzindo os impactos e preservando o meio ambiente para garantir assim saúde e bem-estar para todos.
Portanto, a sustentabilidade é essencial para promoção da saúde pois estão interligados, e o incentivo ao desenvolvimento sustentável favorece locais físicos e sociais para realizar por exemplo, práticas como redução da toxicidade alimentar, poluição do ar e ambiente, água limpa e saneamento básico, serviços de saúde de qualidade, o que reflete diretamente em um indivíduo saudável.
Importante também ressaltar aqui o papel fundamental da iniciativa privada na adoção de práticas sustentáveis, as empresas sustentáveis e a economia verde.
Por fim, muitos componentes da vida social que contribuem para uma vida com qualidade são também fundamentais para que indivíduos e populações alcancem um perfil elevado de saúde, para além dos hábitos de vida individuais.
É necessário mais do que o acesso a serviços médico-assistenciais de qualidade, é preciso enfrentar os determinantes da saúde em toda a sua amplitude, o que requer políticas públicas saudáveis, uma efetiva articulação intersetorial do poder público e a mobilização da população.
Dra. Natasha Slhessarenko é medica, professora da UFMT, conselheira do CFM e empresária
Opinião
O jogo acaba. O “nós contra eles”, não
A Copa do Mundo está chegando ao fim justamente quando o Brasil entra na fase mais sensível de uma eleição presidencial atravessada por um país em estado de tensão. Não é apenas coincidência de calendário. É um contraste revelador. Durante algumas semanas, a camisa da Seleção cria uma identidade coletiva rara em um país profundamente dividido. O gol faz desconhecidos se abraçarem sem perguntar em quem o outro votou. A comemoração não pede carteira de filiação partidária. O canto da torcida dispensa declaração de posicionamento ideológico.
Por alguns dias, o Brasil lembra que ainda consegue compartilhar emoções antes de compartilhar convicções. A Copa não resolve nossas fraturas. Apenas decreta um breve cessar-fogo na guerra permanente em que transformamos a política. Talvez esse seja o maior constrangimento da política brasileira: um gol ainda consegue unir o que a própria política insiste em separar.
O problema é que o Brasil que reaparece depois da Copa não é um país leve. É um país desconfiado, intoxicado pela lógica do “nós contra eles” e marcado por anos de rupturas políticas. Já tivemos impeachment, prisão de ex-presidentes, uma eleição atravessada por uma facada, contestação do resultado das urnas, tentativa de golpe de Estado, entre outros fatos. Não é pouca coisa. Em menos de uma década, passamos a tratar a derrota eleitoral como uma tragédia nacional e a ruptura entre brasileiros como um efeito colateral aceitável.
A democracia brasileira não chega a 2026 apenas dividida. Chega com um número cada vez maior de brasileiros convencidos de que quem pensa diferente representa um perigo. O problema não começa quando dois lados pensam diferente. Começa quando um deles conclui que o outro perdeu o direito de pensar diferente. A partir daí convencer deixa de ser o objetivo. Basta derrotá-lo, calá-lo ou expulsá-lo do debate.
É justamente aí que a Copa encontra a política brasileira. Na Copa, o brasileiro sofre, reclama, critica o técnico, promete nunca mais assistir, mas sabe que haverá outro campeonato. A derrota dói, mas não vira certidão de óbito do país. Na eleição polarizada, acontece o oposto. O resultado deixa de ser uma alternância natural da democracia e passa a ser tratado como um apocalipse. Se o meu lado perde, acabou o Brasil. Se o outro vence, a tragédia já estava anunciada. A política brasileira parece ter encontrado no medo o seu cabo eleitoral mais eficiente. Em 2026, não basta prometer um futuro melhor. É preciso convencer o eleitor de que o futuro do outro será insuportável.
Não por acaso, pesquisas recentes mostram que a disputa presidencial já não se organiza apenas em torno da preferência do eleitor, mas também do medo da vitória do adversário. Em levantamento recente, brasileiros foram perguntados qual resultado lhes causaria maior preocupação: uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro ou a reeleição de Lula. O dado diz muito. Em vez de escolher quem parece mais capaz de conduzir o país, uma parcela do eleitorado já vota pensando em quem precisa ser impedido de governar. Quando o medo ocupa o centro da disputa, a esperança deixa de pedir voto e passa a disputar espaço com o pânico.
Talvez a maior lição da Copa seja justamente aquela que a política brasileira parece ter desaprendido: adversário não é inimigo. No futebol, ninguém propõe acabar com o time rival para conquistar o título. Pelo contrário. Sem adversário, não há jogo, não há campeonato e não há campeão. Na democracia deveria valer a mesma regra. Mas a polarização resolveu fazer uma inovação curiosa: quer preservar a democracia eliminando justamente aquilo que a torna possível, a existência de quem pensa diferente. O adversário virou ameaça, o voto virou julgamento moral e a divergência passou a ser tratada como defeito de caráter. E, quando isso acontece, a eleição deixa de escolher governantes para começar a escolher quem merece pertencer ao país.
A Copa termina, mas deixa uma provocação para a política brasileira. O campeonato acaba. A democracia, felizmente, não. Ela continua na conversa entre vizinhos, no trabalho, nas reuniões de família e em todos os lugares onde seguimos convivendo com quem votou diferente. É justamente aí que futebol e política deixam de jogar a mesma partida.
No futebol, o VAR revisa o lance e, confirmada a decisão, o jogo segue. Na política, há sempre quem queira rever o lance mais uma vez, como se um novo replay tivesse o poder de mudar um resultado já homologado, apenas porque o placar não saiu como a “torcida” esperava. No futebol, isso é apenas inconformismo. Na política, é a recusa em aceitar que o apito final também vale para as eleições. É assim que o “nós contra eles” continua sendo o único vencedor, independentemente de quem vença nas urnas.
Christiany Fonseca é Cientista Política e Doutora em Sociologia pela UFSCar
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