ARTIGO EM DEFESA DA MULHER
Quando a violência doméstica terá fim?
“É preciso garantir a autonomia econômica das nossas mulheres, ou até mesmo aos pontos mais simples como a equidade no trabalho doméstico familiar”
Opinião
A Organização das Nações Unidas (ONU) apresenta o fim da violência doméstica como um dos objetivos mais importantes do século e mesmo diante de toda luta, conquista e os avanços nos direitos da mulher e da igualdade de gênero é preciso entender as causas e saber o que de fato é preciso fazer para acabar com esse mau assola a nossa sociedade.
A violência sistêmica contra a mulher é consequência de desigualdades históricas que foram construídas por meio de manifestações extremas, as quais transitam nos campos social, político, cultural e econômico da absoluta maioria das sociedades e culturas.
A ausência desse entendimento sobre as desigualdades, e a forma como elas se relacionam aos papéis associados ao gênero masculino e feminino, é o que leva à negação de direitos e diferentes níveis de tolerância social à violência, gerando assim, mais violência.
Os comportamentos sociais estabelecidos pela sociedade brasileira entre homens e mulheres cria e perpetua espaço para que a violência aconteça à medida que alguém não se encaixe nos padrões impostos tornando essas diferenças em desigualdades, principalmente quanto a discriminação da condição feminina.
É preciso entender essas desigualdade para construirmos, a partir desse entendimento, ações e políticas que buscam reverter esse quadro discriminatório que impõe agressões contra as nossas mulheres e meninas.
É necessário nos debruçarmos sobre as causas enraizadas na cultura dessa violência, diferente da forma como temos agido, concentrados na causa e consequência. A Lei Maria da Penha, que completa 15 anos, foi um ponto de partida para moldar todas as formas de combate à violência contra mulher que conhecemos.
E mesmo com seus avanços históricos ainda precisamos instigar o debate sobre as culturas de violências no designo de forçar uma brusca mudança no comportamento e mentalidade desses padrões machistas instalados em nossa sociedade.
Se faz necessário o desprendimento dos papéis da masculinidade e feminidade presentes em nosso processo educacional desde que nascemos, porque elas colidem diretamente nas mudanças dos padrões sociais e, portanto, geram impactos negativos.
Essa abolição ao pensamento machista, da supervalorização das masculinidades e das formas como as desigualdades de gêneros se reproduzem, deve ser debate nos lares, nas escolas, nas faculdades e em todos os níveis da vida, porque o fim da violência doméstica está, exclusivamente, ligado às ações que assegurem o protagonismo feminino por meio de políticas públicas de educação, autonomia econômica, financeira e outras.
É preciso garantir a autonomia econômica das nossas mulheres, ou até mesmo aos pontos mais simples como a equidade no trabalho doméstico familiar. Por que não? É necessário estimular mudanças significativas na sociedade, em todas dimensões, para pensarmos mais nas medidas de prevenção e não nas remediáveis.
O fim da violência doméstica, devemos pensar sempre pelo fim, passa pela reinicialização do papéis estabelecidos por homens e mulheres, os quais devem ser reescrito sob uma linha tênue do ponto de vista existencial que venha a inibir desigualdades em todas as instâncias, por que ela, a desigualdade, é munição de todas as formas de violências.
Opinião
ELIÇÕES NO BRASIL QUARENTA ANOS DEPOIS O PÊNDULO POLÍTICO MUDOU DE LADO
Há eleições que simplesmente escolhem governantes e parlamentares. Outras encerram ciclos, reorganizam forças e revelam mudanças profundas na sociedade. O Brasil viveu uma dessas eleições em 1986. Quarenta anos depois, em 2026, parece viver um movimento de direção inversa.
Em 1986, o país ainda respirava os primeiros ares da redemocratização depois de 21 anos de regime militar, iniciado em 1964. A eleição ocorreu sob o impacto da Nova República, das Diretas Já, da eleição de Tancredo Neves e também da enorme popularidade inicial do Plano Cruzado. O resultado foi avassalador: o PMDB conquistou 22 dos 23 governos estaduais e elegeu 260 dos 487 deputados federais e sozinho, 53% da Câmara. Na eleição para o Senado, conquistou 38 das 49 vagas então disputadas.
Do outro lado estava principalmente o sistema partidário que carregava parte da herança política do regime anterior. O PDS, sucessor da Arena, que sustentara politicamente os governos militares, sofreu uma derrota histórica: ficou com apenas 33 deputados federais, dois senadores eleitos e nenhum governador. O PFL, nascido de uma dissidência do próprio PDS e aliado do governo Sarney, porém, conquistou 118 deputados. Isso demonstra que 1986 não representou simplesmente uma vitória da “esquerda”, mas uma gigantesca reorganização do poder em favor das forças da redemocratização.
O próprio PMDB reunia correntes progressistas, moderadas e conservadoras. Tanto que, durante a Assembleia Constituinte, uma parcela importante de seus parlamentares participou do chamado Centrão. Ainda assim, naquele momento histórico, conceitos como democracia, direitos sociais, participação popular, ampliação das liberdades e construção de uma nova ordem constitucional ocupavam o centro da agenda nacional. O Congresso eleito em 1986 produziria a Constituição de 1988.
Quarenta anos depois, o pêndulo mudou de direção.
As eleições de 2026 apresentam uma fotografia quase inversa na correlação de forças. O PL elegeu 121 dos 513 deputados federais, ampliando sua bancada em 24 cadeiras e tornando-se, com enorme vantagem, o maior partido da Câmara. A federação PT-PCdoB-PV ficou com 82 deputados.
No Senado, a mudança é ainda mais impressionante. Das 54 cadeiras disputadas, o PL conquistou 19. Considerados também os parlamentares com mandato até 2030 e as alterações decorrentes das eleições estaduais, a legenda deverá iniciar 2027 com 28 dos 81 senadores, contra nove do PT e oito do MDB. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura do Senado desde a Constituição de 1988.
O simbolismo histórico é extraordinário. Em 1986, o PMDB conquistou 38 das 49 cadeiras senatoriais em disputa; em 2026, o PL conseguiu 19 das 54. São magnitudes diferentes, mas os dois resultados expressam momentos de forte reorganização do sistema político. Em 1986, o partido identificado com a redemocratização ocupava o centro do poder. Em 2026, uma força política de identidade predominantemente conservadora assume a maior bancada das duas Casas do Congresso.
Há, portanto, uma interessante simetria histórica. 1986 foi uma eleição marcada pelo desejo de afastamento da ordem política construída durante o regime militar; 2026 revela o fortalecimento de forças conservadoras depois de quatro décadas nas quais direitos sociais, Constituição de 1988 e agendas progressistas tiveram enorme presença no debate político brasileiro.
Isso não significa que o Brasil tenha permanecido progressista durante quarenta anos, tampouco que tenha se tornado integralmente conservador agora. A história política brasileira nunca foi tão linear. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda e coalizões extremamente heterogêneas. O próprio segundo turno presidencial de 2026 ainda será disputado, demonstrando que a sociedade permanece profundamente dividida.
Mas o Congresso que saiu das urnas oferece um dado impossível de ignorar: o conservadorismo deixou de ser apenas uma força de resistência às mudanças e passou a ocupar uma posição central na organização institucional do poder.
Em 1986, o eleitor brasileiro ajudou a enterrar eleitoralmente boa parte da estrutura partidária herdada do regime militar. Em 2026, quarenta anos depois, o eleitorado promove outra mudança de eixo.
A história raramente se repete da mesma maneira. Ela trabalha por movimentos, contradições e reações. O pêndulo que em 1986 se deslocou em direção à redemocratização e à expansão dos direitos agora se movimenta em direção ao conservadorismo.
Quarenta anos depois, não estamos assistindo à repetição de 1986. Estamos assistindo, em muitos aspectos, ao seu movimento inverso.
* João Edisom de Souza – Analista político e professor universitário
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